terça-feira, 30 de agosto de 2016

O QUE É EUTANÁSIA, ORTOTANÁSIA, DISTANÁSIA E SUICÍDIO ASSISTIDO?

Existe muita desinformação e controvérsias acerca do direito de escolher a própria morte, em determinadas circunstâncias. Vamos então tentar esclarecer pontos importantes dessas condutas.



A morte sempre foi e sempre será um tema muito presente em relação a condição humana, não apenas por ser uma certeza absoluta da vida, mas também por todo mistério e tabu que a cercam. Diversos pensamentos filosóficos e religiosos buscam explicar a morte e dar sentido a vida humana, ao passo que a própria morte, em determinados momentos históricos e culturas, acaba se tornando um tabu. Com o avanço da medicina, prolongar a vida foi possível através da descoberta de vacinas, antibióticos e do tratamento de muitas doenças simples, na medida em que outras doenças mais sérias e incuráveis começavam a se expandir. Vencemos a varíola e a tuberculose, a poliomielite, mas fomos surpreendidos pelo HIV, pelo aumento nos casos de câncer, e não conseguimos vencer ainda as doenças degenerativas como a doença de Huntington, Parkinson e Alzheimer, assim como as doenças genéticas. Então surge uma tentativa de minimizar a dor causada por essas enfermidades, uma forma de aliviar o sofrimento do paciente. Não entrarei aqui no discurso moral ligado a certo e errado, o propósito desse texto é ser informativo. 

EUTANÁSIA, ORTOTANÁSIA, DISTANÁSIA E SUICÍDIO ASSISTIDO


Desde cedo, o acadêmico de medicina é moldado para enxergar a morte como “o maior dos adversários”, o qual deverá ser impiedosamente confrontado e vencido graças ao avanço da ciência, da tecnologia ou mesmo da competência individual. A morte de um paciente muitas vezes é, real ou simbolicamente, o atestado de falha, de que em algum ponto algo deu errado e não foi possível salvar o paciente. É, sem sombra de dúvida, uma carga de responsabilidade e estresse para o médico realmente compromissado com a missão de salvar vidas e garantir o bem estar de seus pacientes. Mas em algum momento a morte sempre sai vitoriosa e quando o médico sabe que esse momento vai chegar, é possível que ele possa cuidar de seu paciente apenas garantindo que sofra menos e viva seus últimos momentos de forma digna até sua partida. 

Justamente, o termo eutanásia é oriundo do grego, tendo por significado boa morte ou morte digna. Etimologicamente eutanásia, significa "morte boa" (eu = bom/boa; thánatos = morte) ou "morte sem grandes sofrimentos". 

"Foi usado pela primeira vez pelo historiador latino Suetônio, no século II d.C., ao descrever a morte “suave” do imperador Augusto: A morte que o destino lhe concedeu foi suave, tal qual sempre desejara: pois todas as vezes que ouvia dizer que alguém morrera rápido e sem dor, desejava para si e para os seus igual eutanásia (conforme a palavra que costumava empregar) (Suetônio, 2002). Séculos depois, Francis Bacon, em 1623, utilizou eutanásia em sua Historia vitae et mortis, como sendo o “tratamento adequado às doenças incuráveis”(apud Jiménez de Asúa, 1942)"

Existem alguns tipos de eutanásia, trago a definição de Neukamp (1937):

  •  Eutanásia ativa, ato deliberado de provocar a morte sem sofrimento do paciente, por fins humanitários (como no caso da utilização de uma injeção letal);

  •  Eutanásia passiva, quando a morte ocorre por omissão em se iniciar uma ação médica que garantiria a perpetuação da sobrevida (por exemplo, deixar de se acoplar um paciente em insuficiência respiratória ao ventilador artificial);

  • Eutanásia de duplo efeito, quando a morte é acelerada como consequência de ações médicas não visando ao êxito letal, mas sim ao alívio do sofrimento de um paciente (por exemplo, emprego de uma dose de benzodiazepínico para minimizar a ansiedade e a angústia, gerando, secundariamente, depressão respiratória e óbito).



Já Martin, (1998) entende a eutanásia da seguinte forma:

  • Eutanásia voluntária, a qual atende uma vontade expressa do doente – o que seria um sinônimo do suicídio assistido;

  • Eutanásia involuntária, que ocorre se o ato é realizado contra a vontade do enfermo – ou seja, sinônimo de “homicídio”;

  • Eutanásia não voluntária, quando a morte é levada a cabo sem que se conheça a vontade do paciente.


De acordo com as Leis do nosso país a eutanásia é vista como homicídio, mas em países como Suíça, Bélgica e Holanda é considerada uma prática comum. Segue um vídeo que mostra um exemplo de eutanásia, de uma mulher que sofria com uma doença dolorosa mas não-letal e mesmo assim optou por morrer.





Ortotanásia é deixar que o paciente siga seu caminho natural para a morte sem aumentar-lhe a vida de forma artificial, ou seja, apenas o acompanhamento para que a morte seja menos sofrível possível e de forma natural. Alguns pacientes, em países europeus e nos EUA, por exemplo, tem ordens de não ressuscitação em caso de parada cardio-respiratória, o que abrevia sua existência e impede os esforços médicos de mantê-lo vivo.

Temos ainda a Distanásia, cujo primeiro significado veio em 1904 por Morcache, para caracterizar uma agonia prolongada que origina uma morte com sofrimento físico ou psicológico do indivíduo lúcido. O termo é bastante utilizado hoje na intenção de designar a forma de prolongar a vida de modo artificial, sem perspectiva de cura ou melhora (Pessini, 2001). Pessoas em estado vegetativo que vivem através de aparelhos são um exemplo de distanásia. 

Outro conceito que é confuso, o suicídio assistido (também chamado de morte assistida) é quando uma pessoa solicita o auxílio de outra para morrer, caso não consiga matar-se por si mesma. No suicídio assistido o paciente está consciente e verbaliza seu desejo de morrer, enquanto que na eutanásia, nem sempre o paciente está consciente. Um exemplo disso seria um paciente em coma, mantido vivo com ajuda de aparelhos. Nesse exemplo a eutanásia seria então autorizada por um membro da família.



Referências:

SIQUEIRA-BATISTA, Rodrigo. SCHRAMM, Fermin Roland. Eutanásia: pelas veredas da morte e da autonomia. Ciência & Saúde Coletiva, 9(1):31-41, São Paulo, 2004.

PESSINI, L. Distanásia. Até quando prolongar a vida? São Camilo-Loyola, São Paulo, 2001.

Martin LM. Eutanásia e distanásia, pp 171-192. In SIF Costa, G Oselka & V Garrafa (orgs.). Iniciação à bioética. Conselho Federal de Medicina, Brasília. 1998.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

O QUE É DEPRESSÃO PÓS-PARTO

Existem muitos mitos e desinformação aceca da depressão pós parto, uma condição que afeta muitas mulheres e que é muitas vezes mal diagnosticada, o tratamento nem sempre é o correto e há riscos para a mãe e para o bebê. Falaremos um pouco disso no artigo de hoje.


O QUE É A DEPRESSÃO PÓS PARTO?

A gravidez é um processo natural, bastante desejado por algumas mulheres que tem o desejo de ser mãe, mas que pode gerar muitas fantasias, medo e angústias, mesmo a mulher tendo todo suporte do seu companheiro e da família. Questionamentos como "será que vou dar conta?", "vou ser uma boa mãe?" podem criar no imaginário dessa mãe uma cacofonia de pensamentos desencadeando ansiedade e enfraquecendo sua auto confiança. 

A depressão pós-parto ou DPP é um problema de saúde pública e ocorre, em geral,  nas primeiras quatro semanas após o parto, podendo se estender e atingir o ápice alguns meses depois. Os sintomas mais comuns apresentados por essas mulheres são desânimo, sentimentos de culpa, alterações do sono, ideias suicidas, medo/desejo de machucar o filho, alteração do apetite e diminuição da libido. Saber diferenciar sintomas depressivos e “sequelas normais” de dar à luz, como as alterações no peso,
sono e energia é um desafio que torna mais complicado ainda o diagnóstico clínico. 

Segundo Ruschi, Sun, Mattar, Filho, Zandonade, Lima: 
"... menos de 25% das puérperas acometidas têm acesso ao tratamento, e somente 50% dos casos de
depressão pós-parto são diagnosticados na clínica diária." 

Significa dizer que ainda existe um contingente de mulheres que não se tratam, por diversos motivos, desde falhas na rede de encaminhamento até carência de locais com atendimento especializado, assim como existe uma dificuldade em diagnosticar o problema por parte dos profissionais de saúde. 

Alguns fatores psicossociais são associados a DPP, tais como baixa escolaridade, baixo nível econômico, baixo suporte social, histórico de transtorno psiquiátrico, baixa auto estima, stress, abuso de drogas, ansiedade pré-natal, gravidez não planejada, tentativa de interromper a gravidez, sentimentos negativos em relação à criança. Não significa que toda mulher que tenha DPP apresente todos esses fatores, mas que eles podem favorecer o surgimento da DPP. Mesmo assim, é possível uma puérpera com apenas um ou dois fatores de risco desenvolver DPP. 

Estudos epidemiológicos demonstram que a prevalência da DPP na população geral é de 10% a 20%, e em mães adolescentes adolescentes dos 14 aos 18 anos de idade essa taxa sobe para 26% (Troutman & Cutrona, 1990).

"A relação entre o período do pós-parto e as perturbações psiquiátricas foi reconhecida há cerca de 2000 anos atrás. Curiosamente, a primeira descrição de um caso de perturbação mental no pós-parto foi feita no século XVI por um médico Português, João Rodrigues de Castelo Branco, que na altura exercia em Roma ('de uma mulher que ao dar à luz se tornava melancólica e louca’) (Brockington, 1996, p.166)"

Existe ainda a psicose puerperal, que é quando a paciente apresenta sintomas de alucinações, delírios e perda de insight, rápidas oscilações do humor que podem incluir alternância entre humor deprimido e elevado ou irritabilidade, insonia ou pensamentos obsessivos. Estima-se que mais de 5% das mulheres possam cometer suicídio e que 2-4% representam um risco direto considerável para os seus
bebés (Knopps, 1993). Estudos têm mostrado que a maioria das mulheres com Psicose Puerperal
preenche os critérios para perturbação bipolar (Kendell et al., 1987; Kumar et al., 1995).

O parto é um dos fatores preponderantes no desencadeamento dos episódios bipolares, em mulheres vulneráveis (Brockington, 1996). Muitos estudos revelam que aproximadamente 65% destas irão sofrer episódios psicóticos subsequentes não puerperais (Benvenuti et al., 1992). Cerca de dois terços irão ter recaídas em gravidezes futuras. Contudo, comparativamente às mulheres que têm episódios de psicose não puerperal, as que sofrem de PP têm uma menor probabilidade de serem readmitidas em hospitais psiquiátricos e quando readmitidas a duração do internamento é menor (Platz & Kendell, 1988), sugerindo um melhor prognóstico. A PP costuma remitir após algumas semanas de tratamento.

Uma mulher com depressão pós parto ou psicose puerperal está sujeita a diversos riscos, dos quais podemos destacar suicídio, auto agressão, agressão ao bebê, dificuldade em cuidar da criança e de si mesma, incapacidade para voltar as atividades cotidianas. Desta forma é de suma importância que essa paciente esteja sempre acompanhada por alguém da família que possa dar suporte, jamais deixando-a sozinha.

O risco de suicídio é um dos maiores problemas deste quadro, portanto as orientações acerca de pacientes potencialmente suicidas se aplicam aqui, mesmo que não haja nenhum indício ou manifestação de comportamento suicida. Evitar que a pessoa tenha acesso fácil a cordas, instrumentos perfuro-cortantes, medicamentos, venenos e substâncias químicas, janelas abertas. Existem muitos casos relatados de suicídio de puérperas que não deram sinais da ideação e cometeram o ato por impulso, desta forma é preciso estar sempre atento e ter cuidado redobrado com estas pacientes.

TRATAMENTO E PROGNÓSTICO

O tratamento é feito através de medicação prescrita pelo psiquiatra e psicoterapia realizada por um psicólogo. O psicólogo irá tirar as dúvidas dos familiares, fornecer as orientações necessárias à família e ajudar a paciente a suportar esse período tão difícil. Já a medicação tem papel de amenizar os sintomas, auxiliar no controle da ansiedade, da angústia, da falta de sono e apetite, da apatia e/ou da agitação. Quando bem diagnosticado e tratado da forma correta o prognóstico é muito bom, no caso da DPP, em geral alguns meses após o início do tratamento a paciente começa a ter uma remissão dos sintomas. Com relação a Psicose Puerperal isso varia muito, depende muito de cada caso. É fundamental que a paciente seja sempre assistida pelos profissionais.

Temos que ter em mente que a mulher não escolhe estar assim, de forma alguma, é uma ignorância tremenda pessoas que culpam a paciente pelo seu estado. Existem fatores biológicos e psicossociais ligados a esse quadro, então é preciso que haja um entendimento de que é uma doença e que precisa ser tratada. Falo isso porque muitas pessoas não buscam o tratamento, acham que é besteira ou que imaginam "isso vai passar". Se essas pessoas falassem com um profissional e fossem devidamente diagnosticadas precocemente poderia se evitar muitas fatalidades.




Referências:

MORAESA, Inácia Gomes da Silva. PINHEIRO, Ricardo Tavares. SILVA, Ricardo Azevedo da. HORTA, Bernardo Lessa. SOUSA, Paulo Luis Rosa. FARIA, Augusto Duarte. Prevalência da depressão pós-parto e fatores associados. Rev Saúde Pública, 2006;40(1):65-70. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rsp/v40n1/27117.pdf/> Acesso em: 02/08/2016.



RUSCHI, Gustavo Enrico Cabral. SUN, Sue Yazaki. MATTAR, Rosiane. FILHO, Antônio C. ZANDONADE, Eliana. LIMA, Valmir José de.  Aspectos epidemiológicos da depressão pós parto
em amostra brasileira. Rev Psiq 03. 2004.  Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/rprs/v29n3/v29n3a06> . Acesso em: 02/08/2016.


MAIA, Berta Maria Marinho Rodrigues. Perfeccionismo e depressão pós-parto. Tese de Doutoramento. Faculdade de Medicina de Coimbra, Portugal, 2011. Disponível em: <https://eg.sib.uc.pt/bitstream/10316/18179/1/Tese%20doutoramento_Berta%20Rodrigues%20Maia_pdf.pdf>. Acesso em: 02/08/2016.

BALONE, G. Depressão Pós-parto. Disponível em: <http://www.cemp.com.br/textos.php?id=40>. Acesso em: 02/08/2016.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

SUICÍDIO ENTRE JOVENS: 'OS PAIS NÃO DIALOGAM COM SEUS FILHOS'

Gostaria de deixar aqui o link para uma entrevista que forneci para um portal sobre psicologia. A entrevista é acerca do suicídio, um tema importante que deveria ser mais abordado e que deveria ter mais atenção das autoridades. Segue o início da entrevista.



"Uma jovem de 19 anos transmitiu ao vivo seu suicídio, quando decidiu se jogar na frente de um trem. O que leva uma pessoa a fazer algo assim? Psicólogos falam de falta de diálogo e apoio."

Se você nunca teve que lidar de forma direta com o problema do suicídio na sua família, seguramente conhece alguém (que conhece alguém) que sim. Os casos podem acontecer em diferentes faixas etárias e nunca são fáceis de assimilar e superar.
Também estão as histórias que ganham repercussão nas mídias e redes sociais, gerando comoção e abrindo o debate para outras questões, como falta de controle sobre o que é divulgado, a responsabilidade de quem reproduz a notícia e o efeito que pode provocar em quem está passando por problemas similares.
Em maio, uma jovem francesa de 19 anos usou um aplicativo de celular para transmitir ao vivo seu suicídio, gravando quase 30 minutos de imagens que terminaram com ela se jogando na frente de um trem, na cidade de Égly, a 40km de Paris.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 800 mil pessoas se suicidam por ano no mundo inteiro. E é importante lembrar que, para cada caso efetivado, há várias tentativas não consumadas, o que agrava ainda mais as estatísticas. Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a segunda principal causa de morte, segundo dados de 2012.
Os números servem para evidenciar a gravidade do tema, considerado pela OMS como um grave problema de saúde pública. Por trás de cada número há uma história de vida, marcada por uma trajetória de sofrimento e, muitas vezes, incompreensão.
O que leva uma pessoa a cometer suicídio? O que está por trás de casos como o da jovem francesa? Como ajudar quem está numa situação de risco? Convidamos dois psicólogos, Leonardo Viana de Vasconcelos Martins e Maitê Hammoud, para responder algumas perguntas sobre o tema. Confira suas entrevistas agora.


http://br.mundopsicologos.com/artigos/suicidio-entre-jovens-os-pais-nao-dialogam-com-seus-filhos

sexta-feira, 18 de março de 2016

COMO SABER SE O PSICÓLOGO QUE ESCOLHI É UM BOM PROFISSIONAL?

Recentemente uma paciente de outro estado me procurou porque leu meu blog que falava sobre seu atual problema e num simples contato por e-mail ela achou que eu tinha mais conhecimento/ competência do que o profissional psicólogo que ao qual ela se consultava. Segundo ela "ele só fazia perguntas sexuais, era psicanalista". Eu expliquei a ela o problema dela, como era o tratamento caso realmente fosse o diagnóstico e dei os devidos encaminhamentos. Ela sentiu mais confiança numa pessoa que não conheceu pessoalmente do que no profissional ao qual fazia acompanhamento e isso me fez ter a ideia desse texto. Como saber se o psicólogo que eu escolhi para me ajudar é um bom profissional?


É preciso ter em mente que em qualquer profissão podemos nos deparar com profissionais mal formados, despreparados ou mesmo muito inteligentes, mas com pouca (ou nenhuma) competência para seguir aquela carreira. Como trabalho na saúde, escuto muitos relatos de pacientes queixando-se do tratamento que recebem dos médicos. Nesses relatos há queixa de falta de humanidade no atendimento, "o médico nem me olhou, nem me examinou, fez umas perguntas e foi passando uma receita", do descaso e até da rispidez "Doutor, eu continuo sentindo dor" e o médico responder "Não posso fazer nada". Fico inclusive curioso para entender como esses médicos são formados, o que é passado sobre como atender um paciente. A pessoa não é uma doença e muito menos um prontuário ou pedaço de carne. Um paciente doente é uma pessoa em sofrimento com toda uma história de vida e deve ser acolhida e respeitada. Infelizmente isso não ocorre na prática.

Em psicologia não e muito diferente. Já soube de muitos absurdos e essas pessoas continuam por aí promovendo não um tratamento sério, mas um embuste ao paciente leigo que muitas vezes não faz ideia de que está sendo enganado. Assim como na Medicina, a Psicologia também lida com vidas, uma psicoterapia mal executada, a falta de preparo do psicólogo e o fato do mesmo nunca ter feito terapia para lidar com seus próprios conflitos pode sim causar danos irreparáveis a um paciente que esteja fragilizado, ou que tenha propensão ao suicídio. 


Outro exemplo comum, não menos repugnante, são os psicólogos que se aproveitam da fragilidade do paciente para seduzi-los e ter aventuras sexuais. Psicologia é uma ciência que estuda o comportamento humano, as patologias mentais, as dificuldades das relações interpessoais. Então se o seu psicólogo sugere uma "massagem" para você relaxar alguma coisa está errada. Esse tipo de atitude além de ser antiética, é imoral e mancha toda uma categoria. Existem alguns tipos de terapia que podem envolver o toque, mas isso é explicado e existe um contexto clínico. 

O bom terapeuta percebe quando a terapia está muito erotizada e caso não consiga reverter a situação ele deve encaminhar o paciente para outro profissional. Você pode estar se perguntando "mas e se eu me apaixonar pelo terapeuta e ele por mim?" Nesses casos, se ambos decidirem manter um relacionamento sério, o tratamento com esse profissional chega ao fim e, deve ser continuadonão deve se relacionar afetivamente com seus pacientes, não deve se envolver sentimentalmente com eles, uma vez que isso compromete todo trabalho terapêutico e pode ter consequências catastróficas. vou dar um exemplo disso. 
caso haja necessidade, por outro psicólogo. O que quero deixar bem claro aqui é que o psicólogo profissional


Imagine que a moça vai ao psicólogo para trabalhar seus sentimentos de baixa autoestima porque foi rejeitada pelo namorado e tem um histórico de rejeição na família. Eis que nesse momento onde ela se encontra fragilizada ela se sente atraída pelo psicólogo e este, pela sua incompetência ou qualquer que seja o motivo (injustificável), se envolve com ela, eles se beijam, fazem sexo, trocam mensagens. É então que esse psicólogo, que via isso como uma aventura, decide "terminar" com a paciente.  A paciente com histórico de rejeição, sentimentos de baixa estima e deprimida não suporta e comete suicídio. É plenamente possível. A seguir, deixo algumas dicas para ajudar o paciente leigo a reconhecer um bom terapeuta.


  • Pergunte acerca da formação desse profissional, que tipo de casos ele atende, onde ele se formou, que tipo de trabalho desenvolve, qual sua experiência. Isto lhe ajuda a conhecer um pouco do lado profissional e técnico do profissional.
  • Se possível, busque informações sobre o terapeuta com outros pacientes atendidos por ele ou em instituições onde ele trabalha. 
  • Sempre pergunte sobre o seu tratamento, diagnóstico ou qualquer dúvida que surja durante a terapia. Muitas pessoas tem vergonha, medo ou acham que isso é desnecessário. Não é. Quanto mais você souber sobre isso, melhor.
  • Desconfie de qualquer situação estranha na terapia, questione os objetivos do que o terapeuta propõe e peça para que ele informe como aquele procedimento pode ser útil com você.
  • O tratamento psicológico é baseado na conversação, e na aplicação das orientações fornecidas pelo profissional. Qualquer coisa que vá além disso questione. 
  • Qualquer tentativa de contato físico, troca de fotos ou mensagens é estranho. Desconfie. 
  • Mesmo que o terapeuta siga o código de ética isto não faz dele um bom profissional. Falta de conhecimento técnico pode tornar a terapia um processo sem resultados. Caso não sinta melhora no seu problema, depois de algum tempo em terapia, converse com seu terapeuta sobre isso. 
  • É preciso ter confiança e empatia com o profissional que você escolheu para lhe tratar. Sem isso, a terapia pode ficar estagnada. Caso não se sinta à vontade com o psicólogo que escolheu ou não se sinta confiante nada te impede de procurar outro profissional. Não insista em algo que não está te dando retorno.
  • Por fim, existem muitas abordagens psicológicas, assim como a medicina tem suas ramificações, e determinados problemas às vezes necessitam de uma abordagem específica. Como saber que tipo de abordagem pode tratar seu problema? Pergunte ao seu terapeuta ou ao Conselho de Psicologia da sua região.

Uma última observação. O tratamento psicológico geralmente é uma jornada demorada e difícil, muitas vezes requer tempo e investimento do paciente na sua melhora, logo a responsabilidade também é do paciente em seguir as orientações do profissional. A melhora dos sintomas, do problema que o paciente está vivenciando nem sempre vem rapidamente, porque a conscientização do comportamento e a mudança de atitude são processo lentos, na maioria das vezes. 

Caso você sinta que algo está errado ou que o paciente está indo além da terapia realizando práticas inadequadas denuncie. Além de te prejudicar ele provavelmente já prejudicou outro e irá prejudicar muitos. Busque o conselho de psicologia que contemple sua região, é fácil achar na internet, e se informe sobre o que está acontecendo e faça a denúncia. Só assim poderemos extirpar os profissionais antiéticos do meio e permitir que as pessoas tenham atendimento de qualidade. 

Espero que essas dicas tenham ajudado, me ponho a disposição para qualquer dúvida, crítica ou sugestão.  

quinta-feira, 10 de março de 2016

MEU FILHO NÃO ME OBEDECE, O QUE EU FAÇO?

O título desse post refere uma pergunta constante que me fazem no consultório, algo que perpassa a grande maioria dos pais na atualidade, que não sabem como reagir ou reagem de formas ineficientes com seus filhos que apresentam comportamentos "inapropriados".

A primeira coisa que os pais tem que entender é que a criança é um ser em desenvolvimento que absorve e reproduz os comportamentos ou situações que vivencia. Um exemplo prático é que se você fala palavrão em casa, o pequeno naturalmente vai falar esse palavrão em algum momento, porque a imitação/reprodução faz parte do aprendizado.. Os pais parecem esquecer que uma criança não tem a mesma maturidade emocional e intelectual que um adulto, e por isso deve ser orientada constantemente sobre o que é certo e o que é errado. Daí chegamos no problema do nosso modo de vida moderno onde as funções de educação e orientação, em geral, são transferidos para terceiros: escola, babá, avós. Os pais tem que trabalhar, afinal criar um filho gera muita despesa, e o ritmo de trabalho diminui o tempo de contato com os filhos. Esse distanciamento gera uma série de sentimentos conflitantes na criança, que geralmente exibe o que os analistas do comportamento chamam de variabilidade comportamental, uma expressão de atitudes diferentes. É o que as pessoas definem como criança inquieta, travessa. Na grande maioria das vezes o mau comportamento de uma criança é reflexo de um ambiente no qual algo está faltando para aquela criança, seja educação, limites ou atenção dos pais.


O QUE FAZER QUANDO MEU FILHO NÃO OBEDECE?

Não existe uma cartilha ou conjunto de regras para lidar com isso, porque as situações são as mais variadas possíveis, embora a queixa seja semelhante, a de que seu filho não te respeita e desobedece você. O que vou falar a seguir são algumas orientações, atitudes simples que podem melhorar muito essa relação.


  • Estabeleça mais contato com seu filho, olhe sempre nos olhos dele quando falar algo importante, fale próximo dele, diminua a distância. 
  • Nunca ponha seu filho de castigo sem motivo e sempre deixe claro quando ele fizer algo indevido.
  • Tenha regras na casa. Crianças precisam se acostumar com regras, portante é interessante que elas tenham horário para tomar banho, dormir, estudar, comer.
  • Evite contradizer suas próprias regras. Ser rígido demais não é bom, mas ser liberal demais é igualmente desaconselhável. Procure sempre equilibrar as coisas. Evite abrir exceções para essas regras o tempo todo. Ex: Dormir mais tarde uma vez porque está vendo um filme/jogando vídeo game, mas que isso não se torne rotina. 
  • No caso de irmãos, evite favorecer um, as regras devem valer para todos de forma mais igualitária possível.
  • Passe ensinamentos morais, deixe claro o certo e o errado. Quando mais nova a criança, mais simples deve ser a explicação, conforme eles crescem você pode dar mais detalhes e exemplos.
  • Brinque com seus filhos, converse com eles, abrace, beije. O carinho é um grande alimento para a formação dos pequenos.




Para finalizar, vou citar um caso que atendi uns anos atrás. Era uma mãe jovem que chegou com a filha de 3 anos, muito desesperada porque sua filha estava com tricotilofagia. Nesse transtorno mental a pessoa desenvolve uma compulsão por arrancar seu cabelo e engolir. O cabelo não é digerido pelo suco gástrico no estômago, depois de um tempo existe uma bola de cabelo alojada no estômago da pessoa que deve ser retirada através de cirurgia. É um transtorno que eu só havia visto em adultos. Naquele dia era uma criança de 3 anos que sofria com isso. Depois de entrevistar a mãe e a criança eu percebi o quão tumultuada era a relação delas. Mãe solteira, tinha que trabalhar e cuidar da filha. Brigava com a menina, agredia ela muitas vezes sem motivo, descontando suas frustrações na criança. Durante a terapia tratei mais a mãe do que a filha, orientando, dando suporte que ela não tinha da família, todos a culpavam pelo fracasso de ser mãe solteira. Depois de um tempo, ela parou de descontar na filha aquela raiva do mundo, de ter sido abandonada pelo companheiro, de não ter um bom emprego e de ser criticada pela família, Passou a brincar mais com a filha, a conversar mais com ela, a passear e a dar afeto. Naturalmente, a menina não mais arrancou os cabelos e cessou o comportamento nocivo. Neste caso específico não foi necessária nenhum tipo de medicação, apenas terapia. A mãe me agradeceu muito ao final do tratamento e não mais retornou para atendimento psicológico comigo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

COMO FUNCIONA A ORIENTAÇÃO VOCACIONAL?

Muitas pessoas me perguntam como funciona a orientação vocacional, se essa técnica dá resultados, quando e como deve ser usada. Alguns nem sabem que ela existe ou que isso é possível. Existem ainda os que fizeram orientação vocacional várias vezes sem resultado satisfatório. Vamos falar um pouco do tema e tentar responder a essas perguntas de forma objetiva e clara. 

A orientação vocacional é uma técnica utilizada para identificar as competências de uma pessoas e a correlação dessas competências com as funções existentes no mercado de trabalho, ou seja, verificar quais são as aptidões e interesses de uma pessoa e em que emprego isso se encaixa. A orientação vocacional começou a ser de fato, estudada por psicólogos, na Segunda Guerra Mundial, quando o EUA estavam selecionando soldados para as forças armadas. Daí veio a Revolução Industrial abrindo um leque de novas possibilidades de trabalho, e o mundo passava ao mesmo tempo por mudanças na estrutura da sociedade. 

Mas não pense que a orientação vocacional é uma teoria isolada, ela se baseia em teorias psicológicas que procuram explicar e compreender o comportamento humano. Uma das teorias na qual a orientação vocacional se apoia coloca que:

"... a decisão vocacional é um processo que ocorre durante um período extenso da vida e não num momento determinado; à medida que o indivíduo cresce, os fatores da realidade tornam-se cada vez mais importantes como determinantes da escolha vocacional (...) está relacionada com sua inteligência, nível socioeconômico dos pais, necessidades de status, valores, interesses, habilidades nas relações interpessoais..."(LEVENFUS, BANDEIRA, 2009) 


Muitos fatores interferem na sua escolha vocacional de uma pessoa, como o dito acima, não só os interesses particulares do indivíduo, mas também o meio externo, as condições sociais e econômicas, a influência familiar, a cultura e o ambiente. Além disso, as constantes situações que o sujeito vive acabam por modificar sua percepção da realidade e seus próprios interesses. Se aquela pessoa irá encontrar satisfação no seu trabalho quando esse trabalho permitir que a pessoa seja quem é, ou seja, que realize seus valores, que utilize seus talentos, que permita com que se sinta útil e possibilite que realize seus desejos. O que as teorias psicológicas tentam englobar são as aptidões, interesses, características da personalidade e autoconceito que formam o comportamento. A partir do entendimento dessas categorias é possível desenvolver um sistema matemático e descritivo onde é possível encaixar cada pessoa, mesmo com suas individualidades e particularidades, em cargos e ocupações. 


COMO É O PROCESSO DA ORIENTAÇÃO VOCACIONAL

Primeiramente o psicólogo irá fazer uma entrevista de anamnese, ou seja, irá questionar o avaliando sobre vários aspectos da sua vida, fará perguntas para compreender um pouco da sua história de vida, da dinâmica familiar, explorando tudo que possa ser pertinente para ajudar na escolha da profissão. Depois o psicólogo aplicará alguns testes. Chamamos de bateria de testes porque englobam testes com diferentes finalidades que irão desenhar o perfil daquela pessoa. A partir da análise desses testes aspectos da personalidade, do comportamento, das emoções, dos interesses do indivíduo ficarão claros para o psicólogo, que irá analisar esses dados e apresentá-los para o avaliando. Com base nesses resultados e da utilização de manuais específicos, as possibilidades de profissões ficarão mais claras. 


EU JÁ FIZ VÁRIAS ORIENTAÇÕES VOCACIONAIS E AINDA NÃO SEI QUE PROFISSÃO SEGUIR!

Isso aconteceu com você? Procurou um psicólogo habilitado? Ele fez o processo que descrevi acima com você? Somente conversar sobre seus interesses vocacionais não é suficiente, embora possa funcionar em alguns casos. Imagine um médico. Ele pode saber o que você tem pelos sintomas, mas para ter certeza ele pode pedir um exame de sangue. O exame de sangue vai dizer o que está dentro de você, que nem você nem o médico sabiam (embora o médico possa ter uma vaga ideia). O teste psicológico funciona da mesma forma, ele vai mostrar ao psicólogo aspectos da sua personalidade, interesses, etc que nem sempre são possíveis saber a partir de conversa e observação. Algumas pessoas são muito indecisas, de fato, e é preciso um bom psicólogo para guiá-las pelo universo das profissões.

Algumas escolas realizam orientação vocacional com seus alunos, sendo esse procedimento feito por psicólogos (de preferência), contudo, dependendo do aluno pode não ser suficiente. É muita pressão você decidir seu futuro profissional enquanto tem que estudar para passar num vestibular. Algumas pessoas já sabem o que querem, outras não e são essas que precisam da orientação vocacional.


FIZ UM TESTE VOCACIONAL NA INTERNET E NÃO AJUDOU MUITO...

Vou ser bem claro, testes vocacionais de internet, de revistas, NÃO são instrumentos científicos, então não tem eficácia comprovada. São elaborados por pessoas que tiram ideias que acham interessantes e criam um sisteminha de pontos. Os testes psicológicos usados na orientação vocacional são baseados em teorias validadas cientificamente, são estudados com bases matemáticas e estatísticas e comparados com outro instrumentos similares para comprovar sua validade. Alguns desses testes levam cinco, dez anos para ficarem prontos! Então que fique aqui esclarecido que qualquer teste vocacional que não seja aplicado por um psicólogo não tem validade nem cientificidade. 


No mais, espero que esse artigo tenha ajudado. Quaisquer dúvidas, sugestões ou críticas, deixem nos comentários ou me mandem e-mail!


Referências:

LAVENFUS, Rosane Schotgues; BANDEIRA, Denise R. Avaliação dos interesses profissionais-AIP. São Paulo, Vetor. 2009.





quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

PSICOLOGIA E CARNAVAL



Ao ler o título desse artigo você deve estar se questionando o que tem a ver carnaval com Psicologia. Na verdade, o meu intuito é analisar um pouco como a Psicologia explica o carnaval, o comportamento humano nessa data tão específica.

O carnaval é uma festa antiga que começou no tempo dos escravos. Os escravos saíam pelas ruas com seus rostos pintados, jogavam farinha e bolinhas de água de cheiro nas pessoas. Era uma manifestação bastante popular, mas comemorado apenas pelos escravos e pelas famílias mais simples. Em meados do século XIX, no Rio de Janeiro, essa prática passou a ser criminalizada e a elite do Império brasileiro criava os bailes de carnaval em clubes e teatros. Contudo as camadas populares não desistiram de suas práticas carnavalescas. Desde então o carnaval foi se moldando até chegar no formato atual. 

No ano de 1641 foi realizado o primeiro baile de máscaras:

"O governador Salvador Correia de Sá e Benvides dedicou o primeiro Carnaval do Rio, em 1641, ao rei Dom João IV, o homem por trás das restaurações das leis de Portugal no Brasil. Uma grande atenção foi dada às celebrações, embora historiadores descartem o uso de máscaras durante o evento. Este foi seguido por outro espetáculo em 1786. No entanto, os historiadores acreditam que a primeira festa de máscaras foi realizada em 1840, no Hotel Itália, no dia 22 de janeiro como parte das celebrações de Carnaval. Contudo, ele só ganhou popularidade três décadas depois, quando uma grande importância foi dada às fantasias. Esses eram eventos luxuosos que segregavam poucos convidados da elite, enquanto outros bailes de máscaras eram realizados para todos. Com o tempo, esses eventos se tornaram mais populares durante o Carnaval do Rio e logo viraram a atração principal das celebrações com o espírito de competição aumentando."


Sabendo um pouco dessas referências históricas podemos refletir um pouco. A máscara é uma forma de esconder o rosto, de não se mostrar, de ocultar a identidade, assim como também é uma forma de se evidenciar. O próprio termo persona é derivado da palavra latina equivalente a máscara, e se refere às máscaras usadas pelos atores no teatro grego clássico para dar significado aos papéis que estavam representando.  O psicólogo Jung fala que a persona é "um complexo funcional que surgiu por razões de adaptação ou de necessária comodidade, mas que não é idêntico a individualidade. O complexo funcional da Persona diz respeito exclusivamente à relação com os objetos"(JUNG, 1991, p. 390). 

"Existem dois tipos de persona: uma para quando estamos sozinhos e uma para o convívio social. Esta última pode apresentar características positivas ou negativas, variando de indivíduo para indivíduo. Ela pode tanto proteger o ego, reprimindo sentimentos que podem ocasionar tragédias pessoais e desavenças no âmbito social, quanto criar uma identidade mascarada, artificial, contrária aos traços do sujeito (MELLO et al., 2002)"

Oliveira e Rocha (2012), colocam que:

"Pode-se dizer que a sociedade adentra-se cada vez mais no estágio estético (...) o qual se caracteriza pelo romantismo e o prazer propiciado pelo agora, ambos marcados pelo desejo, contrapostos à dor e ao tédio". 

As pessoas estão cada vez mais imersas na busca pelo prazer, nesse sentimento de realização de desejos, nessa fuga do cotidiano, do que é comum a todos. Fica fácil observar isso em nossa sociedade: falta de responsabilidades, relações superficiais, medo de enfrentar desafios e incapacidade de lidar com consequências negativas. Exemplos? Pessoas que não aceitam fim do relacionamento, jovens que engravidam e tentam o aborto. 

No carnaval não há desprazer. O carnaval é como um passaporte para a libertação total durante aqueles dias. Se você faz algo estranho, diferente, socialmente reprovável, é perdoado, porque no carnaval pode. A inversão de gênero, liberdade sexual excessiva e extravasamento através da bebida alcoólica, As máscaras ainda existem, mas não são mais tão necessárias. A necessidades das pessoas transgredirem a norma, o comum, o cotidiano é muito intensa.

Desta forma, surge no carnaval uma outra instância psicológica do sujeito: a Sombra, do qual falava Jung ou o Inconsciente, do qual falava Freud. A Sombra inclui aquelas tendências, desejos, memórias e experiências que são rejeitadas/reprimidas pelo sujeito como incompatíveis com a Persona (seu jeito de ser consigo e/ou com a sociedade) e contrárias aos padrões e ideais sociais. Quanto mais forte for nossa Persona, e quanto mais nos identificarmos com ela, mais repudiaremos outras partes de nós mesmos. A Sombra representa aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos. Já Freud falava sobre as pessoas experimentam repetidamente pensamentos e sentimentos que são tão dolorosos que não podem suportá-los. Tais pensamentos e sentimentos (assim como as recordações associadas a eles) não podem ser expulsos da mente, mas, em troca, são expulsos do consciente para formar parte do inconsciente.

Assim, durante os festejos carnavalescos podemos dizer que a Sombra/Inconsciente dessas pessoas aflora, principalmente após o uso de bebida alcoólica. Isso porque o álcool torna o sujeito mais suscetível a essas influências, diminuindo o autocontrole e o medo da reprovações sociais e morais. Isso somado a desejos reprimidos levam as pessoas a realizarem "loucuras" durante o carnaval. 

Aliás, você ouve o tempo todo a mídia se referir as pessoas que participam do carnaval como "foliões", e saiba você que a palavra folião vem do termo francês "folie" que significa loucura. Então o carnaval pode ser entendido como a celebração dos loucos, porque as pessoas se vestem de personagens ou com roupas do sexo oposto e fazem coisas sem sentido, se divertindo com isso. Entenda que a loucura, apenas uma observação de que a sociedade que excluiu o louco (para ver mais, leia sobre uma breve história da loucura aqui)

O carnaval é o momento que o sujeito pode ser quem ele quiser através da sua fantasia, pode flertar com várias pessoas sabendo que em algum momento alguém vai aceitar esse flerte, além de muita dança e diversão. O momento é ansiado por muitos justamente por permitir essa liberdade, por permitir viver os desejos

do inconsciente e por saber que suas atitudes serão "perdoadas" por ser carnaval, o período da folia (loucura, doidice). Beijar aquela pessoa que você não tinha coragem, fazer sexo com desconhecidos, vestir-se de forma esdruxula, usar drogas. O pior do carnaval são as atitudes autodestrutivas das pessoas. É como se a vontade de se divertir e aproveitar a festa fossem muito maiores que a prudência.

Então, da próxima vez que você for ao se divertir nessa festa tradicional lembre-se de ter aproveitar com responsabilidade, porque até mesmo o louco é responsável por sua loucura. Divirta-se com cuidado, evite doenças, acidentes, porque as pessoas ficam muito vulneráveis a todo tipo de sinistro nessa época. 




Referências:

http://brasilescola.uol.com.br/carnaval/historia-do-carnaval-no-brasil.htm

https://psicologado.com/abordagens/psicologia-analitica/máscaras-do-ego-aspectos-subjetivos-das-representações-do-corpo

http://amigosdofreud.blogspot.com.br/2012/02/persona-e-sombra-na-psicologia.html#.VryxIa33PKg

http://psicologiaanalitica.com/2015/05/02/algumas-consideraes-sobre-o-lugar-da-persona/

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=192

MELLO, A. C. et al. Persona, de Ingmar Bergman. Cinematógrafo, FAAP, São Paulo, 2002.

http://www.papodepsicologo.com/2010/01/mascaras-para-vivermos-em-sociedade.html