quarta-feira, 28 de novembro de 2018

5 ORIENTAÇÕES IMPORTANTES PARA QUEM TEM TRANSTORNO BIPOLAR


Hoje gostaria de falar com vocês sobre Transtorno Bipolar. Para quem não leu ainda sobre o que é esse transtorno mental, pode acessar a matéria completa aqui no blog clicando aqui! Meu objetivo hoje aqui é falar um pouco sobre como o paciente, devidamente diagnosticado com esse transtorno, pode ter uma melhor qualidade de vida, através de dicas simples que se seguidas com empenho irão se reverter em ganho para a pessoa. Vamos lá!


5 orientações para conviver bem com o Transtorno Bipolar:

1-TOME AS MEDICAÇÕES REGULARMENTE: O Transtorno Bipolar (TB) é um transtorno crônico e por esse motivo irá acompanhar o paciente por toda vida. Daí a adesão ao tratamento ser um ponto muito relevante nesse processo, e o tratamento inclui acompanhamento psiquiátrico e psicológico, mas nem todos os pacientes aderem a ambos, infelizmente. São os medicamentos que vão proporcionar o controle dos sintomas, reduzir a gravidade dos episódios de mania e depressão. Quando o paciente passa a tomar regularmente as medicações as alterações de humor passam a ser mais espaçadas, e a intensidade dos sintomas diminui. O uso regular também permite que seu médico psiquiatra possa ajustar a dose corretamente, proporcionando assim a redução de possíveis efeitos colaterais e dá mais segurança a esse profissional em relação a dose que o paciente necessita. Evite comparações com outros pacientes, cada pessoa reage diferente à medicação.


2- DORMIR BEM: Apesar de ser uma dica importante para qualquer ser humano, o paciente com transtorno bipolar é mais sensível a alterações no ciclo de sono-vigília, o que gera estresse que pode potencializar crises maníacas ou depressivas. Então ter um horário estabelecido para dormir é fundamental, pois gera um hábito no organismo em que o cérebro identifica que aquele é o horário de repouso. Evite ingerir bebidas estimulantes depois das 18h, e qualquer líquido próximo do horário que você for deitar para dormir. Líquidos ingeridos nesse horário aumentam as chances de interromper o sono para ir ao banheiro. Evite refeições pesadas, gordurosas, de difícil digestão, muito condimentadas, próximo da hora de dormir. Evite fazer exercícios muito extenuantes perto do horário de dormir. Cuide para que o ambiente em que dorme seja confortável, arejado, sem estímulos (barulhos, variações de temperatura, etc) que possam atrair sua atenção ou acordar você durante o sono. Evite o celular próximo da cama, assim como TVs ligadas. Por fim, a cama deve ser um lugar reservado para o descanso ou para praticar relações sexuais, evite fazer refeições na cama ou trabalhar nela. 


3-EVITE O ESTRESSE: esse item pode se provar realmente desafiador, como evitar o estresse numa sociedade como a nossa? O problema é que eventos estressantes desempenham um papel significativo dos episódios depressivos e maníacos do paciente com TB. Ter uma rotina é importante pois ajuda a organizar o cotidiano, regular o relógio biológico, etc. Uma agenda ajuda bastante a organizar-se, para evitar sobrecarga de tarefas ou esquecer tarefas, controlando melhor os níveis de atividades e responsabilidades do dia a dia. Outra forma de lidar com o estresse é procurar um psicólogo e fazer psicoterapia. Esse procedimento pode contribuir muito para o paciente identificar melhor os fatores que geram estresse e o profissional psicólogo auxilia ativamente na elaboração de estratégias efetivas para enfrentar essas situações.

4-EVITE O USO DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: uma dificuldade encontrada por grande parte dos pacientes com TB é justamente evitar o álcool. Uma parcela considerável dessas pessoas já fazia uso abusivo do álcool antes e depois do diagnóstico. O problema do álcool é que pode levar a problemas no fígado, alterações do funcionamento cerebral, convulsões, perda de memória, comprometimento cognitivo, depressão entre outros. Além do mais se o paciente está tomando a medicação para controlar os sintomas do TB ele pode experienciar náusea, vômitos, alterações da consciência e reduzir significativamente a eficácia das medicações.  Outras drogas, como a maconha, que é amplamente usada, dificulta a adesão ao tratamento, diminui a eficácia de certos medicamentos por conta das interações farmacológicas e seu uso contínuo pode potencializar o surgimento de sintomas psicóticos no paciente (o paciente começa a delirar, alucinar, ficar paranoico, etc). Cocaína e crack podem agravar os sintomas maníacos ou depressivos, deixa o indivíduo mais agressivo, inconsequente, impulsivo, assim como aumenta o risco de internações e tentativas de suicídio. Logo, evitar essas substâncias só vai agregar a um bom prognóstico do paciente e melhorar muito sua qualidade de vida.

5-PRATIQUE ATIVIDADE FÍSICA: estudos mostram que pacientes com TB tem risco aumentado de desenvolver doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade e câncer. Quanto mais comorbidades, pior o prognóstico do paciente com TB. Por isso indicamos a prática de atividade física, pois é fonte de benefícios físicos e mentais, além de diminuir a probabilidade do surgimento das doenças que citei acima, alivia os sintomas depressivos, melhora o humor e a performance das atividades diárias, além de regular o sono e reduzir o nível de ansiedade. Mas o que ocorre com a prática de atividade física que melhora tanta coisa no nosso organismo? Quando fazemos exercícios nosso organismo produz endorfinas e neurotransmissores que melhoras o humor e reduzem os níveis do cortisol, hormônio associado ao estresse. Então não importa qual, musculação, corrida, pedaladas, mas pratique uma atividade física para se beneficiar desses efeitos. 


Espero que agora, com essas orientações, você que tem TB possa dar mais atenção a sua saúde, cuidar mais de si e ter uma vida mais regrada e saudável, porque no fim só depende de você e das suas escolhas. E que as pessoas que tem algum amigo ou parente que tenha esse transtorno possam sensibilizá-los para essas mudanças.


REFERÊNCIAS:


Souza, Fábio GM. (Org.). Você tem transtorno bipolar? Fortaleza: Premius, 2017.

American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais DSM-5. Porto Alegre: Artmed;2014.

Souza FGM. Tratamento do transtorno bipolar   - Eutimia. Rev Psiquiatr. Clín. 2005;32 (Suppl.10):63-70.

Lex C, Bazner E, Meyer TD. Does stress play a significant role in bipolar disorder? A meta-analysis. J Affect Disord. 2017;208 (August 2016): 298-308.

Berutti M, Dias RS, Pereira VA, Lafer B, Nery FG. Association between history of suicide attempts and family functioning in bipolar disorder. Journal of Affective Disorders. 2016;192:28-33.





segunda-feira, 1 de outubro de 2018

RÁDIO DEBATE- PREVENÇÃO DE SUICÍDIO: TEMAS ATUAIS

Olá a todos! Estou disponibilizando aqui mais uma das minhas participações nos eventos de setembro, da campanha do #SetembroAmarelo, onde falei na rádio universitária sobre prevenção de suicídio e muitas outras coisas relacionadas.

Informações sobre o programa:

Programa Rádio Debate: terça-feira, 25 de setembro de 2018

Tema: Prevenção do suicídio – Setembro Amarelo (Programa 2)

Debatedor:
Leonardo Martins: psicólogo, especialista em Psicodiagnóstico, supervisor do Programa de Apoio à Vida (PRAVIDA), da Universidade Federal do Ceará (UFC)

Apresentação: Pedro Vítor
Produção: Raquel Chaves
Transmissão: Universitária FM (107.9 FM)
www.radiouniversitariafm.com.br
Twitter: @radiodebate

Para ouvir, clique no play ou faça o download.

LANÇAMENTO DO O LIVRO- PREVENÇÃO AO SUICÍDIO: TEMAS RELEVANTES

Olá a todos! Primeiro gostaria de justificar minha ausência, esses últimos meses foram muito intensos! Primeiro, estava finalizando minha participação no livro "Prevenção ao Suicídio: Temas Relevantes", do PRAVIDA. Escrever um livro científico não é fácil, e tomou muito do meu tempo livre. Depois veio o mês de setembro com a campanha do Setembro Amarelo, onde fazemos muitas palestras para conscientizar sobre a prevenção do suicídio na sociedade durante o mês inteiro e isso também tomou muito do meu tempo livre. O saldo de tudo isso foi muito positivo. Compartilho agora com vocês o livro!


PREVENÇÃO AO SUICÍDIO: TEMAS RELEVANTES

O livro produzido pelo PRAVIDA ficou incrível, uma das obras (senão a obra) científica mais completa acerca do tema já produzido no nosso país. São 20 capítulos abordando os mais diversos temas relacionando a problemática do suicídio, como transtornos mentais, infância e adolescência, epidemiologia, contexto histórico, luto, trabalho, atendimento emergencial e muito mais! O livro foi escrito com muito rigor científico, se baseando nos trabalhos internacionais mais recentes sobre o tema. Para quem não conhece o que é o PRAVIDA, pode entrar no site deles e conhecer um pouco mais clicando aqui

O livro foi escrito não apenas para acadêmicos e profissionais, mas foi pensada numa linguagem acessível onde qualquer um pudesse entender seu conteúdo e se beneficiar desse conhecimento, visto que quanto mais pessoas entenderem sobre esse fenômeno, mais poderemos conscientizar a sociedade e tomar providências mais assertivas com pessoas imersas nesse tipo de sofrimento. Para quem quiser adquirir o livro, segue a imagem com informações. Lembrando que a disponibilidade é somente na cidade de Fortaleza, Ceará. 


O livro foi lançado no dia 14 de setembro de 2018, no auditório da FIEC aqui de Fortaleza, com a presença dos colaboradores da obra, das famílias e de profissionais que trabalham na prevenção do suicídio. Foi um momento muito especial, pois participar da construção dessa obra foi uma honra muito grande, e não foi fácil escrever a quantidade de capítulos que escrevemos dentro de um prazo tão apertado. Como um livro é fruto de um projeto de extensão da Universidade Federal do Ceará, sua edição é bem limitada, mas é uma obra indispensável para quem trabalha em saúde mental e muito útil para qualquer outra pessoa que se disponha a querer conhecer e entender melhor essa problemática.  


quarta-feira, 13 de junho de 2018

7 MITOS DA HIPNOSE

Olá a todos! Hoje gostaria de esclarecer os mitos mais comuns a respeito da hipnose. Para quem não leu ainda tem outro artigo meu explicando bem o que é a hipnose, para ler basta clicar aqui


1-Vou ser dominado pelo hipnotizador:


Eu sempre costumo dizer que hipnose não é uma batalha de mentes, não é a vontade do hipnotizador vencendo a vontade da pessoa que é hipnotizada. Pelo contrário, hipnose é uma parceria, é uma troca. Ninguém é dominado ou hipnotizado contra sua vontade, isso não existe. Quando alguém entra em transe é porque quer, porque sabe que poderá tirar benefícios dali (no caso da hipnose clínica) ou brincar e se divertir com as capacidades da sua mente (hipnose de palco ou de rua).  


2-Se a pessoa que me hipnotizar morrer ou for embora ficarei assim para sempre:


Essa eu já ouvi muito. Frases assim "E se a você morrer depois de me hipnotizar? Vou ficar assim pra sempre? Nunca vão conseguir me acordar?" ou "E se a pessoa me hipnotizar, precisar sair e não voltar mais?". Pensamentos assim refletem uma grande insegurança por parte do sujeito que ainda não compreende a hipnose. Por ser um processo natural e fisiológico, em qualquer uma dessas situações acima o que acontece com a pessoa hipnotizada é simples, ou ela abre os olhos e sai do transe espontaneamente ou entra em sono fisiológico, aquele soninho que a gente tira quando relaxa bastante. Não há perigo nem possibilidade da pessoa ficar presa no transe.

3-Não posso ser hipnotizado porque não sou suscetível:

Existe uma ideia de que nem todo mundo pode ser hipnotizado ou que só pessoas de mente "fraca" são hipnotizáveis. Isto não é verdade. Qualquer um pode ser hipnotizado, exceto talvez pessoas com algum transtorno mental severo, como esquizofrenia, psicose. Isto porque hipnose é um processo natural, ocorre com todos nós, o tempo todo, no decorrer da vida. O que acontece é que algumas pessoas entram com mais rapidez e facilidade do que outras, mas isso é normal, assim como um remédio não tem o mesmo efeito em pessoas diferente. Cada organismo é único.

4-A hipnose é causada pelo poder do hipnotizador:

Como as pessoas estão acostumadas a ver show de hipnose de palco elas acreditam que o hipnotizador possui um grande poder e que é capaz de fazer qualquer coisa com aquele voluntário. O que acontece na verdade é que o hipnotizador, seja ele de palco ou de clínica, tem o conhecimento necessário para por o seu voluntário/ paciente em transe e conduzir bem esse processo. O voluntário/ paciente por sua vez, tem o desejo de entrar em transe, de vivenciar aquilo (pelo menos na grande maioria das vezes, até porque ninguém sobe num palco na frente de dezenas de pessoas sem ter vontade). Então a hipnose é uma troca rica de experiências entre ambos, o hipnotizador apenas conduz o voluntário /paciente, para um transe agradável. Se ele não quiser ele não entra em transe, a hipnose nunca acontece sem a vontade da pessoa.

5-Quando a pessoa entre em transe ela fica inconsciente:

Um dos grande mitos da hipnose e até compreensível, uma vez que todos veem aquela pessoas "apagada" ou "dormindo", quando na verdade ela está mais acordada do que esteve em toda sua vida. Quando a pessoa está em transe, hipnotizada, ela ouve tudo ao seu redor, ela está plenamente consciente de tudo, apenas não se importa com o externo, pois está experienciando algo muito prazeroso no interno. Somente em alguns casos, a pessoa é tão sensível que ela pode desenvolver um fenômeno chamado de "amnésia hipnótica", onde ela sai do transe e não lembra de nada. Por isso que, dependendo do contexto, hipnotizadores experientes dão um comando para que quando sair do transe a pessoa lembre de tudo. Problema resolvido. 

6-A hipnose realiza milagres:

Alguns dos fenômenos que a pessoa hipnotizada consegue realizar são impressionantes aos olhos de quem vê, principalmente se for um leigo. Não há nada de sobrenatural nesses fenômenos, todos são realizáveis por qualquer um em transe, desde que conduzido por um hipnotizador experiente e explicáveis cientificamente. Não há milagres, mas um trabalho em conjunto do hipnotizado com o seu hipnotizado. 

7-Quando a pessoa é hipnotizada ela pode revelar seus segredos íntimos:

Outra grande preocupação que ronda as pessoas é se quando hipnotizadas ela podem revelar segredos importantes. Essa ideia vem do fato de acharem que o hipnotizador "entra" na mente do outro. Isso é fantasia demais! A mente inconsciente não aceita nada que seja contra seus preceitos morais, então o sujeito que está hipnotizado não vai fazer ou falar nada que não queira. 


sábado, 26 de maio de 2018

O QUE É O TRANSTORNO BIPOLAR?

Ouço muitas pessoas no dia a dia se referindo a outras como "fulano é bipolar, uma hora faz uma coisa, outra hora faz outra" e comentários similares para tentar caracterizar o comportamento de alguém num quadro patológico. Hoje falaremos sobre o que realmente é o Transtorno Bipolar e como ele se manifesta. 


PARA ENTENDER O TRANSTORNO BIPOLAR

Quando as pessoas ouvem o termo "bipolar", o cérebro rapidamente associa a palavra a sua etimologia, ou seja, a algo que tem dois polos, duas manifestações diferentes e não está errado, contudo o transtorno mental é bem diferente dessas mudanças bruscas de comportamento. Para entender melhor vou explicar as principais características do Transtorno Afetivo Bipolar.

Uma das principais características do Transtorno Bipolar é a Mania. Quando a pessoa está nesse estado ela tem um comportamento expansivo, quer comprar tudo, quer fazer muito sexo, fala demais, trabalha demais, é inquieta, explosiva, irritável, a autoestima fica inflada (eu posso tudo, eu consigo tudo), as pessoas não conseguem acompanhar seu raciocínio e o próprio indivíduo não consegue pensar direito em certas ocasiões devido ao fluxo rápido do pensamento. Consequentemente, se o cérebro está funcionando acelerado assim, a pessoa dorme pouco, descansa pouco, e insônia acaba sendo outro sintoma. Esse estado não muda rapidamente, pode durar dias, semanas, por isso nada tem a ver com as observações do senso comum que as pessoas fazem. A mudança desse estado também não está ligada a nenhum fator externo, ou seja, a mudança é neuroquímica, ocorre no cérebro.

Outro ponto muito importante é que, em geral, pessoas que são diagnosticadas com TB(Transtorno Bipolar), fazem uso abusivo de drogas lícitas ou ilícitas, sendo as mais comuns o álcool, cigarro, maconha e cocaína. É muito comum essas pessoas já terem um hábito de usar essas substâncias muito antes de ter um diagnóstico clínico do problema. Lembro de alguns pacientes que usavam a maconha e o álcool para "relaxarem", ou seja, uma forma equivocada de aliviar os sintomas da mania, já que são drogas que deprimem o sistema nervoso central (reduzem sua atividade). 

No outro extremo está a depressão. Quando ocorre a mudança de fase, a pessoa sai daquele estado acelerado, inflado para um estado onde fica com a energia reduzida, sem força ou vontade para realizar suas atividades, com presença de um sentimento de tristeza e vazio. Mas nem sempre a mudança ocorre assim, de um polo para outro, muitas vezes a pessoa consegue ficar num estado de eutimia, ou seja, um humor "normal", onde os sintomas do TB não ocorrem com intensidade e não prejudicam as funções psíquicas e sociais.

AS CAUSAS

Apesar dos avanços científicos ainda é um terreno obscuro falar de causas específicas dos transtornos mentais. Sabe-se, entretanto, que existem vários fatores envolvidos. Dentre os transtornos mentais o TB é um dos mais influenciados por fatores genéticos. Estudos mostraram que se um dos pais tiver Transtorno Bipolar ou algum Transtorno Depressivo, existe de 10% a 25% de chances que o filho desenvolva o TB. Assim como existem fatores relacionados a alterações dos neurotrasmissores, alterações metabólicas e anatômicas do cérebro. Fatores psicossociais também tem relevância, quando eventos significativos na vida daquele indivíduo (como luto, problemas familiares, maus tratos na infância, relações interpessoais, mudanças drásticas no trabalho, etc). 

O DIAGNÓSTICO

Depois de ler esse texto é possível que alguns comecem a se autodiagnosticar ou a atribuir o TB a algum conhecido, parente, etc. Por favor não façam isso. Aqui eu tento explicar o que é esse transtorno com muitas simplificações, quando na verdade é uma patologia extremamente complexa e amplamente estudada. Só quem pode fazer o diagnóstico é um profissional médico qualificado. Psicólogos podem detectar, mas por Lei não podem fazer o diagnóstico. Se você acha que algum conhecido ou parente, ou mesmo você pode ter esse transtorno, busque um profissional qualificado. 

RISCO DE SUICÍDIO

O risco de suicídio em pessoas com TB é comum, uma vez que é um transtorno que gera vários prejuízos para o funcionamento do indivíduo, tanto pessoal quanto social, além de que é possível que a pessoa que tem TB desenvolva outros transtornos. A pessoa pode ter TB e transtorno de ansiedade, por exemplo. E quanto mais sofrimento mais potencializa o surgimento de pensamentos e atos suicidas. Sabemos, através dos estudos que o risco de suicídio de quem tem TB é de 20 a 30 vezes maior quando comparado a pessoas que não tem essa psicopatologia. Em torno de 60% dos pacientes apresentam ideação suicida, em geral aqueles que demoraram muito a buscar tratamento, tem comprometimento nas funções laborais, sociais, familiares, tem outros transtornos associados (como dependência química, ansiedade, por exemplo). Aproximadamente 15% dessas pessoas cometem suicídio, o que é um número muito expressivo. 

O risco de suicídio é muito alto quando o transtorno não é tratado ou é tratado de forma inadequada ou o paciente resiste ao tratamento. Ainda existem outras questões associadas como apoio familiar, trabalho, doenças crônicas. Quando o tratamento é bem executado e quando o paciente se engaja o risco de suicídio é muito baixo. 

TRATAMENTO

O tratamento do TB é feito com acompanhamento psiquiátrico, onde o médico psiquiatra irá prescrever medicações para aliviar e controlar os sintomas seja da fase maníaca ou depressiva. É fundamental que o paciente siga a risca e tome adequadamente os medicamentos prescritos. Aliado a isso existe o tratamento psicológico, onde esse profissional vai trabalhar os fatores comportamentais e interpessoais daquele paciente, ensinando a lidar com os sintomas, a modificar  hábitos disfuncionais e encontrar respostas melhores para situações limite. Somando-se a isso é importante que a família seja esclarecida e de também o suporte necessário ao paciente. Quando todos fazem a sua parte o prognóstico é animado e aquele indivíduo pode ter uma vida normal, fazendo aquilo que gosta. Importante também dizer que o TB não tem cura e que o tratamento é permanente. Muitos pacientes melhoram depois de um ou dois meses de tratamento e param, o que potencializa o reaparecimento dos sintomas e de novas crises. 


REFERÊNCIAS:

Souza, Fábio GM. (Org.). Você tem transtorno bipolar? Fortaleza: Premius, 2017.

American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais DSM-5. Porto Alegre: Artmed;2014.

Souza FGM. Tratamento do transtorno bipolar   - Eutimia. Rev Psiquiatr. Clín. 2005;32 (Suppl.10):63-70.

Lex C, Bazner E, Meyer TD. Does stress play a significant role in bipolar disorder? A meta-analysis. J Affect Disord. 2017;208 (August 2016): 298-308.

Berutti M, Dias RS, Pereira VA, Lafer B, Nery FG. Association between history of suicide attempts and family functioning in bipolar disorder. Journal of Affective Disorders. 2016;192:28-33.

Nery-Fernandes F, Miranda-Scippa AMA. Comportamento suicida no transtorno afetivo bipolar e características sociodemográficas, clínicas e neuroanatômicas associadas. Rev. Psiquiatr. Clín. 2013 [cited 2017 Feb 02] ; 40 (6):220-224.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

QUAIS OS BENEFÍCIOS DA PSICOTERAPIA


Quando se pensa em ir ao psicólogo, nem sempre a pessoa se questiona quais os benefícios podem advir da psicoterapia, uma vez que na maioria dos casos aquele indivíduo está interessado em resolver a queixa que o motivou a buscar o atendimento. Vamos falar um pouco sobre isso no texto de hoje.


RESOLVENDO A QUEIXA

Chamamos de queixa principal o motivo pelo qual alguém busca um psicólogo, é justamente o problema, questão, conflito que está causando um funcionamento mal adaptado daquela pessoa, gerando sofrimento e comportamentos disfuncionais. Muitas vezes queixa que o paciente traz não é o a questão principal, mas sim um sintoma ou uma consequência de alguma outra coisa que nem sempre ele percebe como algo nocivo. Durante o processo da terapia isso pode mudar, o foco do tratamento muda, as questões a serem trabalhadas mudam. O objetivo final da psicoterapia é a mudança, visto que não importa como ela ocorra, é necessária para restabelecer o equilíbrio e bom funcionamento do indivíduo. 

Daí o tipo de psicoterapia, abordagem psicológica (psicanálise, humanismo, análise do comportamento, etc) não importa muito, sendo mais necessário estabelecer uma boa aliança terapêutica, ou seja, o paciente estabelecer um link de confiança e se sentir confortável com o psicólogo com o qual está fazendo terapia.  É preciso saber que o psicólogo não dispõe de métodos coercitivos, não é seu papel mudar o paciente nem convence-lo de nada, mas sim mostrar novas possibilidades para resolução dos seus conflitos e dificuldades adaptativas, ficando a critério do paciente seguir ou não essas orientações. Nem sempre as pessoas querem mudar, sair da zona de conforto, mesmo que ela esteja causando algum tipo de sofrimento, é como uma preguiça emocional. 


ABERTURA PARA A MUDANÇA


Quando o paciente decide mudar, mobiliza suas energias e vontade para tentar novas estratégias de enfrentamento dos seus problemas com a ajuda do psicólogo, muita coisa acontece. O bom psicólogo ele incentiva não apenas mudanças pontuais, mas globais, pois não é apenas a solução de uma queixa na vida daquela pessoas, mas a reestruturação da vida dela como um todo, com objetivos mais bem estabelecidos e com foco em práticas saudáveis. O psicólogo pode estimular o paciente a lidar com vários comportamentos e hábitos que não são saudáveis e motivá-lo a mudar isso, como por exemplo tabagismo, má alimentação, sedentarismo, visto que mente e corpo são reflexos constantes um do outro. Nossa mente precisa estar bem para o corpo estar bem e vice versa, até porque quem controla nosso corpo é o cérebro e a forma como nosso cérebro funciona é muito particular.

Nosso cérebro funciona, basicamente, em relação a como pensamentos, em cima dos valores e imagens que criamos para nós. Por isso um pessimista tem comportamentos pessimistas (explicando a grosso modo, claro), porque o comportamento dele é reflexo da imagem mental que cria de si. Então, quando o psicólogo durante a psicoterapia passa a estimular o desenvolvimento de hábitos saudáveis ele está motivando o paciente a mudar essas imagens mentais e consequentemente buscar uma mudança mais estrutural dos seus comportamentos, de modo a ter hábitos e práticas mais salutares.

Podemos então dizer que uma psicoterapia bem feita, com um profissional capacitado, ético e com um paciente que se permite a mudança, pode gerar muitos benefícios não só na resolução do conflito que o trouxe para o consultório, mas de uma mudança global que vai permitir um funcionamento mais saudável desse indivíduo. Daí a psicoterapia ser um processo de grandes transformações para o indivíduo, na medida que esse indivíduo está aberto a ela e disposto a investir mais em si mesmo e no seu bem estar. 



terça-feira, 10 de abril de 2018

PORQUE UMA PESSOA RECUSA TRATAMENTO PSICOLÓGICO?

Hoje resolvi escrever um texto menos técnico, apenas desenvolvendo meu pensamento e reflexão acerca de pessoas que não buscam ajuda. A pergunta que vou buscar responder é: "Porque algumas pessoas que estão com problemas recusam o tratamento?". 

Nossa sociedade descende de um modelo baseado no patriarcado, onde o homem comendava e tinha que ter pulso forte. O homem mandava na casa, na mulher, nos filhos. Basicamente, por ser o pilar dessa estrutura familiar, ele deveria mostrar força, decisão, indiferença ao sofrimento. Muitos desses homem acabavam se dessensibilizando, ou seja, assumindo comportamentos e pensamentos onde o contato com os sentimentos, com a dor, ia ficando cada vez mais distante. Não que eles não sofressem ou não sentissem, mas não era algo, que para a grande maioria, tivesse algumas influência. Daí a ideia de homem ser forte e mulher ser fraca. Homem não chora, mulher chora, chorar é sinal de fraqueza. Pura baboseira medieval. 

Então esse tipo de pensamento vai sendo propagado pela cultura, mas como a sociedade vai evoluindo, ao seu passo, a tendência é romper com esse padrão de comportamento. Logo, um dos motivos que leva as pessoas a não quererem ajuda, é cultural, e acomete principalmente homens. Isso se reflete na prática clínica; 75% dos meus pacientes são mulheres.

O homem sofre tanto quanto a mulher, algumas vezes até mais por conta dessa herança de que precisa ser forte, de que não chora, não sofre, não sente. E aí isso se reverte em depressão, ansiedade e alguns caso, suicídio. Reprimir sentimentos negativos durante muito tempo gera consequências não só emocionais mas no comportamento do indivíduo. É bem comum na prática clínica encontrar pessoas que precisam de ajuda, que tem sofrem por algum comportamento ou situação que não conseguem lidar, mas ou não querem ir atrás de um profissional para auxiliar nesse processo, ou quando a família entra em contato com o profissional (geralmente médico ou psicólogo), o indivíduo recusa o atendimento ou não adere ao tratamento.

Mas porque alguém que precisa de cuidados negaria esses cuidados a si mesmo? Essa é uma questão curiosa. Já vi pacientes morrerem porque negavam cuidados médicos ou adesão ao tratamento. Em psicologia, essa morte ocorre por suicídio, quando não há sucesso no tratamento. Não há uma resposta única e simples para essa pergunta, o porque do paciente recusar atendimento/tratamento, mas posso pensar em alguns fatores:

- Falta de apoio familiar;
- Conflitos psicológicos intensos;
- Falta de confiança no profissional que está prestando o atendimento;
- Medo;
- Psicose;
- Tentativas prévias de suicídio;
- Sentimento exagerado de autosuficiência.

É necessário, em alguns casos, respeitar a decisão e a vontade daquele paciente, se ele está plenamente consciente dela. Não é possível tratar alguém que não quer ser tratado. Esse exemplo é bem comum na Dependência Química, quando todos ao redor percebem que o indivíduo precisa de acompanhamento mas ele recusa e resiste. Quando o paciente está num estado psicótico, fora de si, seja por conta de um problema mentais ou físicos (sim, algumas patologias físicas podem deixar o paciente psicótico), ele não tem condições de decidir sobre si mesmo, pode até por sua integridade e de terceiros em risco, neste caso, pode ser tratado sem o prévio consentimento até restabelecer a consciência de si.

É preciso ter paciência, deixar tudo claro para o paciente, assim como é fundamental que a família esteja sempre perto, estimulando, mas não pressionando o paciente para que aceite o tratamento. A família tem que ser facilitadora e não se transformar em um estímulo aversivo para o paciente.