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terça-feira, 2 de agosto de 2016

O QUE É DEPRESSÃO PÓS-PARTO

Existem muitos mitos e desinformação aceca da depressão pós parto, uma condição que afeta muitas mulheres e que é muitas vezes mal diagnosticada, o tratamento nem sempre é o correto e há riscos para a mãe e para o bebê. Falaremos um pouco disso no artigo de hoje.


O QUE É A DEPRESSÃO PÓS PARTO?

A gravidez é um processo natural, bastante desejado por algumas mulheres que tem o desejo de ser mãe, mas que pode gerar muitas fantasias, medo e angústias, mesmo a mulher tendo todo suporte do seu companheiro e da família. Questionamentos como "será que vou dar conta?", "vou ser uma boa mãe?" podem criar no imaginário dessa mãe uma cacofonia de pensamentos desencadeando ansiedade e enfraquecendo sua auto confiança. 

A depressão pós-parto ou DPP é um problema de saúde pública e ocorre, em geral,  nas primeiras quatro semanas após o parto, podendo se estender e atingir o ápice alguns meses depois. Os sintomas mais comuns apresentados por essas mulheres são desânimo, sentimentos de culpa, alterações do sono, ideias suicidas, medo/desejo de machucar o filho, alteração do apetite e diminuição da libido. Saber diferenciar sintomas depressivos e “sequelas normais” de dar à luz, como as alterações no peso,
sono e energia é um desafio que torna mais complicado ainda o diagnóstico clínico. 

Segundo Ruschi, Sun, Mattar, Filho, Zandonade, Lima: 
"... menos de 25% das puérperas acometidas têm acesso ao tratamento, e somente 50% dos casos de
depressão pós-parto são diagnosticados na clínica diária." 

Significa dizer que ainda existe um contingente de mulheres que não se tratam, por diversos motivos, desde falhas na rede de encaminhamento até carência de locais com atendimento especializado, assim como existe uma dificuldade em diagnosticar o problema por parte dos profissionais de saúde. 

Alguns fatores psicossociais são associados a DPP, tais como baixa escolaridade, baixo nível econômico, baixo suporte social, histórico de transtorno psiquiátrico, baixa auto estima, stress, abuso de drogas, ansiedade pré-natal, gravidez não planejada, tentativa de interromper a gravidez, sentimentos negativos em relação à criança. Não significa que toda mulher que tenha DPP apresente todos esses fatores, mas que eles podem favorecer o surgimento da DPP. Mesmo assim, é possível uma puérpera com apenas um ou dois fatores de risco desenvolver DPP. 

Estudos epidemiológicos demonstram que a prevalência da DPP na população geral é de 10% a 20%, e em mães adolescentes adolescentes dos 14 aos 18 anos de idade essa taxa sobe para 26% (Troutman & Cutrona, 1990).

"A relação entre o período do pós-parto e as perturbações psiquiátricas foi reconhecida há cerca de 2000 anos atrás. Curiosamente, a primeira descrição de um caso de perturbação mental no pós-parto foi feita no século XVI por um médico Português, João Rodrigues de Castelo Branco, que na altura exercia em Roma ('de uma mulher que ao dar à luz se tornava melancólica e louca’) (Brockington, 1996, p.166)"

Existe ainda a psicose puerperal, que é quando a paciente apresenta sintomas de alucinações, delírios e perda de insight, rápidas oscilações do humor que podem incluir alternância entre humor deprimido e elevado ou irritabilidade, insonia ou pensamentos obsessivos. Estima-se que mais de 5% das mulheres possam cometer suicídio e que 2-4% representam um risco direto considerável para os seus
bebés (Knopps, 1993). Estudos têm mostrado que a maioria das mulheres com Psicose Puerperal
preenche os critérios para perturbação bipolar (Kendell et al., 1987; Kumar et al., 1995).

O parto é um dos fatores preponderantes no desencadeamento dos episódios bipolares, em mulheres vulneráveis (Brockington, 1996). Muitos estudos revelam que aproximadamente 65% destas irão sofrer episódios psicóticos subsequentes não puerperais (Benvenuti et al., 1992). Cerca de dois terços irão ter recaídas em gravidezes futuras. Contudo, comparativamente às mulheres que têm episódios de psicose não puerperal, as que sofrem de PP têm uma menor probabilidade de serem readmitidas em hospitais psiquiátricos e quando readmitidas a duração do internamento é menor (Platz & Kendell, 1988), sugerindo um melhor prognóstico. A PP costuma remitir após algumas semanas de tratamento.

Uma mulher com depressão pós parto ou psicose puerperal está sujeita a diversos riscos, dos quais podemos destacar suicídio, auto agressão, agressão ao bebê, dificuldade em cuidar da criança e de si mesma, incapacidade para voltar as atividades cotidianas. Desta forma é de suma importância que essa paciente esteja sempre acompanhada por alguém da família que possa dar suporte, jamais deixando-a sozinha.

O risco de suicídio é um dos maiores problemas deste quadro, portanto as orientações acerca de pacientes potencialmente suicidas se aplicam aqui, mesmo que não haja nenhum indício ou manifestação de comportamento suicida. Evitar que a pessoa tenha acesso fácil a cordas, instrumentos perfuro-cortantes, medicamentos, venenos e substâncias químicas, janelas abertas. Existem muitos casos relatados de suicídio de puérperas que não deram sinais da ideação e cometeram o ato por impulso, desta forma é preciso estar sempre atento e ter cuidado redobrado com estas pacientes.

TRATAMENTO E PROGNÓSTICO

O tratamento é feito através de medicação prescrita pelo psiquiatra e psicoterapia realizada por um psicólogo. O psicólogo irá tirar as dúvidas dos familiares, fornecer as orientações necessárias à família e ajudar a paciente a suportar esse período tão difícil. Já a medicação tem papel de amenizar os sintomas, auxiliar no controle da ansiedade, da angústia, da falta de sono e apetite, da apatia e/ou da agitação. Quando bem diagnosticado e tratado da forma correta o prognóstico é muito bom, no caso da DPP, em geral alguns meses após o início do tratamento a paciente começa a ter uma remissão dos sintomas. Com relação a Psicose Puerperal isso varia muito, depende muito de cada caso. É fundamental que a paciente seja sempre assistida pelos profissionais.

Temos que ter em mente que a mulher não escolhe estar assim, de forma alguma, é uma ignorância tremenda pessoas que culpam a paciente pelo seu estado. Existem fatores biológicos e psicossociais ligados a esse quadro, então é preciso que haja um entendimento de que é uma doença e que precisa ser tratada. Falo isso porque muitas pessoas não buscam o tratamento, acham que é besteira ou que imaginam "isso vai passar". Se essas pessoas falassem com um profissional e fossem devidamente diagnosticadas precocemente poderia se evitar muitas fatalidades.




Referências:

MORAESA, Inácia Gomes da Silva. PINHEIRO, Ricardo Tavares. SILVA, Ricardo Azevedo da. HORTA, Bernardo Lessa. SOUSA, Paulo Luis Rosa. FARIA, Augusto Duarte. Prevalência da depressão pós-parto e fatores associados. Rev Saúde Pública, 2006;40(1):65-70. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rsp/v40n1/27117.pdf/> Acesso em: 02/08/2016.



RUSCHI, Gustavo Enrico Cabral. SUN, Sue Yazaki. MATTAR, Rosiane. FILHO, Antônio C. ZANDONADE, Eliana. LIMA, Valmir José de.  Aspectos epidemiológicos da depressão pós parto
em amostra brasileira. Rev Psiq 03. 2004.  Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/rprs/v29n3/v29n3a06> . Acesso em: 02/08/2016.


MAIA, Berta Maria Marinho Rodrigues. Perfeccionismo e depressão pós-parto. Tese de Doutoramento. Faculdade de Medicina de Coimbra, Portugal, 2011. Disponível em: <https://eg.sib.uc.pt/bitstream/10316/18179/1/Tese%20doutoramento_Berta%20Rodrigues%20Maia_pdf.pdf>. Acesso em: 02/08/2016.

BALONE, G. Depressão Pós-parto. Disponível em: <http://www.cemp.com.br/textos.php?id=40>. Acesso em: 02/08/2016.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

SITUAÇÕES EXTREMAS: ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

O que ocorre conosco quando somos submetidos a situações inesperadas, a algo que nos leva ao limite emocional, que eleva ao máximo os níveis de alerta do cérebro e desafia toda experiência negativa pela qual já passamos antes? Nesse artigo, vou falar para vocês o que é e como ocorre o Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

É sabido que as emoções influem no funcionamento do corpo, não apenas na saúde, mas também na doença, podem ser emoções agradáveis ou desagradáveis e desempenham um papel não apenas fisiológico como também motivacional. São as emoções que nos impulsionam para a realização de nossas atividades diárias, das nossas metas, dos nossos sonhos, embora também se tornem obstáculos quando se fala de medo, insegurança e ansiedade. A emoção é sentida pela pessoa ao mesmo tempo em que o corpo responde fisiologicamente, ativando áreas específicas do cérebro e liberando diferentes substâncias na nossa corrente sanguínea. 

Segundo Ballone: 

"Dentro das emoções negativas, uma das reações emocionais que mais se tem estudado é, sem dúvida, a ansiedade. Este é um estado emocional reconhecidamente associado a múltiplos transtornos. Uma segunda emoção negativa que está sendo muito estudada é a raiva, por sua estreita relação com os transtornos cardiovasculares. Finalmente, a tristeza e sua representação psicopatológica, a Depressão, até pelo fato desta se acompanhar, em geral, de altos níveis de ansiedade."

Assim, cada emoção desencadeia reações diferentes em nosso corpo, fisiológicas e comportamentais, de acordo com a situação vivenciada pelo sujeito. A questão desse artigo é: e quando é um evento traumático, que consequências ele terá sobre a pessoa?


O QUE É O TRAUMA?

A palavra "trauma", do ponto de vista semântico, vem do grego trauma (plural: traumatos, traumas), cujo significado é “ferida”. A terminologia trauma em medicina admite vários significados, todos eles ligados a acontecimentos não previstos e indesejáveis que, de forma mais ou menos violenta, atingem indivíduos neles envolvidos, produzindo-lhes alguma forma de lesão ou dano. 

Conforme o dicionário da infopedia, trauma, tem seu conceito psicológico:
"Acontecimento emocionalmente doloroso que torna o sujeito particularmente sensível em situações similares"

O trauma psicológico é algo particular para cada indivíduo. A vida nos trás inúmeros prejuízos durante o curso de nossa existência, cada situação é vivida de uma forma diferente por nós com base em como aprendemos a lidar com nossos problemas e situações estressoras. Desta forma o que pode ser algo extremamente para uma pessoa para outra pode ser uma situação ruim facilmente superável. 


AS GUERRAS E OS ESTUDOS EM PSICOLOGIA

O período das guerras, principalmente a Primeira e a Segunda Grande Guerra Mundial foram importantes para o desenvolvimento de vários estudos na área da psicologia, psiquiatria e medicina. Os psicólogos começaram a analisar como poderia alocar melhor aqueles homens o que fez nascer o que no futuro seria chamado de Orientação Vocacional. Contudo o que nos interessa nesse período é saber dos estudos conduzidos com os combatentes que retornavam do campo de batalha. Fosse com o sem traumas físicos (amputações, incapacitações físicas) estava claro que havia algo de errado com a mente daqueles homens. Muitos acordavam a noite gritando, se escondiam embaixo de suas camas, saíam gritando no meio do almoço como se estivessem sendo perseguidos. A guerra havia destroçado suas mentes. 


O trauma mental ocasionado por viver em constante situação de estresse, medo, angústia deixou marcas permanentes no psicológico desses soldados, muitos nunca mais tiveram uma vida normal. Psiquiatras e Psicólogos que estudavam essas reações perceberam um padrão: angustia, medo, ansiedade, em alguns casos até mesmo alucinações estavam presentes. Alguns apresentavam tremores incessantes, tiques, mutismos e outros sintomas difusos. Um conhecido caso extremo disso é o chamado Shell Shock (algo como choque na casca), resultado do nível altíssimo que o soldado era submetido e que seu emocional não suportava desencadeando uma espécie de somatização, ou seja, o emocional transbordando para o corpo físico. Segue um vídeo sobre o shell shock:



Muito embora a ideia do Transtorno do Estresse Pós-Traumático tenha sido um conceito desenvolvido a partir de 1980, nas classificações internacionais (CID.10 e DSM.IV), que permitiu unificar uma série de categorias de transtornos emocionais reativos a acontecimentos traumáticos anteriormente dispersos na classificação psiquiátrica.


O TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

Esse quadro é característico principalmente devido a um fator externo que desencadeia o trauma, um fator estressante que leva o sujeito além do seu limite de suportar algo aversivo o que o leva a um quadro complexo e cuja a evolução pode ser rápida e danosa se não diagnosticada e tratada. 

Segundo Ballone e Moura:
"a influência da severidade das agressões no risco de desenvolver o Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Dab (1987) assinala que a gravidade das seqüelas físicas é proporcional à importância do dano físico e que 80% dos feridos graves desenvolvem um Transtorno do Estresse Pós-Traumático. A comorbilidade do Transtorno do Estresse Pós-Traumático com Transtorno Depressivo também é maior nessas pessoas, sobretudo quando se compara a incidência de 21,8% de depressão nos sujeitos severamente feridos, que corresponde a 2,6 vezes mais que nas pessoas feridos levemente ou não feridos (Bouthillon, 1992)."


Significa dizer que quando maior e mais severa a agressão ou dano físico sofrido pelo sujeito, estatisticamente falando, mais a probabilidade de desenvolver o transtorno e não apenas isso, ocorrer também outros transtornos em concomitante como transtorno depressivo e mesmo transtorno de ansiedade generalizada. 


O leitor deve estar se perguntando se só combatentes de guerras sofrem com esse tipo de transtorno e a resposta é não. Vítimas de acidente, tortura, agressões, perseguições, sequestros, incêndios, atentados podem desenvolver o transtorno de estresse pós-traumático.




Algumas manifestações do transtorno são:

1. Atitude psíquica de reviver o trauma, através de sonhos e de pensamentos durante a vigília; 
2. Comportamento de evitação persistente de qualquer coisa que lembre o trauma e embotamento da resposta a esses indicadores; 
3. Estado afetivo hiperexitado persistentemente. 
4. Sentimento de tristeza, ansiedade, culpa, medo, raiva podem estar presentes.
5. Alucinações, delírios ou paranóia podem estar presentes.

Além disso algumas profissões sofrem mais com esse transtorno, profissões onde o nível de estresse e alerta do sujeito são constantes. Acertou quem pensou "policial", mas também, bombeiros, seguranças, pessoas que lidam com valores altos ou que estão sujeitas a violência.


UM CASO DE TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

Eu atendi um caso deste tipo em que um jovem adolescente com menos de 15 anos brincava com o melhor amigo manuseando a espingarda "cartucheira" do avô, uma arma rudimentar e instável. Eles miraram para um lugar seguro e apertaram o gatilho. Como não houve disparo acreditaram que a arma estaria descarregada e continuaram brincando com ela. Quando o jovem mirou na cabeça do outro, ele nem precisou tocar no gatilho, a arma disparou acidentalmente atingindo a cabeça do melhor amigo que caiu banhado em sangue e morto. O jovem foi encaminhado para tratamento comigo. Passou a ser introspectivo, isolou-se socialmente, apresentava melancolia frequente, seu rendimento escolar caiu e passou dois meses sem ir a escola. 

Aquele jovem se culpava constantemente pela morte do amigo, que era quase como um irmão de criação, e revivia a cena do disparo em sua mente o tempo todo. Desenvolveu sentimentos de menos valia, ou seja, passou a não se valorizar enquanto se culpava cada vez mais. Entretanto, devido ao início precoce do tratamento foi possível reverter esse quadro após 1 ano de psicoterapia, impedindo que o adolescente entrasse em depressão ou algum quadro ansioso. Minha experiência com esse jovem foi enriquecedora pois fui capaz de ajudá-lo a reestabelecer contato consigo mesmo e com a comunidade ao qual ele se isolara. Retornou a escola, suas notas melhoraram, recuperou a autonomia de si, ganhou confiança e aprendeu com a experiência negativa que viveu, nunca mais querendo contato com armas de fogo e sabendo respeitá-las. Hoje ele vive bem e não desenvolveu nenhum tipo de transtorno, tendo saído do quadro de transtorno de estresse pós-traumático e recebido alta.


Uma coisa é certa, ele nunca esquecerá o que aconteceu, mas foi capaz de superar esse evento traumático de uma forma positiva a partir do tratamento. Detalhe é que não foi necessário o uso de qualquer medicação. No caso dele apenas a psicoterapia foi capaz de lhe devolver o equilíbrio emocional necessário para continuar sua vida.

Para finalizar, as maiores vítimas desse tipo de transtorno hoje são as pessoas que vivenciam a violência urbana, acidentes de todo tipo e tortura. Procure um psicólogo para superar esses traumas antes que eles evoluam para outras psicopatologias.



Referências:

trauma In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-08-29]. Disponível em
URL:http://www.infopedia.pt/lingua-ortuguesa/trauma;jsessionid=sTQYK6pUiHJxzyCyoAFVEA__>.

http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=01

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516
44462003000500014&lng=pt&nrm=iso

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=25

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=69