Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de junho de 2017

VAMOS FALAR SOBRE 13 REASONS WHY


Demorou, eu sei. Existem muitos textos sobre isso na internet hoje, entretanto eu precisava assistir e escrever sobre isso, uma vez que trabalho com saúde mental e prevenção ao suicídio. Tomei o cuidado de não ler nada, nenhum artigo sobre essa série, para não me "contaminar" e poder escrever minhas ideias de forma mais clara e autenticas o quanto possível. Nesse artigo, minha proposta é analisar a série, contrapor com meus pensamentos e com dados de estudos científicos relacionados à saúde mental e prevenção de suicídio.

[AVISO!!! SE VOCÊ NÃO ASSISTIU E NÃO QUER RECEBER SPOILERS, ASSISTA E DEPOIS VOLTE AQUI. ESTOU AVISANDO, VAI TER SPOILERS AQUI DA SÉRIE. SE VOCÊ NÃO SE PREOCUPA COM ISSO ENTÃO PODE CONTINUAR.]

Lembro que quando começaram a falar da série 13 Reasons Why houve muito burburinho sobre aquilo estar sendo mostrado, se não poderia incentivar as pessoas. Ouvi um comentário dizendo que o suicídio era tratado de forma romantizada na série e muitas pessoas pisando em ovos com relação ao tema. Pois digo exatamente o que penso: precisamos falar sobre suicídio, sem medos e sem tabus.  Eu compreendo o medo das pessoas, mas existe muita informação sobre o tema disponível, talvez as pessoas não tenham acesso, não sei. Mas aqui terão acesso a informação científica e espero que possam aquietar essas angústias. Visitem outros artigos meus acerca do tema (clicando aqui, aqui e aqui).

13 REASONS WHY

Gostaria de falar primeiro como expectador, não como psicólogo. Eu me entreguei ao assistir a série, sozinho, concentrado, me senti em certo momento fazendo parte daquele mundo, daquela escola com aqueles alunos e seus dramas. Passei por seus dores, medos, raivas, decepções. Houve momentos em que fiquei triste, outros em que me senti bastante angustiado e outros em que vibrei de alívio. Mas também vieram momentos de dor e pesar. A série realmente é muito densa, aborda temas pesados e é capaz de mexer bastante com o sentimento das pessoas. Há uma progressão, senti que ela começa e conforme avança vai ficando cada vez mais e mais pesada em cima das problemáticas a qual retrata.



Agora vamos ao meu olhar de psicólogo. A série acompanha as experiências de uma adolescente do que seria análogo ao nosso 2o ano do ensino médio, Hannah Baker, que logo de cara você recebe descobre que ela cometeu suicídio e que os alunos estão tentando lidar com isso. Então o melhor amigo dela, Clay, recebe um pacote com fitas cassetes e descobre que Hannah gravou 13 fitas falando sobre como se sentia e de coisas que aconteceram com ela, levando a tomar sua decisão de tirar a própria vida. Clay vai ouvindo as fitas e o expectador vai descobrindo, junto com ele, tudo aquilo pelo qual Hannah passou, vai descobrindo os segredos dos seus colegas de escola e se dando conta de como tudo poderia ter sido evitado. Gostaria de ressaltar pontos chave para comentar e ficar algo mais organizado.

-BULLYING: É um dos temas centrais do seriado e é um dos grandes problemas que impulsionam as taxas de suicídios entre os jovens. Vejam essas reportagens:

  • Garoto se Suicida após sofrer bullying e colégio não tomar atitude (aqui)
  • Suicídios de meninas de 17 e 13 anos reacendem debate sobre bullying em escolas na França (aqui)
  • “Não aguento ir ao colégio”: Diego de 11 anos, suicida-se por sofrer bullying na escola (aqui)


O que é retratado na série não está longe do mundo real, pelo contrário, está bem colado. Mas o que sabemos sobre a correlação entre bullying e suicídio? Algumas pessoas (até mesmo pais), podem achar exagero um aluno cometer suicídio por sofrer bullying na escola. Vamos aos estudos.

  • Suicídio é a terceira causa de morte entre jovens, resultando em aproximadamente 4.400 mortes por ano nos Estados Unidos, de acordo com o Centro de Controle de Doenças. 
  • Vítimas de Bullying tem de 2 a 9 vezes mais chance de cometer suicídio do que pessoas que não sofrem bullying, de acordo com estudos da Universidade de Yale. 
  • Um estudo britânico estimou que metade dos suicídios entre jovens estão relacionados ao bullying, meninas de 10 a 14 anos tem mais chance de cometer suicídio. 

Há muitas situações em 13 Reasons Why que podem ser enquadradas como bullying. Muita gente acha que bullying é apenas quando ocorre violência física, portanto acho importante trazer uma definição do que seria bullying. 

"É qualquer forma de abuso,  psicológico, verbal ou físico, que ocorreu entre crianças de escola várias vezes ao longo de um determinado momento." 

Logo de início, Hannah se envolve com Justin, jogador de basquete da escola, popular entre as garotas, mas um rapaz que só quer saber de curtição. Ele tira uma foto por baixo da saia de Hannah e espalha através dos aplicativos de mensagem para celular em toda escola. Isso já é um passo além, pode ser considerado cyberbullying, que é o bullying através das redes sociais e de meios eletrônicos. Hannah se sente mal por virar assunto da escola, começa a imaginar o que estão falando dela, boatos sobre ela ser fácil e de contato sexual se espalham. Esse é o primeiro conflito que Hannah tem de lidar. 

Não é fácil lidar com cyberbullying tanto quanto o bullying convencional. 

  • Após ter vídeo íntimo compartilhado na internet, italiana comete suicídio (aqui)

Algo que é comum hoje em dia, gravações de vídeos íntimos, fotos íntimas que são vazadas, muitas vezes por vingança, outras vezes de forma inconsequente, podem acarretar transtornos terríveis na vida dessas pessoas. No ambiente escolar isso é bem mais impactante, porque aquele aluno(a) acaba sendo visado, seu rendimento escolar cai, faltas são comuns, muitas vezes o aluno  não suporta a pressão e muda de escola ou pode simplesmente abandonar os estudos. 

-ESTUPRO/ ABUSO SEXUAL: é bem sabido que este é um dos fatores de risco para suicídio.
Vítimas de abuso ou estupro possuem mais chances de vir a cometer suicídio do que não vítimas. Temos duas situações na série que são bem fortes, ambas envolvendo estupro. A primeira é a Jessica que, bêbada numa festa, é estuprada por Bryce "amigo" de Justin, enquanto Hannah presencia tudo escondida no quarto. Aquela cena é chocante para ela, traumático ver a pessoa que considerou amiga estando indefesa e sendo estuprada. Outro momento é quando Bryce estupra Hannah na banheira, não dando chance dela se desvencilhar. Ela não consegue reagir contra ele e temos aí outro trauma, decisivo para sua decisão final.

"Os adultos que foram vítimas de abuso físico durante a infância relataram índices mais elevados de ideação suicida e relataram ter realizado mais tentativas de suicídio ao longo da vida. Encontramos resultados semelhantes no que se refere às experiências de negligência e ao ambiente familiar disfuncional" (SILVA, Suzana, MAIA, Angela, 2010)

Não é fácil para uma vítima de abuso contar para a família ou denunciar o agressor. Daí a importância do diálogo (que discuto mais abaixo), de haver um canal aberto na família para que caso algo assim ocorra, não seja mascarado e fique oculto durante anos. Já perdi a conta de quantos pacientes atendi na clínica que sofreram abuso na infância, em vários níveis, e nunca contaram para a família, consequentemente nunca houve punição para o agressor, que provavelmente continuou os abusos com outras pessoas.  

-DIÁLOGO: Na série você não vê diálogo ente pais e filhos. Os filhos não conversam com seus pais para dizer o que estão passando, quais problemas estão enfrentando. Pois isso, quando os pais de Hannah a encontraram morta eles não entendia o que havia motivado o ato e passam o seriado inteiro em busca de respostas que os ajude a entender.  Clay passa toda a estória escondendo tudo de seus pais, e em determinado momento quando sua mãe não aguenta mais tantos segredos ele cede e diz que logo vai revelar tudo a ela. Mas a série termina e a mãe de Clay ouve sobre as fitas e sobre o envolvimento de Clay com elas por outra pessoa. Hannah não conta para os pais as coisas que tem passado, os problemas e conflitos que se desenrolam na escola porque sempre que ela tenta se aproximar de alguém acaba dando errado. 

O que gostaria de deixar claro é, o quão importante esse diálogo é e como isso pode ajudar a identificar sinais não só de bullying, mas de depressão e de ideação suicida. Somente ao fim da série, alguns dos alunos que passaram por experiências ruins, como a Jessica que é estuprada, contam o que de fato aconteceu para seus pais. Diálogo é uma forma dos pais acompanharem a vida social e escolar do filho, de poder abrir um canal de comunicação para tratar de assuntos difíceis, fornecer suporte emocional e mostrar o amor que tem.  

-CONSELHEIRO ESCOLAR: Durante toda série eu fiquei observando como aquele conselheiro era de alguma forma estranha, mal preparado para lidar com os alunos, visto que ele não consegue estabelecer um vínculo positivo com ninguém. Todos que vão a sua sala tem a necessidade de falar, e desistem. Conselheiro escolar não é o mesmo que psicólogo escolar, que fique bem claro, ali é uma particularidade das escolas americanas. Todavia, é um profissional que deve estar capacitado para ouvir e orientar os jovens. Apenas no fim o expectador fica sabendo que Hannah o procurou, como última tentativa, um pedido de ajuda, e ele não conseguiu captar a mensagem que ela tentava passar, novamente demonstrando essa dificuldade de criar um rapport com os estudantes. 

Nem sempre as pessoas estão dispostas a falarem sobre seus medos ou sobre coisas dolorosas assim. É muito comum na clínica paciente que só depois de um tempo, quando estão mais acostumados começarem a se abrir e falar dos seus problemas. Mesmo ouvindo o relato de Hannah ele não atentou para o pedido de socorro dela, que estava implícito naquela mensagem. Sim, profissionais não tem bola de cristal, como alguém aí deve estar pensando, mas quem trabalha nesse tipo de posição tem que ter empatia, sensibilidade para perceber essas nuanças. Além disso, é preciso capacitar os profissionais das escolas para perceberem os sinais de ideação suicida. Nem todas as escolas brasileiras possuem psicólogos, e muitas escolas grandes e particulares em geral focam os esforços do psicólogo em outras áreas que não a prevenção de suicídio (tenho amigos que foram psicólogos escolares). Ainda é um tabu grande trabalhar a prevenção de suicídio nas escolas (principalmente nas privadas), mas somente prevenindo podemos evitar tragédias. Todo corpo escolar deve ser capacitado para reconhecer sinais que possam indicar sofrimento psíquico e emocional intensos, de modo a poder se aproximar do aluno e estabelecer uma via de diálogo, dar suporte e avisar os pais e encaminhar para acompanhamentos mais especializados quando for o caso.

-AUTOMUTILAÇÃO: automutilação é um comportamento recorrente em algumas tentativas de suicídio, sintoma de alguns transtornos (vide meu artigo sobre Transtorno de Personalidade Borderline clicando aqui) e até mesmo um diagnóstico de autolesão não suicida. A automutilação pode ser definida como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo sem intenção consciente de suicídio, apesar da nomenclatura, pode envolver queimaduras, fincar objetos na pele, etc. É mostrado, de forma breve, uma personagem com cortes no braços: Skye. Em dois breves takes, Clay percebe que o braço dela está cheio de riscos, cicatrizes de cortes, e a confronta no que ela responde "É o que você faz ao invés de se matar". Comportamento autolesivo não é incomum de ser precedido de ideação suicida, indica um grau de sofrimento psíquico e deve ser cuidado.


-SUICÍDIO: Desde o primeiro episódio de 13 Reasons Why é perceptível o quanto é difícil para os alunos aceitarem e lidarem com o suicídio de Hannah. A maioria prefere evitar o assunto e o expectador sente um clima pesado no ambiente escolar. Todos estão tentando retomar o cotidiano, mas o fantasma do suicídio assombra a escola. Alguns alunos tentam lidar com isso espalhando cartazes, mensagens positivas no armário de Hannah, a escola inclusive inicia um processo de orientar os pais sobre possíveis sinais (mas se não estou enganado isso vem apenas depois que os pais de Hannah entram com um processo contra a escola).

Suicídio é um tabu, é inegável. Não sabemos nem ao menos lidar direito com as mortes cotidianas (sejam de causas naturais ou não), logo enfrentar uma morte auto-infligida é um patamar muito mais difícil para nossa sociedade. Na série, os estudantes que tinham contato com Hannah não admitem (exceto Alex) que tiveram influência em algum ponto para motivar Hannah ao suicídio. Alex é um dos que mais se culpa, a ponto de no último capítulo tenta se matar com arma de fogo.

Gosto sempre de lembrar que o suicídio é um fenômeno complexo e multideterminado, logo não existe um motivo único para uma pessoa pensar ou cometer suicídio, mas um somatório de fatores, entre riscos e proteção. Se os fatores de risco superam os de proteção então as chances aumentam vertiginosamente. Bullying, decepções, solidão, isolamento, abuso sexual, possível transtorno mental, todos são fatores de risco.

Não fica claro em 13 Reasons Why, até porque é uma obra de ficção e limitada, mas geralmente existe um transtorno mental por trás das tentativas de suicídio. Muitas vezes um transtorno mental que não foi diagnosticado porque a pessoa nunca foi avaliada por um especialista.

Associados ao bullying geralmente temos a depressão, embora isso não fique claro em Hannah, que parece uma adolescente como qualquer outra. Mas o seriado evidencia a constante busca de Hannah por atenção, por relações sociais, algo que lhe e negado quase o tempo todo, gerando um suposto isolamento social (suposto porque isso não é mostrado de forma clara). Alguns transtornos de personalidade são caracterizados por essa busca constante por atenção. Hannah tinha um transtorno de personalidade não diagnosticado? Talvez, é apenas especulação minha, mas acho possível. Apesar de sua proximidade com Clay, parece que para ela aquela amizade não contava, uma vez que estava sempre em busca da amizade de outros, mesmo Clay estando sempre ali para ela. Mais uma característica dos transtornos de personalidade.

Supondo que houvesse um programa de prevenção de suicídio na escola, um canal de comunicação com a família, suporte de amigos, Hannah não teria cometido suicídio. Faltaram fatores protetivos. Mesmo quando ela buscou ajuda, o conselheiro falhou em chegar até ela e interpretar o que ela estava dizendo. Isso vale para a vida real. Devemos estar atentos a esses comentários de que a "vida não presta", "o mundo estaria melhor sem mim", "não sirvo para nada", "seria melhor desaparecer". Comentários assim são pedidos de socorro. Mas vamos aos sinais. 

-SINAIS: Você que assistiu 13 Reasons Why deve ter se perguntando "Quais os sinais de uma pessoa que está pensando em cometer suicídio?". É difícil às vezes ver algo quando não se está procurando ou quando não se sabe o que se está procurando. Os sinais podem ser bem sutis em 13 Reasons Why eles são. O primeiro grande sinal é o poema de Hannah, que Ryan publica sem ela saber e que a deixa mal por saber que seus pensamentos agora são de domínio público. O poema de Hannah é forte e recheado de metáforas sobre sofrimento e o desejo de morrer. Hannah fica muito transtornada ao ver que, mesmo anonimamente, todos começam a comentar seu poema. A mesma coisa acontece com um sujeito com ideações suicidas. Imaginar que as pessoas sabem de suas intenções de tirar a própria vida pode deixá-lo numa situação constrangedora, daí muitas vezes o fato de não falar abertamente sobre isso, de não comunicar diretamente suas intenções. O que nós vamos procurar são sinais indiretos.



Temos que estar atentos a mudanças de comportamento (de repente a pessoa começa a agir diferente do habitual), isolamento, tristeza, explosões de raiva, comportamento auto-lesivo (se cortar, por exemplo), pensamentos mórbidos. identificando essas alterações, podemos conversar com a pessoa e fazer as seguintes perguntas que vão determinar a ideação suicida:



1) Você tem planos para o Futuro? A resposta do paciente com risco de suicídio é não
2) A vida vale a pena ser vivida? A resposta do paciente com risco de suicídio novamente é não
3) Se a morte viesse ela seria bem vinda? Desta vez a resposta será sim par aqueles que querem morrer
Se o paciente respondeu como foi referido acima, o profissional de saúde fará estas próximas perguntas:
4) Você está pensando em se machucar/se ferir/ fazer mal a você/ em morrer?
5) Você tem algum plano especifico para morrer/se matar/tirar sua vida?
6) Você fez alguma tentativa de suicídio recentemente?

Na vida real é mais fácil de perceber esses sinais do que no seriado, visto que a obra de ficção mostra em detalhes o sofrimento de Hannah, mas não os sinais que normalmente os pacientes com ideação suicida dão. A série mostra o suicídio como uma escolha, e aqui eu gostaria de deixar claro meu posicionamento enquanto psicólogo e profissional da saúde. O suicídio é uma opção quando não há apoio. Nunca conheci alguém que quisesse morrer porque sua vida está indo bem, o comportamento suicida é motivado por um sofrimento psíquico intenso e quando não há alternativa para esse sofrimento o indivíduo busca a morte, como forma de alívio. Daí se houver amparo, tratamento e cuidado familiar, a tendência é a ideação ceder e o paciente melhorar. Não é um caminho fácil, mas é um caminho possível e alternativo a morte.

-SOBREVIVENTES: Nós chamamos de sobreviventes aqueles que vivenciam a perda de alguém para o suicídio- família, amigos, escola, trabalho. Essas pessoas vivenciam o luto de uma forma complexa, quanto mais próximo daquele indivíduo que se suicidou mais difícil é o processo de luto, podendo levar a problemas psicológicos graves. Em geral as pessoas não buscam suporte para lidar com esse tipo de perda, o que é uma questão importante, visto que existem diversos sentimentos associados a morte daquele ente querido.

Há uma tendência das pessoas em buscar culpados, isso é bem mostrado em 13 Reasons Why quando os pais de Hannah estão tentando a todo custo entender o suicídio de Hannah, assim como Clay também procura culpados e se culpa em vários momentos. É isso mesmo que acontece, sentimentos de raiva, tristeza, em certos momentos há culpa vai para outros, ora para si mesmo. Essa confusão de sentimentos, quando não trabalhada numa sessão de terapia de apoio, por exemplo, pode evoluir para depressão e outros transtornos. Em determinado momento pode levar a uma culpabilização insuportável que culmina com uma nova tentativa de suicídio. Por esse motivo Alex tenta se matar no último capítulo. Enquanto os outros alunos estão fugindo da responsabilidade, evitando o assunto, Alex sempre assumiu que suas ações influenciaram Hannah e essa culpa vai ficando cada vez mais pesada até ser insustentável, o que o leva e tentar suicídio por uso de arma de fogo.


CONCLUSÕES

"O Brasil é o quarto país latino-americano em número de suicídio entre 2000 e 2012, segundo a Organização Mundial da Saúde, porém, o Ministério da Saúde traz que o crescimento do número de suicídios no Brasil (5,8 por 100 mil habitantes) é praticamente a metade da média mundial (11,4 por 100 mil habitantes) (WHO, 2014)."

Bom, sei que o texto ficou bem grande, mas eu queria fazer uma reflexão sobre o que achei pertinente em 13 Reasons Why, ressaltando o que é mostrado com o lado científico, para informar vocês da importância da prevenção. Não podemos nos calar frente ao suicídio, precisamos falar, precisamos abrir canais em que as pessoas que precisam de ajuda possam se agarrar nos momentos difíceis de suas vidas.

A série não romantiza ou incentiva o suicídio, no meu ponto de vista. Fica claro o sofrimento e a dor de Hannah o tempo todo e como a adolescente não consegue encontrar mecanismos para lidar com isso, além de que a falta de diálogo e sensibilidade de algumas pessoas a faz sentir cada vez mais sozinha até ela tomar sua decisão. Não foram decepções amorosas, a falta de amigos ou bullying, que levaram Hannah a cometer suicídio, mas o somatório dessas experiências traumáticas, assim como a sensação de falta de suporte emocional, aliado a uma personalidade pré-morbida (a pessoa portadora de traços melancólicos e sensibilidade excessiva terá maior probabilidade de desenvolver uma quadro depressivo mais crônico e mais atrelado à personalidade, portanto, terá uma evolução mais desfavorável).

Vejo o seriado como um alerta, do que ocorre hoje em nossa sociedade, não apenas nas escolas, mas o Brasil tem tido um aumento nas taxas de suicídio ano após ano, enquanto outros países tem conseguido reduzir esses números. É um seriado que precisa ser visto e debatido, pois como sempre digo, é imprescindível falarmos sobre suicídio, mas fora do senso comum, entendo esse fenômeno como um problema de saúde pública, não como uma fraqueza ou uma escolha pessoal.


REFERÊNCIAS: 

1-http://www.bullyingstatistics.org/content/bullying-and-suicide.html
2-https://www.cdc.gov/violenceprevention/pdf/bullying-suicide-translation-final-a.pdf
3-http://www.scielo.br/pdf/rprs/v32n3/1321.pdf
4-http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1647-21602016000100003
5-http://revpsi.org/wp-content/uploads/2015/12/Fukumitsu-et-al.-2015-Posvenção-uma-nova-perspectiva-para-o-suicídio-Posvenção-uma-nova-perspectiva-para-o-suicídio.pdf
6-http://www.mastereditora.com.br/periodico/20150501_135302.pdf
7-http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=58
8-http://www.scielo.mec.pt/pdf/rpsp/v31n2/v31n2a09.pdf
9-http://www.scielo.mec.pt/pdf/aps/v19n4/v19n4a03.pdf
10-BOTEGA, N. J. Crise suicida: avaliação e manejo. Porto Alegre: Artmed, 2015.


terça-feira, 30 de agosto de 2016

O QUE É EUTANÁSIA, ORTOTANÁSIA, DISTANÁSIA E SUICÍDIO ASSISTIDO?

Existe muita desinformação e controvérsias acerca do direito de escolher a própria morte, em determinadas circunstâncias. Vamos então tentar esclarecer pontos importantes dessas condutas.



A morte sempre foi e sempre será um tema muito presente em relação a condição humana, não apenas por ser uma certeza absoluta da vida, mas também por todo mistério e tabu que a cercam. Diversos pensamentos filosóficos e religiosos buscam explicar a morte e dar sentido a vida humana, ao passo que a própria morte, em determinados momentos históricos e culturas, acaba se tornando um tabu. Com o avanço da medicina, prolongar a vida foi possível através da descoberta de vacinas, antibióticos e do tratamento de muitas doenças simples, na medida em que outras doenças mais sérias e incuráveis começavam a se expandir. Vencemos a varíola e a tuberculose, a poliomielite, mas fomos surpreendidos pelo HIV, pelo aumento nos casos de câncer, e não conseguimos vencer ainda as doenças degenerativas como a doença de Huntington, Parkinson e Alzheimer, assim como as doenças genéticas. Então surge uma tentativa de minimizar a dor causada por essas enfermidades, uma forma de aliviar o sofrimento do paciente. Não entrarei aqui no discurso moral ligado a certo e errado, o propósito desse texto é ser informativo. 

EUTANÁSIA, ORTOTANÁSIA, DISTANÁSIA E SUICÍDIO ASSISTIDO


Desde cedo, o acadêmico de medicina é moldado para enxergar a morte como “o maior dos adversários”, o qual deverá ser impiedosamente confrontado e vencido graças ao avanço da ciência, da tecnologia ou mesmo da competência individual. A morte de um paciente muitas vezes é, real ou simbolicamente, o atestado de falha, de que em algum ponto algo deu errado e não foi possível salvar o paciente. É, sem sombra de dúvida, uma carga de responsabilidade e estresse para o médico realmente compromissado com a missão de salvar vidas e garantir o bem estar de seus pacientes. Mas em algum momento a morte sempre sai vitoriosa e quando o médico sabe que esse momento vai chegar, é possível que ele possa cuidar de seu paciente apenas garantindo que sofra menos e viva seus últimos momentos de forma digna até sua partida. 

Justamente, o termo eutanásia é oriundo do grego, tendo por significado boa morte ou morte digna. Etimologicamente eutanásia, significa "morte boa" (eu = bom/boa; thánatos = morte) ou "morte sem grandes sofrimentos". 

"Foi usado pela primeira vez pelo historiador latino Suetônio, no século II d.C., ao descrever a morte “suave” do imperador Augusto: A morte que o destino lhe concedeu foi suave, tal qual sempre desejara: pois todas as vezes que ouvia dizer que alguém morrera rápido e sem dor, desejava para si e para os seus igual eutanásia (conforme a palavra que costumava empregar) (Suetônio, 2002). Séculos depois, Francis Bacon, em 1623, utilizou eutanásia em sua Historia vitae et mortis, como sendo o “tratamento adequado às doenças incuráveis”(apud Jiménez de Asúa, 1942)"

Existem alguns tipos de eutanásia, trago a definição de Neukamp (1937):

  •  Eutanásia ativa, ato deliberado de provocar a morte sem sofrimento do paciente, por fins humanitários (como no caso da utilização de uma injeção letal);

  •  Eutanásia passiva, quando a morte ocorre por omissão em se iniciar uma ação médica que garantiria a perpetuação da sobrevida (por exemplo, deixar de se acoplar um paciente em insuficiência respiratória ao ventilador artificial);

  • Eutanásia de duplo efeito, quando a morte é acelerada como consequência de ações médicas não visando ao êxito letal, mas sim ao alívio do sofrimento de um paciente (por exemplo, emprego de uma dose de benzodiazepínico para minimizar a ansiedade e a angústia, gerando, secundariamente, depressão respiratória e óbito).



Já Martin, (1998) entende a eutanásia da seguinte forma:

  • Eutanásia voluntária, a qual atende uma vontade expressa do doente – o que seria um sinônimo do suicídio assistido;

  • Eutanásia involuntária, que ocorre se o ato é realizado contra a vontade do enfermo – ou seja, sinônimo de “homicídio”;

  • Eutanásia não voluntária, quando a morte é levada a cabo sem que se conheça a vontade do paciente.


De acordo com as Leis do nosso país a eutanásia é vista como homicídio, mas em países como Suíça, Bélgica e Holanda é considerada uma prática comum. Segue um vídeo que mostra um exemplo de eutanásia, de uma mulher que sofria com uma doença dolorosa mas não-letal e mesmo assim optou por morrer.





Ortotanásia é deixar que o paciente siga seu caminho natural para a morte sem aumentar-lhe a vida de forma artificial, ou seja, apenas o acompanhamento para que a morte seja menos sofrível possível e de forma natural. Alguns pacientes, em países europeus e nos EUA, por exemplo, tem ordens de não ressuscitação em caso de parada cardio-respiratória, o que abrevia sua existência e impede os esforços médicos de mantê-lo vivo.

Temos ainda a Distanásia, cujo primeiro significado veio em 1904 por Morcache, para caracterizar uma agonia prolongada que origina uma morte com sofrimento físico ou psicológico do indivíduo lúcido. O termo é bastante utilizado hoje na intenção de designar a forma de prolongar a vida de modo artificial, sem perspectiva de cura ou melhora (Pessini, 2001). Pessoas em estado vegetativo que vivem através de aparelhos são um exemplo de distanásia. 

Outro conceito que é confuso, o suicídio assistido (também chamado de morte assistida) é quando uma pessoa solicita o auxílio de outra para morrer, caso não consiga matar-se por si mesma. No suicídio assistido o paciente está consciente e verbaliza seu desejo de morrer, enquanto que na eutanásia, nem sempre o paciente está consciente. Um exemplo disso seria um paciente em coma, mantido vivo com ajuda de aparelhos. Nesse exemplo a eutanásia seria então autorizada por um membro da família.



Referências:

SIQUEIRA-BATISTA, Rodrigo. SCHRAMM, Fermin Roland. Eutanásia: pelas veredas da morte e da autonomia. Ciência & Saúde Coletiva, 9(1):31-41, São Paulo, 2004.

PESSINI, L. Distanásia. Até quando prolongar a vida? São Camilo-Loyola, São Paulo, 2001.

Martin LM. Eutanásia e distanásia, pp 171-192. In SIF Costa, G Oselka & V Garrafa (orgs.). Iniciação à bioética. Conselho Federal de Medicina, Brasília. 1998.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

SUICÍDIO ENTRE JOVENS: 'OS PAIS NÃO DIALOGAM COM SEUS FILHOS'

Gostaria de deixar aqui o link para uma entrevista que forneci para um portal sobre psicologia. A entrevista é acerca do suicídio, um tema importante que deveria ser mais abordado e que deveria ter mais atenção das autoridades. Segue o início da entrevista.



"Uma jovem de 19 anos transmitiu ao vivo seu suicídio, quando decidiu se jogar na frente de um trem. O que leva uma pessoa a fazer algo assim? Psicólogos falam de falta de diálogo e apoio."

Se você nunca teve que lidar de forma direta com o problema do suicídio na sua família, seguramente conhece alguém (que conhece alguém) que sim. Os casos podem acontecer em diferentes faixas etárias e nunca são fáceis de assimilar e superar.
Também estão as histórias que ganham repercussão nas mídias e redes sociais, gerando comoção e abrindo o debate para outras questões, como falta de controle sobre o que é divulgado, a responsabilidade de quem reproduz a notícia e o efeito que pode provocar em quem está passando por problemas similares.
Em maio, uma jovem francesa de 19 anos usou um aplicativo de celular para transmitir ao vivo seu suicídio, gravando quase 30 minutos de imagens que terminaram com ela se jogando na frente de um trem, na cidade de Égly, a 40km de Paris.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 800 mil pessoas se suicidam por ano no mundo inteiro. E é importante lembrar que, para cada caso efetivado, há várias tentativas não consumadas, o que agrava ainda mais as estatísticas. Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a segunda principal causa de morte, segundo dados de 2012.
Os números servem para evidenciar a gravidade do tema, considerado pela OMS como um grave problema de saúde pública. Por trás de cada número há uma história de vida, marcada por uma trajetória de sofrimento e, muitas vezes, incompreensão.
O que leva uma pessoa a cometer suicídio? O que está por trás de casos como o da jovem francesa? Como ajudar quem está numa situação de risco? Convidamos dois psicólogos, Leonardo Viana de Vasconcelos Martins e Maitê Hammoud, para responder algumas perguntas sobre o tema. Confira suas entrevistas agora.


http://br.mundopsicologos.com/artigos/suicidio-entre-jovens-os-pais-nao-dialogam-com-seus-filhos

terça-feira, 19 de maio de 2015

Maconha Sintética que Mata Mais Rápido?


Os pais do jovem Connor Eckhardt estão arrasados. Seu único filho morreu de forma inesperada com 19 anos de idade, depois de fumar uma forma sintética de maconha chamada "Spice", algo como "tempero" ou "especiaria". Os pais acreditavam que tinham uma relação íntima com o filho sobre as drogas, aparentemente se enganaram. Eles estão agora num movimento para mostrar ao mundo os perigos das drogas sintéticas vendidas pela internet em algumas lojas especiais como nomes de "Spice", "K-2" e "Scooby Snax". São ilegais e muitas vezes ditas impróprias para o consumo humano.


Os pais de Connor, através do Facebook e do site Do It 4 Connor estão divulgando que essas drogas sintéticas podem causar ataques cardíacos, dano cerebral, alucinações, dependência e matar. Um jovem que utilizou a maconha sintética disse "Seu corpo quer, mesmo sabendo que não devia". Uma mulher disse que "Da última vez que fumei achei que teria um ataque do coração". Uma entrevista com outro usuário ficou comprometida porque ele estava incapaz de responder questões básicas devido ao seu estado. Outro homem, ciente da morte de Connor, disse que a droga era uma "roleta russa". Educadores dizem que os jovens pensam que estão adquirindo uma alternativa mais segura que a maconha, mas estão enganados. 


Essa nova maconha, o Spice e outras similares são folhas trituradas adicionadas de produtos químicos e embaladas em envelopes chamativos. Não se sabe onde é feita ou o que é colocada nela, de acordo com o Departamento Antidrogas de Los Angeles. Os policiais estão investigando esses fatos e disseram "Spice" é fumado como maconha. Porque usar tudo? Aqueles que fizeram disseram que é nova e te deixa no limite, e não aparece nos testes toxicológicos por ser uma substância nova, fator esse que aumenta sua popularidade. Uma pesquisa realizada na faculdade constatou que 8% dos alunos já experimentaram, enquanto que 30%  já experimentaram maconha.  


COMO SPICE AFETA O CÉREBRO?

Os usuários dessa maconha sintética relataram uma sensação similar a produzida pela maconha - alteração de humor, relaxamento, alteração da percepção - em alguns casos os efeitos são mais potentes que aqueles da maconha comum. Existem relatos de ataques de pânico, paranóia e alucinações. 

Até então não há estudos científicos sobre os efeitos do Spice no cérebro humano, mas é sabido que os componentes canabinóides encontrados no Spice agem nos mesmos receptores como THC, o a substância química básica da maconha. Alguns componentes do Spice, entretanto, se ligam mais fortemente a esses receptores que podem levar a um forte e inesperado efeito. Devido a composição química desconhecida de seus componentes pode causar diversos efeitos desconhecidos em seus usuários.


QUAIS OUTROS EFEITOS NO ORGANISMO QUE O SPICE PODE CAUSAR?

Usuários de Spice que foram levados ao centro de Toxicologia relataram sintomas que incluíam taquicardia, vomito, agitação, confusão e alucinações. Spice também pode aumentar a pressão sanguínea e causar uma redução do suprimento de sangue ao coração causando isquemia do miocárdio. Em alguns casos é associada a ataques cardíacos. Usuários contínuos podem experienciar sintomas de dependência e tolerância. 

Não sabemos ainda todo os efeitos que o Spice pode ter na saúde humana ou o quão tóxica ela pode ser, mas existe um consenso em saúde pública que ela pode ser prejudicial por conter resíduos de metais pesados em sua mistura. Sem uma análise mais precisa é difícil determinar se o alarde acerca dessa droga é justificado. Em todo caso, como qualquer tipo de droga, o melhor que se tem a fazer é evitá-la.


FONTES:

http://www.emcdda.europa.eu/attachements.cfm/att_80086_EN_Spice%20Thematic%20paper%20%E2%80%94%20final%20version.pdf

http://www.myfoxchicago.com/story/27176277/fox-11-investigates-synthetic-marijuana

http://www.jornalciencia.com/saude/mente/4402-maconha-sintetica-rapaz-de-19-anos-morre-apos-experimentar-nova-droga-que-esta-virando-moda-entre-os-jovens

http://www.drugabuse.gov/publications/drugfacts/k2spice-synthetic-marijuana

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Suicídio, Religião e Reflexões


Aproveitando a deixa do último artigo, hoje pretendo tratar de um tema bastante delicado e cheio de tabus por parte da sociedade: o suicídio. Nesse artigo vou tecer algumas idéias acerca do tema, a partir das minhas leituras, do meu conhecimento profissional e da minha experiência como psicoterapeuta.


O suicídio sempre existiu na humanidade, se manifestando de formas diferentes em cada cultura e sociedade, de acordo com as demandas de cada período. Temos como significativa expressão do suicida o povo japonês. Na época feudal os samurais japoneses praticavam o sepukku, termo que significa literalmente "cortar o estômago", um modo de suicídio por autoestripamento. 

Originalmente o sepukku era realizado apenas pelos samurais que seguiam um rígido código de honra e podia acontecer de três formas: para o samurai não cair nas mãos do inimigo, para evitar desonra caso ele tivesse cometido algo vergonhoso ou como pena de morte por algum crime. Então, se o samurai tivesse algum comportamento inadequado para a época, ele deveria cometer o sepukku, caso contrário, seria desonrado, um pária na sociedade feudal japonesa. Esse tipo de suicídio ritual consistia em enfiar sua espada no abdômen, realizando um corte da esquerda para a direita abrindo completamente a barriga, na frente de vários espectadores.

Já na Segunda Guerra Mundial os japoneses utilizaram os seus kamikazes, pilotos que cometiam suicídio ao usarem os seus aviões para afundar navios e atingir alvos durante o conflito. Kamikaze significa "vento divino" e vale salientar que era um termo utilizado pelos aliados. Motivados para lutar contra uma ameaça maior, colocavam em xeque a própria vida em prol de um objetivo maior, a vitória na guerra e a glória da sociedade japonesa, deixando assim de lado todos os anseios pessoais. 


Temos também uma cultura de suicídio na Grécia antiga, onde várias mitologias se desenvolvem em cima do tema, a verdadeira tragédia grega. Deixo o link desse artigo que fala um pouco sobre isso:


Mas e a nossa cultura, a cultura ocidental? Principalmente aqui no Brasil o suicídio é visto como uma prática condenável, tanto pela sociedade quanto pela religião. Segundo o Vaticano, o Quinto Mandamento "Não Matarás", tem os seguintes desdobramentos:

"Cada qual é responsável perante Deus pela vida que Ele lhe deu, Deus é o senhor soberano da vida; devemos recebê-la com reconhecimento e preservá-la para sua honra e salvação das nossas almas. Nós somos administradores e não proprietários da vida que Deus nos confiou; não podemos dispor dela."

"O suicídio contraria a inclinação natural do ser humano para conservar e perpetuar a sua vida. É gravemente contrário ao justo amor de si mesmo. Ofende igualmente o amor do próximo, porque quebra injustamente os laços de solidariedade com as sociedades familiar, nacional e humana, em relação às quais temos obrigações a cumprir. O suicídio é contrário ao amor do Deus vivo."

"Se for cometido com a intenção de servir de exemplo, sobretudo para os jovens, o suicídio assume ainda a gravidade do escândalo. A cooperação voluntária no suicídio é contrária à lei moral." [1]

Desta forma fica claro o posicionamento da Igreja Católica Apostólica Romana sobre a questão, uma vez que Deus lhe deu o dom da vida não lhe é permitido tirá-la, nem a de seu próximo, nem a sua. O Espiritismo tem uma lógica similar, afirmando que o suicida sofre uma terrível pena por consumar esse ato tão perverso, é enviado a uma "dimensão" chamada Umbral onde permanece imerso em sofrimento e dor, revivendo a dor da morte e tendo sua alma atormentada por outros suicidas. 

Já no Islamismo, o suicídio tampouco é permitido. Para eles, o martírio perante Deus que venha a ceifar a própria vida não é considerado suicídio, dessa forma lutando num conflito até a morte pela "causa divina" não seria considerado suicídio. Entretanto os atos de martírio onde os islâmicos detonam bombas para matar várias pessoas, consumindo sua própria vida no processo, é sim considerado suicídio pelo Islamismo. O que ocorre é que os líderes desses grupos como o Hamas, o Hezbollah, a Jihad Islâmica e a Al-Qaeda, exercem uma forte influência cultural e espiritual sobre seus membros, distorcendo os preceitos do Islamismo e encorajando esse tipo de ato, o sacrifício da própria vida para encontrar o paraíso das virgens.


Fica evidente como as religiões rejeitam a ideia do homem ceifar a própria vida, acredito que isso vem como uma forma de autopreservação, de conservação do bem mais precioso que temos, mesmo que de uma forma inconsciente. 


E O SUICÍDIO NA NOSSA SOCIEDADE? 

Depois desse preâmbulo sobre como as religiões veem o tema, podemos finalmente tecer alguns comentários sobre o suicídio na atualidade, sobre as crises existenciais, sobre os transtornos psicológicos e as motivações dos suicidas. 

Diversos transtornos psiquiátricos podem levar ao suicídio, mais comumente as pessoas associam a Depressão como principal causa de suicídio, mas não é bem assim. Sabemos pela prática clínica que quadros depressivos podem sim gerar ideações suicidas, mas nem sempre isso é indicativo que vá ocorrer o suicídio. Outros quadros psiquiátricos são passivos de uma incidência até maior de suicídio, como surtos psicóticos, por exemplo, mas infelizmente não podemos afirmar categoricamente tal fato pela falta de dados estatísticos precisos. 

A dificuldade em se estudar esse fenômeno é todo o tabu e preconceito que o cercam, pois como já foi mostrado pelo pensamento religioso acima o suicidar-se é reprovável em nossa sociedade e é visto como algo que deve ser escamoteado, talvez pelo medo que a morte causa, talvez pelo choque da forma como o suicida se matou. Há um pensamento de que a divulgação do suicídio irá estimular outros, um raciocínio que eu, como profissional da Psicologia acho falho. É como dizer que ver pessoas fumando fará você fumar, mesmo sabendo que aquilo é nocivo. Dessa forma, os casos de suicídio que chegam ao Sistema de Verificação de Óbito de Fortaleza (SVO, o necrotério), nem sempre são tratados como tal no obituário, constando outro fator para causa mortis. Isso é bem mostrado pelo Dr. Cleto em sua pesquisa sobre o suicídio na cidade de Fortaleza, um estudo dos suicídio nesses últimos 50 anos. Se a pessoa se mata jogando gasolina e ateando fogo em si mesma, deveria constar "Suicídio por imolação por fogo", ao invés de "Morte por distúrbio hidroeletrolítico", no caso de um tiro na cabeça, ao invés de "suicídio por arma de fogo" coloca-se "morte devido a projétil de arma de fogo" e assim por diante.


Mas excluindo os transtornos psiquiátricos, o que leva uma pessoa a se matar muitas vezes é um ato impulsivo, onde o sujeito está passando por alguma situação da qual não consegue sair e o estresse gerado pode fazer com que essa pessoa haja precipitadamente. Vemos muitos casos na TV onde o sujeito sobe em torres ou fica na beirada de prédios, mas no fim não se mata ou não esboça o real desejo de morrer. As pessoas falam "Esse aí só queria chamar a atenção". O que ele queria era uma solução para algum problema sério, uma dificuldade que causou um desespero tão intenso que o fez a tomar aquela atitude impensada. 


Temos visto também alguns casos de jovens que tem se suicidado por conta do fim de relacionamento afetivo. Esse tipo de suicídio merece algumas reflexões. Primeiro, vamos assumir que o suicídio foi motivado pelo fim do relacionamento, não existindo anteriormente qualquer transtorno psiquiátrico associado (Depressão, esquizofrenia, transtorno de personalidade, demência, transtornos de humor, etc). O rompimento de um relacionamento tem essa força para levar o jovem a se suicidar? Isso vai depender do histórico dessa pessoa, da estrutura familiar onde cresceu, do suporte que teve dos pais durante seu desenvolvimento e da forma como interpreta as relações interpessoais. 

Se há, por exemplo, histórico de rejeição, abandono, negligência, é bem provável que a dor da separação daquela pessoa cuja a afeição era tão importante para si seja algo insuportável e a falta de mecanismos psicológicos e familiares para lidar com isso leve a pessoa a um ato impulsivo de se matar. A dificuldade em lidar com as perdas, a ausência da família e o sentimento de desamparo extremo são capazes de gerar um sentimento de vazio que pode culminar em algum transtorno depressivo transitório, mas também podem ser o estopim para um comportamento impulsivo que leve ao suicídio. As pessoas cada vez se apegam mais as outras esquecendo de si mesmas, se doando excessivamente e negligenciando seus próprios anseios, e quanto isto lhe é tirado (fim da relação) só resta o vazio.

O suicídio muitas vezes é motivado por esse vazio existencial, por essa angústia enlouquecedora que nossa sociedade provoca com suas relações frágeis e efêmeras, por essa desvalorização cada vez maior do ser humano. Nossa sociedade está adoecida e nós adoecemos junto com ela, o suicídio é apenas mais um dos sintomas disso.

Esse assunto é muito complexo e podemos falar sobre bastante coisa, prometo escrever mais sobre isso no futuro, principalmente sobre os tipos de suicídio e de estratégias para evitá-los. Quaisquer dúvidas, postem nos comentários ou mandem e-mail.



REFERÊNCIAS:

Pontes, Cleto Brasileiro. Suicídio em Fortaleza: Estudo de 50 anos. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2008.