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segunda-feira, 29 de maio de 2017

FIM DO RELACIONAMENTO: E AGORA?

Relacionamento afetivo é uma busca constante de muitas pessoas, mas o medo do fim e a possibilidade de "abandono" gera inúmeros fantasmas. Vamos falar um pouco sobre o término dos relacionamentos e como as pessoas lidam com esses sentimentos.

O ser humano é essencialmente social, apenas algumas exceções bem pontuais que mostram pessoas que se isolaram completamente do mundo (muito provavelmente por alguma patologia). É pelo contato social que aprendemos a falar, nos comunicar, absorvemos as regras morais, sociais, culturais. Precisamos, em muitas ocasiões, da confirmação do outro para sabermos se estamos bem vestidos, se aquela decisão foi bem tomada, ou apenas para compartilhar uma alegria, uma tristeza. E buscamos relacionamentos afim de satisfazer uma necessidade maior, não apenas de constituir família, mas de companhia mesmo. 

Entretanto, por uma série de eventos, o relacionamento tão almejado pode chegar ao fim. Acredito que esse seja um dos grandes dilemas do homem hoje, aceitar o fim das coisas. parece que há um desejo fortíssimo para que as coisas tenham duração ilimitada. Esquecem que tudo na natureza tem um ciclo, as coisas se findam em algum momento, se renovam de alguma forma. Mas para as pessoas (ou pelo menos a maioria delas) parece inaceitável que um relacionamento acabe. Parece que todo aquele investimento afetivo foi em vão, emergem inúmeros questionamentos e um sentimento de frustração se faz presente e forte, tudo isso porque aquela pessoa não está mais com você. 

É nesse momento que muitas psicopatologias podem surgir. Aceitar o fim do namoro, noivado, casamento, união estável, é aceitar que algo deu errado, que não funcionou, que você está "sozinho" novamente e terá que passar por todo o processo de buscar alguém. Para alguns isso é inaceitável. Pode acontecer uma fixação com a pessoa que foi embora, fixação de pensar nela constantemente, de não aceitar de forma alguma que aquele relacionamento terminou e isso é perigoso, pois pode levar a uma obsessão. O sujeito não consegue mais trabalhar/ estudar direito, seus pensamentos estão sempre voltados para a pessoa, isso prejudica inclusive seu contato social com os outros. Pensar que a outra pessoa não está com você e pode estar com outro gera sentimentos violentos de raiva e frustração. Quanto chega nesse ponto, muitas vezes ocorrem os chamados crimes passionais. Por não saber lidar com o término do relacionamento, aquela pessoa acaba eliminando a fonte do seu amor que ao mesmo tempo é sua dor/sofrimento. Gostaria de ressaltar que não é o fim do relacionamento que causa esse tipo de comportamento, pois provavelmente a pessoa já tinha uma estrutura patológica. Para entender melhor, leiam meus artigos sobre ciúme patológico (clicando aqui) e codependência afetiva (clicando aqui).

MAS ENTÃO COMO AGIR DIANTE DESSE SOFRIMENTO? O QUE FAZER AO TÉRMINO DO RELACIONAMENTO?


Primeiro é importante pensar sobre isso de forma mais imparcial possível. Comece a analisar a sequencia de eventos que levou a isso. Nenhum relacionamento termina da noite para o dia, sempre há motivos e situações que impulsionam para isso. Analise qual o seu papel nessas situações, como você poderia ter feito diferente e se suas ações tiveram um peso maior ou menor. 

Aprenda a reconhecer seus erros, suas falhas, seja consciente das suas ações. As pessoas tem uma grande tendência a sempre culpar o outro por tudo, sem olhar para si mesmo e reconhecer que também tem responsabilidade pelo que ocorre numa relação. Entendendo melhor seus comportamentos durante a relação e reconhecendo onde errou você poderá evitar isso no futuro.

Não se torne um perseguidor. Isso é ruim para você (a pessoas vão saber e começar a ter medo e reprovar suas ações), e para a pessoa que vai tentar se proteger, muitas vezes acionando até a polícia. Respeite o espaço do outro. Ligações excessivas, ficar procurando a pessoa, seguindo ela, stalkeando nas redes sociais, tudo isso é sinal de patologia. Ninguém é propriedade de ninguém, ninguém é obrigado a te amar, a ficar com você. Amor é algo natural, quando é algo forçado e que impede a liberdade e o bem estar do outro aí já é doença.

Evite condutas autodestrutivas. Sei que é difícil porque somos bombardeados com esses comportamentos pela nossa cultura. Quando termina o relacionamento a pessoa vai pro bar, se enche de álcool, usa drogas, passa a dirigir perigosamente. Tudo isso é comportamento de risco e uma forma de causar dano a si mesmo. Uma hipótese minha é que isso é uma forma, inconsciente, da pessoa chamar a atenção do antigo parceiro(a), "olha como eu to mal, isso é culpa sua, por sua causa estou assim". 

Se a pessoa que se relacionava com você permitir uma aproximação e uma possível reconciliação, tudo bem, mas evite forçar isso ou você vai estar criando ainda mais conflitos. 

Busque amigos, parentes para conversar, desabafar, não sofra sozinho. Sofra, elabore o término, não finja que nada aconteceu. 



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

SUICÍDIO- O QUE FAZER PARA PREVENIR?

Setembro é o mês em que intensifica a conscientização da sociedade para a prevenção do suicídio, problema que hoje cada vez mais está presente em nossa sociedade e é velado, de modo que a grande maioria das pessoa não está a par dessa triste realidade.


O suicídio é hoje um grande problema de saúde pública, os dados epidemiológicos que temos demonstram isso, e esses mesmos dados estão a mostrar apenas uma pequena realidade do número de mortes por suicídio, uma vez que o tabu, a falta de preparo e outros obstáculos impedem o registro adequado das mortes por suicídio, não apenas no Ceará, mas no Brasil como um todo.


Como podemos então, agir de modo que esse número alarmante de mortes diminua? A resposta está na prevenção, mas para prevenir é preciso não apenas conhecer o fenômeno e como ele se manifesta, mas também a intervenção de políticas públicas efetivas. Então vamos falar um pouco acerca da prevenção.

Segunda a Organização Mundial da Sáúde (OMS), 


  • 800.000 pessoas suicidam-se por ano;
  • Cerca de 3.000 pessoas por dia;
  • Uma morte a cada 40 segundos;
  • Para cada pessoa que se suicida, 20 ou mais tentam se matar.
No Brasil os números são alarmantes. 

O QUE LEVA UMA PESSOA A TENTAR SUICÍDIO?

Sabemos por estudos estatísticos que cerca 90% das pessoas com ideação suicida ou que tentaram suicídio tem algum tipo de transtorno mental, diagnosticado ou não. 




Fora isso temos os fatores de risco para o suicídio, que são critérios que potencializam o surgimento da ideação suicida e da tentativa em si. Dentre esses fatores elencamos aqui os mais comuns:


  • Tentativa de suicídio ou auto-mutilação anterior;
  • Comorbidades (mais de um transtorno associado) ou tratamento psiquiátrico anterior;
  • Desemprego;
  • Stress social;
  • Abandono;
  • Álcool e abuso de drogas;
  • Dor  física  ou dor crônica;
  • Trauma, tal como abuso físico e sexual; 
  • Doença física incapacitante ou doloroso, incluindo dor crônica(citamos o HIV e câncer como exemplos);
  • Certas profissões profissões com os meios / conhecimento se matar (veterinários, médicos, dentistas, farmacêuticos, agricultores, etc. Por incrível que possa parecer os médicos encabeçam uma das profissões em que mais se comete suicídio)
  • Pouco apoio social / viver sozinho;
  • Eventos significativos da vida - luto (perdas de entes próximos), desagregação familiar;
  • Bullying (às vezes um fator em crianças e adolescentes em mídia social).
Percebemos com essas informações que a vontade de morrer é uma consequência de fatores que leva o indivíduo a um sofrimento tremendo, tendo ele desesperança, desamparo e desespero, sendo o suicídio o alívio mais rápido para essa situação. Entretanto, quando os fatores de risco são detectados e tratados, a vontade de morrer vai sumindo, e o individuo começa a dar um novo sentido a sua vida. Embora nem sempre esse processo seja fácil/ rápido (nunca é), existe sim um tratamento e um caminho para a vida.


COMO PREVENIR O SUICÍDIO?

Existem diversas medidas de prevenção de acordo com contextos específicos, então o que farei aqui é um apanhado geral acerca da prevenção do suicídio. Primeiramente, sabemos que a maioria dos pacientes que tentaram suicídio comunicaram antes, de alguma forma suas intenções, ou deram sinais que foram ignorados por familiares e pessoas próximas. Desta forma, nunca ignore um relato de alguém que fala ou pensa em se matar. Esqueçam essa estória de "cão que ladra não morde". Se a pessoa fala em morrer é devido a um sofrimento intenso, e caso ela não receba amparo ela pode sim vir a cometer o ato.

Isolamento, alteração do comportamento (comportamentos estranhos), alteração do humor, são alguns. Sabemos que 90% das pessoas com ideação suicida ou que tenta suicídio tem algum transtorno, então é importante que essa pessoa seja encaminhada ao Psiquiatra ou Psicólogo (em alguns casos, é necessário o acompanhamento de ambos). 

Restringir meios letais também entra na prevenção, quanto menos acesso pessoas com ideação suicida tiverem a armas, objetos cortantes/perfurantes, venenos e substâncias químicas, mais protegida estará. Além disso, uma pessoa com forte ideação suicida e/ou tentativa prévia de suicídio, não deve ficar sozinha. 

É importante desconstruirmos o tabu acerca do suicídio, as pessoas não devem ter medo ou vergonha de pedir ajuda e por outro lado, a família deve estar atenta com seus filhos, maridos, esposas, porque o suicídio é uma realidade que pode afetar qualquer um, independente de qualquer coisa. É um problema de saúde, pode ser tratado, não é um desvio moral ou religioso. Busque ajuda.


#espalheamarelo #espalhevida #prevençãoaosuicídio



Referências:

Gassmann-Mayer, C. Jiang, K., McSorley, P., Arani, P. et al (2011). Clinical and Statistical assessment of suicidal ideation and behavior in pharmaceutical trials. Clinical Pharmacology & Therapeuticss, 90, 483-485.


Kelly Piacheski de Abreu, Maria Alice Dias da Silva Lima, Eglê Kohlrausch, Joannie Fachinelli Soares. Comportamento suicida: fatores de risco e intervenções preventivas. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2010;12(1):195-200. Disponível em: <https://www.fen.ufg.br/fen_revista/v12/n1/pdf/v12n1a24.pdf> Acesso em: 24 de Agosto de 2016.

Inside Japan Suicide Forest. Disponível em: < http://www.japantimes.co.jp/life/2011/06/26/general/inside-japans-suicide-forest/#.V9CBpSlrjIU> Acesso em: 01 de Agosto de 2016.

Prevenção ao suicídio: manual dirigido aos profissionais de saúde mental. Ministério da Saúde. Brasil, 2006.

FAÇANHA, Jorge Daniel Neto. ERSE, Maria Pedro Queiroz de Azevedo. SIMÕES, Rosa Maria Pereira . AMÉLIA, Lúcia . SANTOS, José Carlos. Prevenção do suicídio em adolescentes: programa de intervenção believe. SMAD, Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog. (Ed. port.) v.6 n.1 Ribeirão Preto  2010.

CARNEIRO, Anna Bárbara de Freitas . Suicídio, religião e cultura: reflexões a partir da obra “Sunset Limited”. Reverso vol.35 no.65 Belo Horizonte jul. 2013. Disponível em: 
< http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-73952013000100002 >. Acesso em: 02 de Agosto de 2016.

WORDEN, j. W. . Terapia do luto: um manual para o profissional de saúde mental. Porto Alegre: Artes Médicas(1998).

KÜBLER-ROSS, E. . Sobre a morte e o morrer: o que os doentes terminais tem para ensinar a médicos, enfermeiras, religiosos e as seus próprios parentes. São Paulo: Martins Fontes, (1998). 

BOWLBY, J. Apego e perda:perda: tristeza e depressão. São Paulo: Martins Fontes. 1985

MARTINS, S. A. R & LEÃO, M. F. Análise dos Fatores Envolvidos no Processo de Luto das Famílias nos Casos de Suicídio. Revista Mineira de Ciências da Saúde. Patos de Minas: UNIPAM, 2, 123-135.

OSMARIM, Vanessa Maria. Suicídio: O luto dos sobreviventes. 2015. Disponível em: <www.psicologia.pt/artigos/textos/A0981.pdf> Acessado em 10 de Agosto de 2016.

Suicídio: pesquisadores comentam relatório da OMS, que apontou altos índices no mundo. Fonte: Informe ENSP. Disponível em: <http://portal.fiocruz.br/pt-br/content/suicidio-brasil-e-8o-pais-das-americas-com-maior-indice>. Acesso em 12 de agosto de 2016.







terça-feira, 30 de agosto de 2016

O QUE É EUTANÁSIA, ORTOTANÁSIA, DISTANÁSIA E SUICÍDIO ASSISTIDO?

Existe muita desinformação e controvérsias acerca do direito de escolher a própria morte, em determinadas circunstâncias. Vamos então tentar esclarecer pontos importantes dessas condutas.



A morte sempre foi e sempre será um tema muito presente em relação a condição humana, não apenas por ser uma certeza absoluta da vida, mas também por todo mistério e tabu que a cercam. Diversos pensamentos filosóficos e religiosos buscam explicar a morte e dar sentido a vida humana, ao passo que a própria morte, em determinados momentos históricos e culturas, acaba se tornando um tabu. Com o avanço da medicina, prolongar a vida foi possível através da descoberta de vacinas, antibióticos e do tratamento de muitas doenças simples, na medida em que outras doenças mais sérias e incuráveis começavam a se expandir. Vencemos a varíola e a tuberculose, a poliomielite, mas fomos surpreendidos pelo HIV, pelo aumento nos casos de câncer, e não conseguimos vencer ainda as doenças degenerativas como a doença de Huntington, Parkinson e Alzheimer, assim como as doenças genéticas. Então surge uma tentativa de minimizar a dor causada por essas enfermidades, uma forma de aliviar o sofrimento do paciente. Não entrarei aqui no discurso moral ligado a certo e errado, o propósito desse texto é ser informativo. 

EUTANÁSIA, ORTOTANÁSIA, DISTANÁSIA E SUICÍDIO ASSISTIDO


Desde cedo, o acadêmico de medicina é moldado para enxergar a morte como “o maior dos adversários”, o qual deverá ser impiedosamente confrontado e vencido graças ao avanço da ciência, da tecnologia ou mesmo da competência individual. A morte de um paciente muitas vezes é, real ou simbolicamente, o atestado de falha, de que em algum ponto algo deu errado e não foi possível salvar o paciente. É, sem sombra de dúvida, uma carga de responsabilidade e estresse para o médico realmente compromissado com a missão de salvar vidas e garantir o bem estar de seus pacientes. Mas em algum momento a morte sempre sai vitoriosa e quando o médico sabe que esse momento vai chegar, é possível que ele possa cuidar de seu paciente apenas garantindo que sofra menos e viva seus últimos momentos de forma digna até sua partida. 

Justamente, o termo eutanásia é oriundo do grego, tendo por significado boa morte ou morte digna. Etimologicamente eutanásia, significa "morte boa" (eu = bom/boa; thánatos = morte) ou "morte sem grandes sofrimentos". 

"Foi usado pela primeira vez pelo historiador latino Suetônio, no século II d.C., ao descrever a morte “suave” do imperador Augusto: A morte que o destino lhe concedeu foi suave, tal qual sempre desejara: pois todas as vezes que ouvia dizer que alguém morrera rápido e sem dor, desejava para si e para os seus igual eutanásia (conforme a palavra que costumava empregar) (Suetônio, 2002). Séculos depois, Francis Bacon, em 1623, utilizou eutanásia em sua Historia vitae et mortis, como sendo o “tratamento adequado às doenças incuráveis”(apud Jiménez de Asúa, 1942)"

Existem alguns tipos de eutanásia, trago a definição de Neukamp (1937):

  •  Eutanásia ativa, ato deliberado de provocar a morte sem sofrimento do paciente, por fins humanitários (como no caso da utilização de uma injeção letal);

  •  Eutanásia passiva, quando a morte ocorre por omissão em se iniciar uma ação médica que garantiria a perpetuação da sobrevida (por exemplo, deixar de se acoplar um paciente em insuficiência respiratória ao ventilador artificial);

  • Eutanásia de duplo efeito, quando a morte é acelerada como consequência de ações médicas não visando ao êxito letal, mas sim ao alívio do sofrimento de um paciente (por exemplo, emprego de uma dose de benzodiazepínico para minimizar a ansiedade e a angústia, gerando, secundariamente, depressão respiratória e óbito).



Já Martin, (1998) entende a eutanásia da seguinte forma:

  • Eutanásia voluntária, a qual atende uma vontade expressa do doente – o que seria um sinônimo do suicídio assistido;

  • Eutanásia involuntária, que ocorre se o ato é realizado contra a vontade do enfermo – ou seja, sinônimo de “homicídio”;

  • Eutanásia não voluntária, quando a morte é levada a cabo sem que se conheça a vontade do paciente.


De acordo com as Leis do nosso país a eutanásia é vista como homicídio, mas em países como Suíça, Bélgica e Holanda é considerada uma prática comum. Segue um vídeo que mostra um exemplo de eutanásia, de uma mulher que sofria com uma doença dolorosa mas não-letal e mesmo assim optou por morrer.





Ortotanásia é deixar que o paciente siga seu caminho natural para a morte sem aumentar-lhe a vida de forma artificial, ou seja, apenas o acompanhamento para que a morte seja menos sofrível possível e de forma natural. Alguns pacientes, em países europeus e nos EUA, por exemplo, tem ordens de não ressuscitação em caso de parada cardio-respiratória, o que abrevia sua existência e impede os esforços médicos de mantê-lo vivo.

Temos ainda a Distanásia, cujo primeiro significado veio em 1904 por Morcache, para caracterizar uma agonia prolongada que origina uma morte com sofrimento físico ou psicológico do indivíduo lúcido. O termo é bastante utilizado hoje na intenção de designar a forma de prolongar a vida de modo artificial, sem perspectiva de cura ou melhora (Pessini, 2001). Pessoas em estado vegetativo que vivem através de aparelhos são um exemplo de distanásia. 

Outro conceito que é confuso, o suicídio assistido (também chamado de morte assistida) é quando uma pessoa solicita o auxílio de outra para morrer, caso não consiga matar-se por si mesma. No suicídio assistido o paciente está consciente e verbaliza seu desejo de morrer, enquanto que na eutanásia, nem sempre o paciente está consciente. Um exemplo disso seria um paciente em coma, mantido vivo com ajuda de aparelhos. Nesse exemplo a eutanásia seria então autorizada por um membro da família.



Referências:

SIQUEIRA-BATISTA, Rodrigo. SCHRAMM, Fermin Roland. Eutanásia: pelas veredas da morte e da autonomia. Ciência & Saúde Coletiva, 9(1):31-41, São Paulo, 2004.

PESSINI, L. Distanásia. Até quando prolongar a vida? São Camilo-Loyola, São Paulo, 2001.

Martin LM. Eutanásia e distanásia, pp 171-192. In SIF Costa, G Oselka & V Garrafa (orgs.). Iniciação à bioética. Conselho Federal de Medicina, Brasília. 1998.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Suicídio, Religião e Reflexões


Aproveitando a deixa do último artigo, hoje pretendo tratar de um tema bastante delicado e cheio de tabus por parte da sociedade: o suicídio. Nesse artigo vou tecer algumas idéias acerca do tema, a partir das minhas leituras, do meu conhecimento profissional e da minha experiência como psicoterapeuta.


O suicídio sempre existiu na humanidade, se manifestando de formas diferentes em cada cultura e sociedade, de acordo com as demandas de cada período. Temos como significativa expressão do suicida o povo japonês. Na época feudal os samurais japoneses praticavam o sepukku, termo que significa literalmente "cortar o estômago", um modo de suicídio por autoestripamento. 

Originalmente o sepukku era realizado apenas pelos samurais que seguiam um rígido código de honra e podia acontecer de três formas: para o samurai não cair nas mãos do inimigo, para evitar desonra caso ele tivesse cometido algo vergonhoso ou como pena de morte por algum crime. Então, se o samurai tivesse algum comportamento inadequado para a época, ele deveria cometer o sepukku, caso contrário, seria desonrado, um pária na sociedade feudal japonesa. Esse tipo de suicídio ritual consistia em enfiar sua espada no abdômen, realizando um corte da esquerda para a direita abrindo completamente a barriga, na frente de vários espectadores.

Já na Segunda Guerra Mundial os japoneses utilizaram os seus kamikazes, pilotos que cometiam suicídio ao usarem os seus aviões para afundar navios e atingir alvos durante o conflito. Kamikaze significa "vento divino" e vale salientar que era um termo utilizado pelos aliados. Motivados para lutar contra uma ameaça maior, colocavam em xeque a própria vida em prol de um objetivo maior, a vitória na guerra e a glória da sociedade japonesa, deixando assim de lado todos os anseios pessoais. 


Temos também uma cultura de suicídio na Grécia antiga, onde várias mitologias se desenvolvem em cima do tema, a verdadeira tragédia grega. Deixo o link desse artigo que fala um pouco sobre isso:


Mas e a nossa cultura, a cultura ocidental? Principalmente aqui no Brasil o suicídio é visto como uma prática condenável, tanto pela sociedade quanto pela religião. Segundo o Vaticano, o Quinto Mandamento "Não Matarás", tem os seguintes desdobramentos:

"Cada qual é responsável perante Deus pela vida que Ele lhe deu, Deus é o senhor soberano da vida; devemos recebê-la com reconhecimento e preservá-la para sua honra e salvação das nossas almas. Nós somos administradores e não proprietários da vida que Deus nos confiou; não podemos dispor dela."

"O suicídio contraria a inclinação natural do ser humano para conservar e perpetuar a sua vida. É gravemente contrário ao justo amor de si mesmo. Ofende igualmente o amor do próximo, porque quebra injustamente os laços de solidariedade com as sociedades familiar, nacional e humana, em relação às quais temos obrigações a cumprir. O suicídio é contrário ao amor do Deus vivo."

"Se for cometido com a intenção de servir de exemplo, sobretudo para os jovens, o suicídio assume ainda a gravidade do escândalo. A cooperação voluntária no suicídio é contrária à lei moral." [1]

Desta forma fica claro o posicionamento da Igreja Católica Apostólica Romana sobre a questão, uma vez que Deus lhe deu o dom da vida não lhe é permitido tirá-la, nem a de seu próximo, nem a sua. O Espiritismo tem uma lógica similar, afirmando que o suicida sofre uma terrível pena por consumar esse ato tão perverso, é enviado a uma "dimensão" chamada Umbral onde permanece imerso em sofrimento e dor, revivendo a dor da morte e tendo sua alma atormentada por outros suicidas. 

Já no Islamismo, o suicídio tampouco é permitido. Para eles, o martírio perante Deus que venha a ceifar a própria vida não é considerado suicídio, dessa forma lutando num conflito até a morte pela "causa divina" não seria considerado suicídio. Entretanto os atos de martírio onde os islâmicos detonam bombas para matar várias pessoas, consumindo sua própria vida no processo, é sim considerado suicídio pelo Islamismo. O que ocorre é que os líderes desses grupos como o Hamas, o Hezbollah, a Jihad Islâmica e a Al-Qaeda, exercem uma forte influência cultural e espiritual sobre seus membros, distorcendo os preceitos do Islamismo e encorajando esse tipo de ato, o sacrifício da própria vida para encontrar o paraíso das virgens.


Fica evidente como as religiões rejeitam a ideia do homem ceifar a própria vida, acredito que isso vem como uma forma de autopreservação, de conservação do bem mais precioso que temos, mesmo que de uma forma inconsciente. 


E O SUICÍDIO NA NOSSA SOCIEDADE? 

Depois desse preâmbulo sobre como as religiões veem o tema, podemos finalmente tecer alguns comentários sobre o suicídio na atualidade, sobre as crises existenciais, sobre os transtornos psicológicos e as motivações dos suicidas. 

Diversos transtornos psiquiátricos podem levar ao suicídio, mais comumente as pessoas associam a Depressão como principal causa de suicídio, mas não é bem assim. Sabemos pela prática clínica que quadros depressivos podem sim gerar ideações suicidas, mas nem sempre isso é indicativo que vá ocorrer o suicídio. Outros quadros psiquiátricos são passivos de uma incidência até maior de suicídio, como surtos psicóticos, por exemplo, mas infelizmente não podemos afirmar categoricamente tal fato pela falta de dados estatísticos precisos. 

A dificuldade em se estudar esse fenômeno é todo o tabu e preconceito que o cercam, pois como já foi mostrado pelo pensamento religioso acima o suicidar-se é reprovável em nossa sociedade e é visto como algo que deve ser escamoteado, talvez pelo medo que a morte causa, talvez pelo choque da forma como o suicida se matou. Há um pensamento de que a divulgação do suicídio irá estimular outros, um raciocínio que eu, como profissional da Psicologia acho falho. É como dizer que ver pessoas fumando fará você fumar, mesmo sabendo que aquilo é nocivo. Dessa forma, os casos de suicídio que chegam ao Sistema de Verificação de Óbito de Fortaleza (SVO, o necrotério), nem sempre são tratados como tal no obituário, constando outro fator para causa mortis. Isso é bem mostrado pelo Dr. Cleto em sua pesquisa sobre o suicídio na cidade de Fortaleza, um estudo dos suicídio nesses últimos 50 anos. Se a pessoa se mata jogando gasolina e ateando fogo em si mesma, deveria constar "Suicídio por imolação por fogo", ao invés de "Morte por distúrbio hidroeletrolítico", no caso de um tiro na cabeça, ao invés de "suicídio por arma de fogo" coloca-se "morte devido a projétil de arma de fogo" e assim por diante.


Mas excluindo os transtornos psiquiátricos, o que leva uma pessoa a se matar muitas vezes é um ato impulsivo, onde o sujeito está passando por alguma situação da qual não consegue sair e o estresse gerado pode fazer com que essa pessoa haja precipitadamente. Vemos muitos casos na TV onde o sujeito sobe em torres ou fica na beirada de prédios, mas no fim não se mata ou não esboça o real desejo de morrer. As pessoas falam "Esse aí só queria chamar a atenção". O que ele queria era uma solução para algum problema sério, uma dificuldade que causou um desespero tão intenso que o fez a tomar aquela atitude impensada. 


Temos visto também alguns casos de jovens que tem se suicidado por conta do fim de relacionamento afetivo. Esse tipo de suicídio merece algumas reflexões. Primeiro, vamos assumir que o suicídio foi motivado pelo fim do relacionamento, não existindo anteriormente qualquer transtorno psiquiátrico associado (Depressão, esquizofrenia, transtorno de personalidade, demência, transtornos de humor, etc). O rompimento de um relacionamento tem essa força para levar o jovem a se suicidar? Isso vai depender do histórico dessa pessoa, da estrutura familiar onde cresceu, do suporte que teve dos pais durante seu desenvolvimento e da forma como interpreta as relações interpessoais. 

Se há, por exemplo, histórico de rejeição, abandono, negligência, é bem provável que a dor da separação daquela pessoa cuja a afeição era tão importante para si seja algo insuportável e a falta de mecanismos psicológicos e familiares para lidar com isso leve a pessoa a um ato impulsivo de se matar. A dificuldade em lidar com as perdas, a ausência da família e o sentimento de desamparo extremo são capazes de gerar um sentimento de vazio que pode culminar em algum transtorno depressivo transitório, mas também podem ser o estopim para um comportamento impulsivo que leve ao suicídio. As pessoas cada vez se apegam mais as outras esquecendo de si mesmas, se doando excessivamente e negligenciando seus próprios anseios, e quanto isto lhe é tirado (fim da relação) só resta o vazio.

O suicídio muitas vezes é motivado por esse vazio existencial, por essa angústia enlouquecedora que nossa sociedade provoca com suas relações frágeis e efêmeras, por essa desvalorização cada vez maior do ser humano. Nossa sociedade está adoecida e nós adoecemos junto com ela, o suicídio é apenas mais um dos sintomas disso.

Esse assunto é muito complexo e podemos falar sobre bastante coisa, prometo escrever mais sobre isso no futuro, principalmente sobre os tipos de suicídio e de estratégias para evitá-los. Quaisquer dúvidas, postem nos comentários ou mandem e-mail.



REFERÊNCIAS:

Pontes, Cleto Brasileiro. Suicídio em Fortaleza: Estudo de 50 anos. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2008.