Mostrando postagens com marcador infantil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador infantil. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 10 de março de 2016

MEU FILHO NÃO ME OBEDECE, O QUE EU FAÇO?

O título desse post refere uma pergunta constante que me fazem no consultório, algo que perpassa a grande maioria dos pais na atualidade, que não sabem como reagir ou reagem de formas ineficientes com seus filhos que apresentam comportamentos "inapropriados".

A primeira coisa que os pais tem que entender é que a criança é um ser em desenvolvimento que absorve e reproduz os comportamentos ou situações que vivencia. Um exemplo prático é que se você fala palavrão em casa, o pequeno naturalmente vai falar esse palavrão em algum momento, porque a imitação/reprodução faz parte do aprendizado.. Os pais parecem esquecer que uma criança não tem a mesma maturidade emocional e intelectual que um adulto, e por isso deve ser orientada constantemente sobre o que é certo e o que é errado. Daí chegamos no problema do nosso modo de vida moderno onde as funções de educação e orientação, em geral, são transferidos para terceiros: escola, babá, avós. Os pais tem que trabalhar, afinal criar um filho gera muita despesa, e o ritmo de trabalho diminui o tempo de contato com os filhos. Esse distanciamento gera uma série de sentimentos conflitantes na criança, que geralmente exibe o que os analistas do comportamento chamam de variabilidade comportamental, uma expressão de atitudes diferentes. É o que as pessoas definem como criança inquieta, travessa. Na grande maioria das vezes o mau comportamento de uma criança é reflexo de um ambiente no qual algo está faltando para aquela criança, seja educação, limites ou atenção dos pais.


O QUE FAZER QUANDO MEU FILHO NÃO OBEDECE?

Não existe uma cartilha ou conjunto de regras para lidar com isso, porque as situações são as mais variadas possíveis, embora a queixa seja semelhante, a de que seu filho não te respeita e desobedece você. O que vou falar a seguir são algumas orientações, atitudes simples que podem melhorar muito essa relação.


  • Estabeleça mais contato com seu filho, olhe sempre nos olhos dele quando falar algo importante, fale próximo dele, diminua a distância. 
  • Nunca ponha seu filho de castigo sem motivo e sempre deixe claro quando ele fizer algo indevido.
  • Tenha regras na casa. Crianças precisam se acostumar com regras, portante é interessante que elas tenham horário para tomar banho, dormir, estudar, comer.
  • Evite contradizer suas próprias regras. Ser rígido demais não é bom, mas ser liberal demais é igualmente desaconselhável. Procure sempre equilibrar as coisas. Evite abrir exceções para essas regras o tempo todo. Ex: Dormir mais tarde uma vez porque está vendo um filme/jogando vídeo game, mas que isso não se torne rotina. 
  • No caso de irmãos, evite favorecer um, as regras devem valer para todos de forma mais igualitária possível.
  • Passe ensinamentos morais, deixe claro o certo e o errado. Quando mais nova a criança, mais simples deve ser a explicação, conforme eles crescem você pode dar mais detalhes e exemplos.
  • Brinque com seus filhos, converse com eles, abrace, beije. O carinho é um grande alimento para a formação dos pequenos.




Para finalizar, vou citar um caso que atendi uns anos atrás. Era uma mãe jovem que chegou com a filha de 3 anos, muito desesperada porque sua filha estava com tricotilofagia. Nesse transtorno mental a pessoa desenvolve uma compulsão por arrancar seu cabelo e engolir. O cabelo não é digerido pelo suco gástrico no estômago, depois de um tempo existe uma bola de cabelo alojada no estômago da pessoa que deve ser retirada através de cirurgia. É um transtorno que eu só havia visto em adultos. Naquele dia era uma criança de 3 anos que sofria com isso. Depois de entrevistar a mãe e a criança eu percebi o quão tumultuada era a relação delas. Mãe solteira, tinha que trabalhar e cuidar da filha. Brigava com a menina, agredia ela muitas vezes sem motivo, descontando suas frustrações na criança. Durante a terapia tratei mais a mãe do que a filha, orientando, dando suporte que ela não tinha da família, todos a culpavam pelo fracasso de ser mãe solteira. Depois de um tempo, ela parou de descontar na filha aquela raiva do mundo, de ter sido abandonada pelo companheiro, de não ter um bom emprego e de ser criticada pela família, Passou a brincar mais com a filha, a conversar mais com ela, a passear e a dar afeto. Naturalmente, a menina não mais arrancou os cabelos e cessou o comportamento nocivo. Neste caso específico não foi necessária nenhum tipo de medicação, apenas terapia. A mãe me agradeceu muito ao final do tratamento e não mais retornou para atendimento psicológico comigo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

CRIANÇAS E ELETRÔNICOS- QUAIS OS RISCOS?

A geração atual vem se desenvolvendo cercada pelo avanço tecnológico numa velocidade assustadora. Vemos novos dispositivos ficarem obsoletos com muita rapidez e novos aparelhos eletrônicos surgindo no mercado, criando novas tendências e necessidades que antes não existiam. Hoje, é muito difícil ver alguém sem seu celular smartphone (que é praticamente um computador portátil), e muito fácil encontrar pessoas viciadas em tecnologia. Assim como seus pais, as crianças começam a ser bombardeadas pela tecnologia desde cedo, crescem em meio a televisores modernos, celulares, tablets e outros gadgets (dispositivos) eletrônicos com funções diversas. A questão que talvez muitos pais nem pensem é: "Quando isso começa a ser danoso para as crianças?"




HÁBITOS NOCIVOS DA MODERNIDADE 

Antigamente se brincava muito com as crianças, levavam elas para passear, havia mais interação. Hoje, estudos da Associação Americana de Pediatria mostram que as crianças passam muito tempo em frente a televisão, em média de 4 a 8 horas. Isso é muito tempo. Mesmo que sejam programas educativos, nada substitui a interação real com os pequeninos, uma vez que as crianças estão em pleno desenvolvimento e necessitam de contato real. O brincar estimula o desenvolvimento da psicomotricidade, ou seja, da percepção espacial, do raciocínio lógico/abstrato, da criatividade, da interação com objetos. Crianças que passam muito tempo "zumbis" assistindo televisão, mesmo que programas educativos perdem um pouco disso. Os pais não tem mais tempo para educar, tem que trabalhar jornadas exaustivas para poder sustentar a casa e dar conforto a família. Mas existe um preço que se paga com isso, esse modo de vida da nossa sociedade vem adoecendo muitos
indivíduos.

As crianças tem uma tendência natural em seu desenvolvimento a imitar os adultos e estão adquirindo esse vício por tecnologia. os brinquedos estão sendo substituídos por celulares, tablets, computadores, criando um cenário bastante preocupante. O celular, por exemplo, é um dispositivo essencial na vida moderna, foi (e vem) ganhando novas funções com o passar dos anos. Antes era algo de "gente grande", utilizado para comunicação a distância, hoje é quase um brinquedo. E os brinquedos de verdade estão esquecidos, assim como as brincadeiras de infância que tanto contribuem para o desenvolvimento infantil. É necessário que os pais atentem para esse fato e procurem não alimentar esse vício em tecnologia em seus filhos. 


QUAIS OS RISCOS DE CRIANÇAS VICIADAS EM TECNOLOGIA?

Lembro de um paciente de 13 anos que atendi certa vez. Ele estava viciado em jogos por computador, passava até 10 horas no computador, quando era censurado por sua avó, que o criava. Quando não havia essa censura, chegava a passar muito mais tempo em frente a tela. Abandonou a escola, tanto por faltas quanto pelo baixo desempenho nas matérias, não conseguia se concentrar nas aulas, praticamente não se relacionava com outros de sua idade. Diagnóstico? Algo que costumamos ver apenas em adultos: vício por jogo e compulsão. No caso, jogo eletrônico, mas o mecanismo é o mesmo. 


Crianças viciadas em tecnologia ou sem limites no acesso a esses dispositivos eletrônicos podem sofrer uma série de consequências, dependendo da idade e do tempo de exposição. Por exemplo, os bebês se desenvolvem fisicamente muito rápido, seus cérebros rapidamente nos primeiros anos de vida. Durante esse período os estímulos ambientais são muito importantes para determinar o quão eficiente será o desenvolvimento cerebral. Estudos mostram que a superexposição a eletrônicos nesse período pode ser prejudicial e causar déficit de atenção, atrasos cognitivos, distúrbios de aprendizado, aumento de impulsividade e diminuição da habilidade de regulação própria das emoções. Outro problema é a obesidade. Crianças antigamente corriam muito, brincavam gastando energia, hoje brincam no quarto, na sala com celulares, tablets e computadores. A diminuição da atividade física, aliada a má alimentação aumenta os riscos de obesidade na infância. 

Ficar até tarde vendo televisão ou jogando nesses dispositivos pode afetar o sono, fazendo com que a superestimulação deixa a criança em estado de alerta, atrapalhando o horário normal de sono. Criança que dorme tarde e acorda cedo não rende na escola. Outro problema é o déficit de atenção, que é muito comum hoje em dia. A quantidade de estímulos com o qual a criança é bombardeada através dos eletrônicos pode levá-la a desenvolver dificuldade de atenção e concentração. Excesso de estímulos é algo prejudicial para os pequenos. Fora tudo isso mencionado acima ainda temos os problemas emocionais causados pelo uso constante de dispositivos, que acabam privando as crianças de contato social e potencializando que as mesmas desenvolvam instabilidade emocional, baixa tolerância a frustração, ansiedade e até mesmo transtornos mentais.


O QUE FAZER?

Algumas dicas para você que tem filhos pequenos e gosta de ter muita tecnologia em casa:

-Limitar o uso de aparelhos eletrônicos pelas crianças, limitar também o tempo de uso. 

-Saiba o que seu filho está olhando. Redes sociais são um perigo para crianças, esteja atento ao conteúdo que seu filho está acessando, seja na TV, computador, celular ou tablet. Aplicativos de conversação como Whats App, Viber e Telegram também devem ser monitorados ou restringidos pelos pais.

-Evite muitos aparelhos eletrônicos no quarto das crianças. Quanto menos a exposição prolongada, melhor.

- Conforme a idade dos seus filhos, tenha conversas críticas acerca dos programas que eles assistem, com o objetivo de desenvolver o entendimento de valores familiares.

-Limite o uso de videogames, estabeleça um tempo por dia para uso desses dispositivos. O ideal seria no máximo 2 horas por dia.

- Quanto menor a idade, menos é o tempo indicado para que a criança use aparelhos eletrônicos.

-Saia mais com seus filhos, converse e brinque mais com eles ao invés de deixá-los vendo TV, jogando no tablet ou no celular.

-Incentive a prática de esportes. 

-Troque o programa infantil no tablet/celular por um livro. Leia para seu filho, estimule a criatividade e a imaginação dele.

Referência:

Associação Americana de Psiquiatria http://pediatrics.aappublications.org/content/132/5/958.full

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

As Consequências de Beijar o Filho na Boca


Artigo escrito  por Rachel Canteli:


Uma das primeiras conseqüências de beijar os filhos na boca, já nos primeiros dias de vida, é a transmissão de bactérias as quais os bebês ainda não possuem defesas. Segundo o presidente da Associação Odonto-criança, Daniel Korytnicki, que concorda com a citação do infectologista Milton Lapchik, além da cárie, “o estalinho pode transmitir algumas doenças, como herpes simples, micoses e outras infecções causadas por vírus”, as quais muitas vezes ficam imperceptíveis na pele, mas que geram indisposição física, sendo necessária a intervenção medicamentosa.

A pedagoga Jane R. Barreto, ressalta que a criança imita os adultos, tanto os familiares, como os vistos em programas televisivos e filmes. Porém a representação desses papéis adultos, não significa que a criança esteja pronta para a compreensão global do que certas atitudes que imitam, representam, pois permanecem na inocência característica da infância. Nesta situação, dramatizar o que viu, cantar e dançar músicas com cunho erótico para o adulto não possui a mesma conotação para as crianças, mas as expõe. A criança, por se estruturar através da fantasia mediada pela realidade, vive no faz de conta a concepção de um amor dentro do conhecimento que possui do amor de seus pais: príncipes e princesas que desejaram estar juntos e serão felizes para sempre. Mesmo famílias que possuem desentendimentos constantes em frente a criança, pelo infante não conhecer outra realidade, acaba por considerar que esta forma de relacionamento é a normal. A autora ainda ressalta que “Adultos não devem beijar crianças na boca, se alimentar na mesma colher, assoprar a comida, ou ainda recolher a chupeta, quando a mesma cair no chão, levando-a à boca, para “tirar as bactérias”, e depois colocar na boca da criança, evitando assim a transmissão de Hpilori, carie, herpes, sapinhos, entre outros… eles ainda estão criando imunidade, não tem a defesa orgânica que os adultos têm. Além da questão saúde, devem permanecer atento ao comportamento, pois se os infantes julgarem que esse costume familiar é natural, repetirão com todos adultos que tiverem contato. Neste sentido o diálogo com seus filhos se torna fundamental, esclarecendo que essa atitude só deverá ocorrer no seio familiar, pois, com a ingenuidade natural da criança, pode acontecer dela entender que, uma vez que seus pais a beijam na boca, pode repetir o gesto com outros de seu vínculo.”.

Giselle Castro Fernandes também ressalta que criança não beija na boca e não namora. Criança tem amiguinhos mais chegados ou não. Nas escolas, presenciam-se alguns coleguinhas andar de mãos dadas dizendo-se namoradinhos, ou como relatou uma mãe de uma criança de 3 anos: “Minha filha está preocupada com quem vai se casar, pois um amiguinho casará com uma de suas amigas, o outro com outra e assim consecutivamente.”. Situações como essas, além de gerar ciúmes, provocam também uma preocupação inadequada para a idade, privam a criança da infância, sem nenhuma razão! O trabalho dentro do espaço escolar de esclarecer a educadores e pais sobre este aspecto é fundamental.

Para os pais, o namoro infantil pode ser interpretado como uma brincadeira, mas é preciso que se alerte quanto às consequências disso. Uma criança de dois ou três aninhos, acostumada a dar o “selinho” em seus pais, a tomar banho junto com o sexo oposto adulto ou a dormir na cama do casal, dependendo de como o adulto brinca ou sente essa situação, poderá desenvolver a erotização precoce de algumas áreas de seu corpo e este fator pode novamente privá-la da inocência da infância. Assim, casos esses comportamentos sejam rotinas dentro da família, precisam ser conversados e orientados dentro do entendimento de cada fase, lembrando sempre que a criança possui uma compreensão relacionada ao corpo bem diferente do adulto. Valdeci Rodrigues questiona: “Numa época em que a pedofilia precisa ter um amplo combate, como ficam a cabeça desses garotos e garotas que escutam na própria escola que para fugir do baixo astral é melhor “beijar na boca”?”. Essa reflexão é primordial para a educação infantil para pais e educadores.

Giselle Castro Fernandes continua sua reflexão alertando que “Na família existe o papel do pai e da mãe – que, juntos, formam um casal que dorme junto, que beija na boca! O papel dos filhos é outro. São crianças, e criança não beija na boca, não dorme na cama dos pais, etc. Trata-se de demarcar esses limites de maneira bem clara. Do contrário, fica difícil definir o papel do adulto e da criança. Para ela, criança, dar o “selinho” é o mesmo que namorar.”. Enfatiza ainda que “Filhinho (a) não é namorado e, portanto, não beija igual. Beija no rosto, abraça, acaricia, mas nada que se confunda com o carinho ou com o amor do adulto, do casal. Há uma preocupação muito grande (e justa) dos pais, de se atualizarem, de não se distanciarem de seus filhos, mas isso pode e deve ser feito, sem que se abra mão de seu papel, o papel de pai e de mãe, aqueles que representam o porto seguro aos filhos, aqueles que são “adultos”, que orientam, seguram a barra e que deixam muito bem definida a posição de criança e de adulto na família. Pode se ter a certeza de que os filhos, no futuro, agradecerão muito a seus pais que não abriram mão do papel com a função paterna – no sentido literal de força, de limite e da função materna – de cuidado, proteção. Amor entre adultos é diferente do amor pelas crianças, pelos filhos. Portanto, o beijo é também diferente e nem por isso menos carinhoso!”. Se incentivarmos a infância de nossos pequenos, eles irão amadurecer no tempo certo, não precisamos acelerar nada. Dentro desta linha de pensamento, a conseqüência de beijar o filho na boca propicia uma confusão de papéis, sendo esta desnecessária ao aprendizado infantil.

Como a concepção do adulto o beijar na boca esta relacionado a sexualidade, vale ressaltar as colocações de Lulie Macedo que cita que “Desde que o mundo é mundo, as crianças não brincam de médico à toa: a aventura do descobrimento começa já nos primeiros meses, quando o bebê experimenta o prazer de explorar o próprio corpo, e se acentua nos anos seguintes, quando sua atenção se volta para o corpo dos pais e de outras crianças.”. Esse descobrimento corporal é natural do ser humano e deve ser compreendido dentro desta lógica. Assim, tocar no próprio corpo faz parte da tarefa de entender o mundo e a autora acima complementa que “o prazer em manipular os órgãos sexuais é uma das primeiras descobertas.”. “Ela não sabe o que é certo ou errado, quais são os códigos sociais, a diferença entre o público e o privado. Cabe aos pais e educadores ensinar que ali não é lugar para isso.”, afirma Maria Cecília. Desta forma a criança entenderá o sentido de privacidade e respeito ao próprio corpo, bem como ao corpo das demais pessoas.

Essa autora também cita que “O problema não está na exploração sexual do próprio corpo ou nas brincadeiras entre crianças da mesma idade. Prejudicial é a repressão do adulto a essas atitudes, quando ele grita, proíbe, bate ou põe de castigo. Fazendo isso ele transmite a noção de que aquilo é errado, quando na verdade essas atitudes são tão naturais quanto aprender a andar, falar, brincar”, afirma Maria Cecília Pereira da Silva, psicanalista e membro da ONG Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. – “Sexualidade não é sinônimo de coito e não se limita à presença ou não do orgasmo. Ela influencia pensamentos, sentimentos, ações e a saúde física e mental. Se saúde é um direito humano fundamental, a saúde sexual também deveria ser considerada um direito humano básico. O “exibicionismo” infantil faz parte da fase de exploração dos corpos. Como um brinquedo novo, a criança quer mostrar aos outros, o que já descobriu. Quanto à menina que adora levantar a roupa e mostrar o bumbum, por exemplo, pode estar imitando algo que viu na TV. Em qualquer situação, cabe aos adultos começar a ensinar a noção de intimidade.”.

O trabalho educacional desenvolvido para a Educação Infantil neste assunto é permeado de observação e reflexão. Ao demonstrar e questionar a criança a respeito da conseqüência de constantemente tocar nos olhos, ouvidos, colocar a mão na boca, no nariz, em suma, questioná-la sobre a conseqüência de explorar o corpo e relacionar essa conseqüência ao toque dos órgãos genitais, a faz compreender que tocar demasiadamente ou sem as mãos estarem limpar, pode gerar ardência dos locais tocados. Ressaltar o uso de peças íntimas (calcinhas e cuecas) para proteger o “fazedor de xixi” e o “fazedor de coco”, é primordial para esse aprendizado, bem como também explicar que o momento de banho, é um momento privado. Desta forma, a criança compreenderá a restrição quanto a onde se tocar e não quanto a se tocar.

Dois outros aspectos importantes é saber: até quando os adultos podem ficar nus em frente aos filhos, sendo recomendado que se esta situação é vista com naturalidade, só por volta dos 7 ou 8 anos, as crianças solicitam a própria privacidade e esta deve ser respeitada. Outro aspecto é relacionado ao fato do imprevisto de a criança visualizar o ato sexual, sendo importante conversar a respeito, mesmo que ela não pergunte ou não queria voltar a esse assunto. Lembre-se que se esta situação ocorreu, o descuido foi dos pais e estes devem-se se preparar para que esta conversa não gere culpa no infante, nem jamais culpá-lo. Se ocorrer dificuldade frente a esse assunto, é imprescindível buscar auxílio profissional, prevenindo fantasias desconfortáveis a esse respeito primordial na formação do ser humano.

Assim, evidencia-se algumas conseqüências de beijar os filhos(as) na boca, ressaltando que se o filho for respeitado em seu desenvolvimento, terá uma infância saudável e feliz.


Artigo originalmente escrito e publicado por Rachel Canteli, disponível em: http://rrclinicapsi.com.br/as-consequencias-de-beijar-o-filho-na-boca/

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ensinando e Educando Crianças

Muitas pessoas me perguntam qual a melhor forma de criar seus filhos e muitos pais questionam como lidar com certos comportamentos das crianças que são inadequados, irritantes ou ambos. O objetivo desse texto é dar algumas sugestões e analisar o comportamento infantil que venho presenciando na atualidade.

O que os pais tem que ter em mente é que não existe um manual "Como Criar seu Filho". Podem até existir livros de autoajuda que falem sobre isso (eu não conheço, mas sei que estão por aí), todavia não podemos tratar o comportamento humano como receita de bolo, muito menos o comportamento de um ser em desenvolvimento. Muitos desses livros não são escritos por profissionais que lidam com o comportamento humano (Psicólogos e Psiquiatras). Desta forma, não irei "dar dicas", mas sim sugestões que pais e educadores podem adotar ou não para buscar compreender o comportamento da criança de acordo com cada contexto.

Antes de mais nada, é indispensável fazer uma breve análise histórica e social para entendermos um pouco o contexto atual. As pessoas mais velhas sempre usam o discurso de que "antigamente bastava meu pai olhar e eu obedecia", ou que "tínhamos medo do nosso pai/mãe então não nos comportávamos mal". Utilizam inclusive o argumento do castigo físico como justificativa para um bom comportamento, "antigamente podia bater, hoje não pode mais, por isso as crianças não respeitam mais os pais" ou "o problema desse menino é falta de peia". São frases de pais de crianças que atendi no consultório e que com absoluta certeza você já ouviu isso em algum lugar (ou mesmo pensou em alguma delas). Analisemos a situação sócio-histórica.

Há vinte, trinta ou mais anos atrás as famílias eram mais numerosas, ou seja, os casais tinham mais filhos, o pai geralmente era o provedor da casa enquanto a mãe tratava de cuidar do lar e dos filhos. Mesmo trabalhando o dia todo o pai estava presente durante a noite e havia algum tipo de contato familiar. Com o passar dos anos, das mudanças político-econômicas e sociais, a mulher foi saindo desse espaço de submissão; agora só o salário do homem não era suficiente para sustentar a família e os casais viam que o excesso de filhos se convertiam em excesso de despesas. O resultado é que muitas famílias passaram a ter menos filhos e que as mães passaram a ter que encarar jornadas de trabalho para complementar a renda. Os filhos passaram a ser cuidados por terceiros (babás, avós ou creches). É esse cenário que pretendo analisar.


A ausência dos pais no ambiente familiar é um fator determinante para o comportamento de qualquer criança. É nos pais que a criança se espelha, que aprende como deve se portar em determinadas situações, que é ensinada a distinguir o que é certo (ou mais adequado para seu contexto) do que não é. Mas e quando os pais trabalham jornadas exaustivas e chegam em casa tarde da noite quando os filhos já estão dormindo, ou tem contato com os filhos durante a semana apenas quando vão buscá-los na escola/reforço/natação etc? As crianças tentam se adaptar a essa ausência e o responsável por aquela educação primária que falamos no começo desse parágrafo fica a cargo de terceiros que nunca vão ocupar a função materna/paterna adequadamente. A criança tenta se adaptar. Ela sabe quem são seus pais, mas nunca os tem por perto, não tem ninguém para frear seus instintos primários, os cuidadores nem sempre exercem autoridade com a criança ou são pacientes. O que acontece? Isso mesmo, reclamações sobre como a criança se comporta mal.

A criança como qualquer ser reage ao que ela experiencia em seu meio. Experienciar a ausência dos pais geralmente não é bom, gera ansiedade e desconforto na criança o tudo o que chamamos de comportamentos negativos são na verdades tentativas da criança a se adaptar aquilo que ela vivencia e sente. Está na moda dizer que as crianças são hiperativas, recebi muitas queixas dessas no consultório e 99% se tratava apenas da ausência dos pais ou na inabilidade deles lidarem com as ações dos filhos. Vamos parar com essa mania de diagnosticar as crianças e chamá-las de hiperativas. Leiam esse artigo meu sobre o tema. 

O leitor então deve estar se perguntando: "Então porque meu filho(a) não para quieto? Porque ele bate e morde os colegas? Porque ele não me obedece? Porque não quer comer? Porque dorme tarde?" A resposta é simples: ausência de pais mais presentes que imponham regras e limites.  Como ser em desenvolvimento pleno, muitas vezes a criança vai agir em cima do seu desejo ou vontade, mas ela não tem a maturidade necessária para saber ainda o que é melhor para ela, por isso a importância dos pais 
nesse processo, pois eles vão direcionar e frear esses desejos.

Assim como a vida em sociedade vivida pelos pais é regida por regras, a vida da criança também deve ser. Se a criança aprende e consegue internalizar essas regras desde pequena isso ajudará não só no seu desenvolvimento pessoal, mas social também. A criança deve ter hora para acordar, dormir, comer, banhar, brincar, estudar. Não precisa ser algo rígido como um quartel, mas deve ser algo que os pais busquem para melhor lidar com seu filho. No momento que os pais aprendem a direcionar a energia da criança ela deixa de ser destrutiva ("o menino danado") para ser construtiva/integradora. Se a criança quebra as regras ela deve ser punida, mas não necessariamente com castigos físicos, ela deve ser ensinada sobre seu erro e orientada a buscar não cometê-lo. A repetição do erro pode custar perdas como forma de castigo (não vai para a casa dos colegas, não vai jogar vídeogame, usar o computador) ou seja, retirar algo importante para a criança para que ela entenda que suas ações negativas terão consequências desagradáveis.

Em algum momento pode ser que isso não seja o suficiente e que um castigo físico seja necessário, como uma chinelada ou uma palmada. Mas não confundam isso com espancamento, por isso a famigerada "Lei da Palmada" foi aprovada, por conta de pais (provavelmente ausentes) que não davam conta do comportamento dos filhos e começaram a agredir os filhos e espancá-los achando que isso resolveria o problema. Pelo contrário, o excesso de castigos físicos, de agressões e espancamento perde o sentido para a criança em algum momento não surte nenhum efeito positivo em seu comportamento, pelo contrário, pode levar a criança a se tornar desde um indivíduo ansioso, deprimido até mesmo violento.


Algumas sugestões que posso passar para pais e educadores são:

- Ouçam a criança. Um grande erro é nunca ouvir o que a criança tem a dizer ou achar que a criança estáa mentindo. Já atendi diversos casos de abuso sexual onde as crianças relataram que os pais não acreditaram no que elas diziam. Embora o exemplo do abuso fuja ao nosso contexto, foi citado para mostrar a importância de se ouvir o que a criança tem a dizer.

- Seja imparcial. Se você tem dois filhos nunca priorize um, nunca facilite as coisas para um deles ou seja mais brando. O que vale para um deve valer para o outro. Se você deu uma ordem ou um castigo para a criança faça ela cumprir a não ser que alguma coisa no contexto mostre que você pode ser flexível naquela vez, mas em geral a criança precisa saber que a mãe nem o pai vai tomar partido por ela. Significa que se o pai colocou o castigo só ele pode retirar e vice versa para a mãe. 

-Pais, evitem conflitos de autoridade na frente da criança. Se forem discutir, discutam longe dela ou de preferência na ausência da criança. É muito ruim quando a criança presencia as brigas dos pais sobre "quem manda nele". Ambos são responsáveis por esse filho e devem compartilhar a responsabilidade. Os limites do comportamento do filho devem ser acordado por ambos.


-A criança tem que brincar, mas é preciso encontrar o equilíbrio entre o brincar e outras atividades. Deixar a criança muito tempo "solta", sem nada para fazer pode ser ruim, ao mesmo tempo que entupir o dia da criança com aula de tudo quanto é coisa também não é adequado. É importante direcionar a criança para atividades lúdicas e produtivas, todavia pelo menos algumas delas devem despertar interesse na criança, ou podem se tornar uma "tortura" e desencadear os comportamentos inadequados 
descritos nesse texto.


-Ter regras e obedecê-las. Toda casa tem regras e deve haver uma cobrança para que sejam seguidas. Se a criança é ensinada desde pequena ela vai internalizar aquele aprendizado e o levará para a vida adulta. Isso vale desde a organização do quarto até os conceitos morais e religiosos.


-Saber punir. A grande dificuldade dos pais de hoje é saber punir. Muitas vezes é mais fácil bater do que conversar, gritar do que explicar. Cuidar de filhos não é fácil, mas quanto menos paciência e educação você der ao seu filho menos paciente e educado ele será. Lembre-se pai/mãe de seu filho é reflexo da forma como você o trata e cuida. Eu sempre aconselho que quando a criança faz algo que não devia você deve alertá-la, chamar sua atenção de forma tranquila. Olhe nos olhos da criança e faça com que ela preste atenção no que você está falando. Seja firme, mas sereno. Se ela volta a cometer a mesma falta ameace o castigo. Se ela repete aplique o castigo (exemplos de castigos foram dados texto acima) e a faça cumprir o castigo e entender porque está sendo castigada. Em último caso se for necessário a palmada/chinelada.

-Brinque com seu filho. Tenha um tempo com ele, converse com ele. Mesmo com o trabalho e a correria do dia a dia tire um tempo para estar plenamente com seu filho. Isso faz toda  diferença. Pergunte a ele da escola, dos amigos, das brincadeiras.


-Nos dias de hoje com o advento da tecnologia as crianças estão tendo acesso mais cedo a dispositivos eletrônicos. Particularmente não acho isso saudável. Não deixe que seu filho fique imerso demais na tecnologia e se isole. Estimule a socialização. Leve ele para interagir com outras crianças fora do ambiente escolar. Socialização infantil é essencial para o desenvolvimento. 


-Saiba elogiar as boas ações do seu filho, assim como você sabe repreender as más. Muitos pais esquecem de elogiar. O elogio fortalece a probabilidade da criança repetir as boas ações, afinal para os pequenos a aprovação dos pais é bastante importante. 


-Evite permutas. "Vou te dar isso se você fizer isso". A criança pode internalizar que tudo que ela vai fazer requer uma recompensa. Ela deve fazer porque é obrigação, porque é o certo ou porque é importante, não porque vai ganhar um bem material.


-Não ponha na escola a responsabilidade pela educação dos seus filhos. Essa responsabilidade é dos pais, a criança vai levar para escola o que aprende em casa e levar para casa o que aprende na escola mas o ambiente primário dela é o lar e é onde ela deve aprender sobre o que é ou não permitido.


Isso não é receita de bolo! São sugestões como disse para que os pais e educadores possam adaptar a sua realidade, porque cada lar, cada família, cada criança tem suas particularidades. Tenham em mente que para cuidar de uma criança e educá-la bem é balancear amor e disciplina: qualquer um desses dois em excesso pode ser prejudicial.

OBS: Já atendi algumas crianças na clínica, hoje em dia não atendo mais esse público, uma vez que os pais são fundamentais nesse processo e a maioria não se implica na terapia, gerando poucos sucessos. Sempre existe o discurso "Mas doutor, eu não tenho tempo". São as escolhas que fazemos.