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quinta-feira, 10 de março de 2016

MEU FILHO NÃO ME OBEDECE, O QUE EU FAÇO?

O título desse post refere uma pergunta constante que me fazem no consultório, algo que perpassa a grande maioria dos pais na atualidade, que não sabem como reagir ou reagem de formas ineficientes com seus filhos que apresentam comportamentos "inapropriados".

A primeira coisa que os pais tem que entender é que a criança é um ser em desenvolvimento que absorve e reproduz os comportamentos ou situações que vivencia. Um exemplo prático é que se você fala palavrão em casa, o pequeno naturalmente vai falar esse palavrão em algum momento, porque a imitação/reprodução faz parte do aprendizado.. Os pais parecem esquecer que uma criança não tem a mesma maturidade emocional e intelectual que um adulto, e por isso deve ser orientada constantemente sobre o que é certo e o que é errado. Daí chegamos no problema do nosso modo de vida moderno onde as funções de educação e orientação, em geral, são transferidos para terceiros: escola, babá, avós. Os pais tem que trabalhar, afinal criar um filho gera muita despesa, e o ritmo de trabalho diminui o tempo de contato com os filhos. Esse distanciamento gera uma série de sentimentos conflitantes na criança, que geralmente exibe o que os analistas do comportamento chamam de variabilidade comportamental, uma expressão de atitudes diferentes. É o que as pessoas definem como criança inquieta, travessa. Na grande maioria das vezes o mau comportamento de uma criança é reflexo de um ambiente no qual algo está faltando para aquela criança, seja educação, limites ou atenção dos pais.


O QUE FAZER QUANDO MEU FILHO NÃO OBEDECE?

Não existe uma cartilha ou conjunto de regras para lidar com isso, porque as situações são as mais variadas possíveis, embora a queixa seja semelhante, a de que seu filho não te respeita e desobedece você. O que vou falar a seguir são algumas orientações, atitudes simples que podem melhorar muito essa relação.


  • Estabeleça mais contato com seu filho, olhe sempre nos olhos dele quando falar algo importante, fale próximo dele, diminua a distância. 
  • Nunca ponha seu filho de castigo sem motivo e sempre deixe claro quando ele fizer algo indevido.
  • Tenha regras na casa. Crianças precisam se acostumar com regras, portante é interessante que elas tenham horário para tomar banho, dormir, estudar, comer.
  • Evite contradizer suas próprias regras. Ser rígido demais não é bom, mas ser liberal demais é igualmente desaconselhável. Procure sempre equilibrar as coisas. Evite abrir exceções para essas regras o tempo todo. Ex: Dormir mais tarde uma vez porque está vendo um filme/jogando vídeo game, mas que isso não se torne rotina. 
  • No caso de irmãos, evite favorecer um, as regras devem valer para todos de forma mais igualitária possível.
  • Passe ensinamentos morais, deixe claro o certo e o errado. Quando mais nova a criança, mais simples deve ser a explicação, conforme eles crescem você pode dar mais detalhes e exemplos.
  • Brinque com seus filhos, converse com eles, abrace, beije. O carinho é um grande alimento para a formação dos pequenos.




Para finalizar, vou citar um caso que atendi uns anos atrás. Era uma mãe jovem que chegou com a filha de 3 anos, muito desesperada porque sua filha estava com tricotilofagia. Nesse transtorno mental a pessoa desenvolve uma compulsão por arrancar seu cabelo e engolir. O cabelo não é digerido pelo suco gástrico no estômago, depois de um tempo existe uma bola de cabelo alojada no estômago da pessoa que deve ser retirada através de cirurgia. É um transtorno que eu só havia visto em adultos. Naquele dia era uma criança de 3 anos que sofria com isso. Depois de entrevistar a mãe e a criança eu percebi o quão tumultuada era a relação delas. Mãe solteira, tinha que trabalhar e cuidar da filha. Brigava com a menina, agredia ela muitas vezes sem motivo, descontando suas frustrações na criança. Durante a terapia tratei mais a mãe do que a filha, orientando, dando suporte que ela não tinha da família, todos a culpavam pelo fracasso de ser mãe solteira. Depois de um tempo, ela parou de descontar na filha aquela raiva do mundo, de ter sido abandonada pelo companheiro, de não ter um bom emprego e de ser criticada pela família, Passou a brincar mais com a filha, a conversar mais com ela, a passear e a dar afeto. Naturalmente, a menina não mais arrancou os cabelos e cessou o comportamento nocivo. Neste caso específico não foi necessária nenhum tipo de medicação, apenas terapia. A mãe me agradeceu muito ao final do tratamento e não mais retornou para atendimento psicológico comigo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

CRIANÇAS E ELETRÔNICOS- QUAIS OS RISCOS?

A geração atual vem se desenvolvendo cercada pelo avanço tecnológico numa velocidade assustadora. Vemos novos dispositivos ficarem obsoletos com muita rapidez e novos aparelhos eletrônicos surgindo no mercado, criando novas tendências e necessidades que antes não existiam. Hoje, é muito difícil ver alguém sem seu celular smartphone (que é praticamente um computador portátil), e muito fácil encontrar pessoas viciadas em tecnologia. Assim como seus pais, as crianças começam a ser bombardeadas pela tecnologia desde cedo, crescem em meio a televisores modernos, celulares, tablets e outros gadgets (dispositivos) eletrônicos com funções diversas. A questão que talvez muitos pais nem pensem é: "Quando isso começa a ser danoso para as crianças?"




HÁBITOS NOCIVOS DA MODERNIDADE 

Antigamente se brincava muito com as crianças, levavam elas para passear, havia mais interação. Hoje, estudos da Associação Americana de Pediatria mostram que as crianças passam muito tempo em frente a televisão, em média de 4 a 8 horas. Isso é muito tempo. Mesmo que sejam programas educativos, nada substitui a interação real com os pequeninos, uma vez que as crianças estão em pleno desenvolvimento e necessitam de contato real. O brincar estimula o desenvolvimento da psicomotricidade, ou seja, da percepção espacial, do raciocínio lógico/abstrato, da criatividade, da interação com objetos. Crianças que passam muito tempo "zumbis" assistindo televisão, mesmo que programas educativos perdem um pouco disso. Os pais não tem mais tempo para educar, tem que trabalhar jornadas exaustivas para poder sustentar a casa e dar conforto a família. Mas existe um preço que se paga com isso, esse modo de vida da nossa sociedade vem adoecendo muitos
indivíduos.

As crianças tem uma tendência natural em seu desenvolvimento a imitar os adultos e estão adquirindo esse vício por tecnologia. os brinquedos estão sendo substituídos por celulares, tablets, computadores, criando um cenário bastante preocupante. O celular, por exemplo, é um dispositivo essencial na vida moderna, foi (e vem) ganhando novas funções com o passar dos anos. Antes era algo de "gente grande", utilizado para comunicação a distância, hoje é quase um brinquedo. E os brinquedos de verdade estão esquecidos, assim como as brincadeiras de infância que tanto contribuem para o desenvolvimento infantil. É necessário que os pais atentem para esse fato e procurem não alimentar esse vício em tecnologia em seus filhos. 


QUAIS OS RISCOS DE CRIANÇAS VICIADAS EM TECNOLOGIA?

Lembro de um paciente de 13 anos que atendi certa vez. Ele estava viciado em jogos por computador, passava até 10 horas no computador, quando era censurado por sua avó, que o criava. Quando não havia essa censura, chegava a passar muito mais tempo em frente a tela. Abandonou a escola, tanto por faltas quanto pelo baixo desempenho nas matérias, não conseguia se concentrar nas aulas, praticamente não se relacionava com outros de sua idade. Diagnóstico? Algo que costumamos ver apenas em adultos: vício por jogo e compulsão. No caso, jogo eletrônico, mas o mecanismo é o mesmo. 


Crianças viciadas em tecnologia ou sem limites no acesso a esses dispositivos eletrônicos podem sofrer uma série de consequências, dependendo da idade e do tempo de exposição. Por exemplo, os bebês se desenvolvem fisicamente muito rápido, seus cérebros rapidamente nos primeiros anos de vida. Durante esse período os estímulos ambientais são muito importantes para determinar o quão eficiente será o desenvolvimento cerebral. Estudos mostram que a superexposição a eletrônicos nesse período pode ser prejudicial e causar déficit de atenção, atrasos cognitivos, distúrbios de aprendizado, aumento de impulsividade e diminuição da habilidade de regulação própria das emoções. Outro problema é a obesidade. Crianças antigamente corriam muito, brincavam gastando energia, hoje brincam no quarto, na sala com celulares, tablets e computadores. A diminuição da atividade física, aliada a má alimentação aumenta os riscos de obesidade na infância. 

Ficar até tarde vendo televisão ou jogando nesses dispositivos pode afetar o sono, fazendo com que a superestimulação deixa a criança em estado de alerta, atrapalhando o horário normal de sono. Criança que dorme tarde e acorda cedo não rende na escola. Outro problema é o déficit de atenção, que é muito comum hoje em dia. A quantidade de estímulos com o qual a criança é bombardeada através dos eletrônicos pode levá-la a desenvolver dificuldade de atenção e concentração. Excesso de estímulos é algo prejudicial para os pequenos. Fora tudo isso mencionado acima ainda temos os problemas emocionais causados pelo uso constante de dispositivos, que acabam privando as crianças de contato social e potencializando que as mesmas desenvolvam instabilidade emocional, baixa tolerância a frustração, ansiedade e até mesmo transtornos mentais.


O QUE FAZER?

Algumas dicas para você que tem filhos pequenos e gosta de ter muita tecnologia em casa:

-Limitar o uso de aparelhos eletrônicos pelas crianças, limitar também o tempo de uso. 

-Saiba o que seu filho está olhando. Redes sociais são um perigo para crianças, esteja atento ao conteúdo que seu filho está acessando, seja na TV, computador, celular ou tablet. Aplicativos de conversação como Whats App, Viber e Telegram também devem ser monitorados ou restringidos pelos pais.

-Evite muitos aparelhos eletrônicos no quarto das crianças. Quanto menos a exposição prolongada, melhor.

- Conforme a idade dos seus filhos, tenha conversas críticas acerca dos programas que eles assistem, com o objetivo de desenvolver o entendimento de valores familiares.

-Limite o uso de videogames, estabeleça um tempo por dia para uso desses dispositivos. O ideal seria no máximo 2 horas por dia.

- Quanto menor a idade, menos é o tempo indicado para que a criança use aparelhos eletrônicos.

-Saia mais com seus filhos, converse e brinque mais com eles ao invés de deixá-los vendo TV, jogando no tablet ou no celular.

-Incentive a prática de esportes. 

-Troque o programa infantil no tablet/celular por um livro. Leia para seu filho, estimule a criatividade e a imaginação dele.

Referência:

Associação Americana de Psiquiatria http://pediatrics.aappublications.org/content/132/5/958.full

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ensinando e Educando Crianças

Muitas pessoas me perguntam qual a melhor forma de criar seus filhos e muitos pais questionam como lidar com certos comportamentos das crianças que são inadequados, irritantes ou ambos. O objetivo desse texto é dar algumas sugestões e analisar o comportamento infantil que venho presenciando na atualidade.

O que os pais tem que ter em mente é que não existe um manual "Como Criar seu Filho". Podem até existir livros de autoajuda que falem sobre isso (eu não conheço, mas sei que estão por aí), todavia não podemos tratar o comportamento humano como receita de bolo, muito menos o comportamento de um ser em desenvolvimento. Muitos desses livros não são escritos por profissionais que lidam com o comportamento humano (Psicólogos e Psiquiatras). Desta forma, não irei "dar dicas", mas sim sugestões que pais e educadores podem adotar ou não para buscar compreender o comportamento da criança de acordo com cada contexto.

Antes de mais nada, é indispensável fazer uma breve análise histórica e social para entendermos um pouco o contexto atual. As pessoas mais velhas sempre usam o discurso de que "antigamente bastava meu pai olhar e eu obedecia", ou que "tínhamos medo do nosso pai/mãe então não nos comportávamos mal". Utilizam inclusive o argumento do castigo físico como justificativa para um bom comportamento, "antigamente podia bater, hoje não pode mais, por isso as crianças não respeitam mais os pais" ou "o problema desse menino é falta de peia". São frases de pais de crianças que atendi no consultório e que com absoluta certeza você já ouviu isso em algum lugar (ou mesmo pensou em alguma delas). Analisemos a situação sócio-histórica.

Há vinte, trinta ou mais anos atrás as famílias eram mais numerosas, ou seja, os casais tinham mais filhos, o pai geralmente era o provedor da casa enquanto a mãe tratava de cuidar do lar e dos filhos. Mesmo trabalhando o dia todo o pai estava presente durante a noite e havia algum tipo de contato familiar. Com o passar dos anos, das mudanças político-econômicas e sociais, a mulher foi saindo desse espaço de submissão; agora só o salário do homem não era suficiente para sustentar a família e os casais viam que o excesso de filhos se convertiam em excesso de despesas. O resultado é que muitas famílias passaram a ter menos filhos e que as mães passaram a ter que encarar jornadas de trabalho para complementar a renda. Os filhos passaram a ser cuidados por terceiros (babás, avós ou creches). É esse cenário que pretendo analisar.


A ausência dos pais no ambiente familiar é um fator determinante para o comportamento de qualquer criança. É nos pais que a criança se espelha, que aprende como deve se portar em determinadas situações, que é ensinada a distinguir o que é certo (ou mais adequado para seu contexto) do que não é. Mas e quando os pais trabalham jornadas exaustivas e chegam em casa tarde da noite quando os filhos já estão dormindo, ou tem contato com os filhos durante a semana apenas quando vão buscá-los na escola/reforço/natação etc? As crianças tentam se adaptar a essa ausência e o responsável por aquela educação primária que falamos no começo desse parágrafo fica a cargo de terceiros que nunca vão ocupar a função materna/paterna adequadamente. A criança tenta se adaptar. Ela sabe quem são seus pais, mas nunca os tem por perto, não tem ninguém para frear seus instintos primários, os cuidadores nem sempre exercem autoridade com a criança ou são pacientes. O que acontece? Isso mesmo, reclamações sobre como a criança se comporta mal.

A criança como qualquer ser reage ao que ela experiencia em seu meio. Experienciar a ausência dos pais geralmente não é bom, gera ansiedade e desconforto na criança o tudo o que chamamos de comportamentos negativos são na verdades tentativas da criança a se adaptar aquilo que ela vivencia e sente. Está na moda dizer que as crianças são hiperativas, recebi muitas queixas dessas no consultório e 99% se tratava apenas da ausência dos pais ou na inabilidade deles lidarem com as ações dos filhos. Vamos parar com essa mania de diagnosticar as crianças e chamá-las de hiperativas. Leiam esse artigo meu sobre o tema. 

O leitor então deve estar se perguntando: "Então porque meu filho(a) não para quieto? Porque ele bate e morde os colegas? Porque ele não me obedece? Porque não quer comer? Porque dorme tarde?" A resposta é simples: ausência de pais mais presentes que imponham regras e limites.  Como ser em desenvolvimento pleno, muitas vezes a criança vai agir em cima do seu desejo ou vontade, mas ela não tem a maturidade necessária para saber ainda o que é melhor para ela, por isso a importância dos pais 
nesse processo, pois eles vão direcionar e frear esses desejos.

Assim como a vida em sociedade vivida pelos pais é regida por regras, a vida da criança também deve ser. Se a criança aprende e consegue internalizar essas regras desde pequena isso ajudará não só no seu desenvolvimento pessoal, mas social também. A criança deve ter hora para acordar, dormir, comer, banhar, brincar, estudar. Não precisa ser algo rígido como um quartel, mas deve ser algo que os pais busquem para melhor lidar com seu filho. No momento que os pais aprendem a direcionar a energia da criança ela deixa de ser destrutiva ("o menino danado") para ser construtiva/integradora. Se a criança quebra as regras ela deve ser punida, mas não necessariamente com castigos físicos, ela deve ser ensinada sobre seu erro e orientada a buscar não cometê-lo. A repetição do erro pode custar perdas como forma de castigo (não vai para a casa dos colegas, não vai jogar vídeogame, usar o computador) ou seja, retirar algo importante para a criança para que ela entenda que suas ações negativas terão consequências desagradáveis.

Em algum momento pode ser que isso não seja o suficiente e que um castigo físico seja necessário, como uma chinelada ou uma palmada. Mas não confundam isso com espancamento, por isso a famigerada "Lei da Palmada" foi aprovada, por conta de pais (provavelmente ausentes) que não davam conta do comportamento dos filhos e começaram a agredir os filhos e espancá-los achando que isso resolveria o problema. Pelo contrário, o excesso de castigos físicos, de agressões e espancamento perde o sentido para a criança em algum momento não surte nenhum efeito positivo em seu comportamento, pelo contrário, pode levar a criança a se tornar desde um indivíduo ansioso, deprimido até mesmo violento.


Algumas sugestões que posso passar para pais e educadores são:

- Ouçam a criança. Um grande erro é nunca ouvir o que a criança tem a dizer ou achar que a criança estáa mentindo. Já atendi diversos casos de abuso sexual onde as crianças relataram que os pais não acreditaram no que elas diziam. Embora o exemplo do abuso fuja ao nosso contexto, foi citado para mostrar a importância de se ouvir o que a criança tem a dizer.

- Seja imparcial. Se você tem dois filhos nunca priorize um, nunca facilite as coisas para um deles ou seja mais brando. O que vale para um deve valer para o outro. Se você deu uma ordem ou um castigo para a criança faça ela cumprir a não ser que alguma coisa no contexto mostre que você pode ser flexível naquela vez, mas em geral a criança precisa saber que a mãe nem o pai vai tomar partido por ela. Significa que se o pai colocou o castigo só ele pode retirar e vice versa para a mãe. 

-Pais, evitem conflitos de autoridade na frente da criança. Se forem discutir, discutam longe dela ou de preferência na ausência da criança. É muito ruim quando a criança presencia as brigas dos pais sobre "quem manda nele". Ambos são responsáveis por esse filho e devem compartilhar a responsabilidade. Os limites do comportamento do filho devem ser acordado por ambos.


-A criança tem que brincar, mas é preciso encontrar o equilíbrio entre o brincar e outras atividades. Deixar a criança muito tempo "solta", sem nada para fazer pode ser ruim, ao mesmo tempo que entupir o dia da criança com aula de tudo quanto é coisa também não é adequado. É importante direcionar a criança para atividades lúdicas e produtivas, todavia pelo menos algumas delas devem despertar interesse na criança, ou podem se tornar uma "tortura" e desencadear os comportamentos inadequados 
descritos nesse texto.


-Ter regras e obedecê-las. Toda casa tem regras e deve haver uma cobrança para que sejam seguidas. Se a criança é ensinada desde pequena ela vai internalizar aquele aprendizado e o levará para a vida adulta. Isso vale desde a organização do quarto até os conceitos morais e religiosos.


-Saber punir. A grande dificuldade dos pais de hoje é saber punir. Muitas vezes é mais fácil bater do que conversar, gritar do que explicar. Cuidar de filhos não é fácil, mas quanto menos paciência e educação você der ao seu filho menos paciente e educado ele será. Lembre-se pai/mãe de seu filho é reflexo da forma como você o trata e cuida. Eu sempre aconselho que quando a criança faz algo que não devia você deve alertá-la, chamar sua atenção de forma tranquila. Olhe nos olhos da criança e faça com que ela preste atenção no que você está falando. Seja firme, mas sereno. Se ela volta a cometer a mesma falta ameace o castigo. Se ela repete aplique o castigo (exemplos de castigos foram dados texto acima) e a faça cumprir o castigo e entender porque está sendo castigada. Em último caso se for necessário a palmada/chinelada.

-Brinque com seu filho. Tenha um tempo com ele, converse com ele. Mesmo com o trabalho e a correria do dia a dia tire um tempo para estar plenamente com seu filho. Isso faz toda  diferença. Pergunte a ele da escola, dos amigos, das brincadeiras.


-Nos dias de hoje com o advento da tecnologia as crianças estão tendo acesso mais cedo a dispositivos eletrônicos. Particularmente não acho isso saudável. Não deixe que seu filho fique imerso demais na tecnologia e se isole. Estimule a socialização. Leve ele para interagir com outras crianças fora do ambiente escolar. Socialização infantil é essencial para o desenvolvimento. 


-Saiba elogiar as boas ações do seu filho, assim como você sabe repreender as más. Muitos pais esquecem de elogiar. O elogio fortalece a probabilidade da criança repetir as boas ações, afinal para os pequenos a aprovação dos pais é bastante importante. 


-Evite permutas. "Vou te dar isso se você fizer isso". A criança pode internalizar que tudo que ela vai fazer requer uma recompensa. Ela deve fazer porque é obrigação, porque é o certo ou porque é importante, não porque vai ganhar um bem material.


-Não ponha na escola a responsabilidade pela educação dos seus filhos. Essa responsabilidade é dos pais, a criança vai levar para escola o que aprende em casa e levar para casa o que aprende na escola mas o ambiente primário dela é o lar e é onde ela deve aprender sobre o que é ou não permitido.


Isso não é receita de bolo! São sugestões como disse para que os pais e educadores possam adaptar a sua realidade, porque cada lar, cada família, cada criança tem suas particularidades. Tenham em mente que para cuidar de uma criança e educá-la bem é balancear amor e disciplina: qualquer um desses dois em excesso pode ser prejudicial.

OBS: Já atendi algumas crianças na clínica, hoje em dia não atendo mais esse público, uma vez que os pais são fundamentais nesse processo e a maioria não se implica na terapia, gerando poucos sucessos. Sempre existe o discurso "Mas doutor, eu não tenho tempo". São as escolhas que fazemos. 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

VÍDEO GAMES E VIOLÊNCIA: A FALÁCIA DA MÍDIA


Não é de hoje que casos chocantes de homicídio, suicídio ou assassinato em massa  que chamam a atenção da mídia tem como pano de fundo os vídeo games como vilões, como incentivadores de um comportamento agressivo e caótico nos jovens, dessa forma reacendendo a discussão a respeito da legalidade dos jogos, da classificação etária dos mesmos e de sua influência no comportamento. Meu objetivo nesse artigo é explicar um pouco de como os games influenciam as pessoas e como a violência entra nessa equação.

Primeiramente devemos ter em mente que cada faixa etária tem suas particularidades: enquanto crianças estão formando aspectos centrais da personalidade, adolescentes estão buscando autoafirmar a sua identidade e jovens adultos estão lidando com a passagem da adolescência para a vida adulta. A transição de cada uma dessas fases traz perdas e angústia que são vivenciadas por esses sujeitos em maior e menor grau. Assim, a criança que agora é adolescente tem que dar respostas novas, atendendo a expectativa dos pais, assim como o adolescente que passa para a vida adulta é bombardeado com uma série de responsabilidades novas como faculdade, trabalho, etc. Mas o que isso tem a ver com violência e vídeo games?

Ocorre que nessas fases do desenvolvimento a forma como esse sujeito se relaciona com os pais, com a família e com o mundo vai criar várias possibilidades para ele; é uma série de variáveis que vão afetar seu comportamento, de acordo com sua percepção, de como entende e percebe o mundo. Significa dizer que filhos de pais amorosos tem uma tendência a serem amorosos, serem boas pessoas, mas não é regra, uma vez que o excesso desse amor pode criar permissividades. Assim como filhos de pais negligentes, violentos, ausentes, terão uma tendência a desenvolver esses comportamentos, mas isso não é uma certeza absoluta, vai depender de como esse indivíduo encara essas experiências. Comportamento humano não é determinado, é mutável, são probabilidades, maiores ou menores de que algo se manifeste.

Esse preâmbulo sobre o desenvolvimento humano serve para nos mostrar que, além dos estímulos que nos permeiam, as relações com nossos pais e com nós mesmos também terão um peso em como nos comportaremos no mundo. Serão neuróticos saudáveis.

Vídeo games, filmes, livros, novelas e músicas são formas de expressão, entretenimento e manifestações culturais e artísticas que sempre tem algum tipo de violência, desde a mais explícita a mais velada. Uma música que denigre a imagem da mulher é uma violência simbólica, um livro que fala sobre crimes e mortes é uma violência mais aberta, filmes retratam uma violência muitas vezes crua e jogos eletrônicos simulam diversas situações com ou sem exageros. Todos manifestam alguma violência.

A grande pergunta é: E porque as pessoas não saem todos os dias se matando? Porque pessoas que adoram filmes de terror com desmembramentos e sanguinolência não saem por aí repetindo o que veem (tenho vários amigos que apreciam esse tipo de filme e são tão violentos quanto um bicho preguiça)? Porque não temos milhares de crianças assassinas por aí, já que jogam jogos eletrônicos brutais?

E a resposta é: simplesmente porque entendem que isto é errado, está internalizado em suas psiquês que matar é errado e que sentir desejo por isso é doentio. Essas pessoas sabem diferenciar o que é real do que é fantasia. Filme, jogo de vídeo game, novela, é tudo fantasia. Quando o sujeito passa a ver isso como real ou como possibilidade aí há um problema.  Eu sempre utilizo o exemplo da faca de cozinha, aquela do tipo serrinha de pão. Ela serve pra cortar o pão, passar manteiga ou geléia ou requeijão. Serve pra cortar um bife, uma fruta. Mas pode ser usada para matar. Ela foi criada pela empresa de facas para matar pessoas? Óbvio que não, assim como outros objetos que tem suas funções definidas, mas um ser humano com problemas em sua estrutura da personalidade pode deturpar seu uso/significado e utilizar para matar ou infligir dor ao outro.

Vídeo games, por mais violentos que sejam, são entretenimento, são um passatempo, assim como filmes, novelas, etc. Qualquer ser humano com algum problema psicológico ou algum distúrbio de personalidade latente pode se utilizar dos vídeo games, filmes, músicas para alimentar seus delírios e cometer crimes. O problema é que a mídia sensacionalista sempre procura culpados, sempre quer chamar a atenção culpabilizando alguma forma de entretenimento que aquela pessoa tinha antes de cometer um crime brutal, esquecendo de que antes de jogar o joguinho violento ela pode ter tido relações conflituosas com sua família, algum problema psicológico não diagnosticado. A mídia não tem compromisso com a verdade e sim com chamar a atenção e vender.  A mídia não reflete, apenas joga na sua cara e se você não se limpar e mastigar as idéias vai continuar aceitando muita baboseira que é mostrada como algo real.


Então, senhores pais, tenham mais atenção apenas com o tipo de jogo que seu filho está jogando, ou filme que está assistindo, pois esses produtos vem com classificação etária. Além disso, vamos impor mais limites a essas crianças e adolescentes, pois deixar um jovem jogando games por cinco, seis horas seguidas é um exagero. O problema está nesse exagero e na falta de limites. Pais, não é o jogo violento que vai tornar seu filho um assassino ou uma pessoa cruel, mas sim a forma como você cuida dele, a forma como você se interessa pela vida e pelos problemas pela, a forma como você lida com os erros que ele comete, a forma como você se responsabiliza por ele. É tão mais fácil culpar itens externos, do que se responsabilizar pela maternidade/paternidade. Frisando que mesmo com tudo isso, transtornos psicológicos latentes (que estão lá, mas não se desenvolveram), também podem influenciar esse comportamento violento, sendo os games, filmes e música apenas pano de fundo para justificar um desejo já existente de cometer algo socialmente condenável.

(Violência é causada por vídeo games? Por favor, 
me informe qual jogo as pessoas estão jogando 
por 5000 anos)


ATUALIZAÇÃO!

Recentemente li um artigo interessante que mostra como o vídeo game pode auxiliar no tratamento no déficit de atenção de hiperatividade (TDAH, citado nesse artigo do blog), segue o link do artigo:


domingo, 26 de maio de 2013

Hiperatividade: Não confunda com falta de limites!





Olá amigos, gostaria de falar um pouco para vocês sobre o TDAH, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, um dos diagnósticos mais erroneamente atribuídos a crianças "problema". Tenho tido a oportunidade de observar que chegam muitas crianças na clínica, a maioria encaminhada pela escola, já com o rótulo de hiperativa, tanto dado pela mãe quanto pelas professoras. Mas se a criança não obedece, tem um comportamento bastante ativo, agressivo e inconsequente, como pode isto não ser hiperatividade?

É o que muitas mães e educadores pensam, mas tenhamos em mente que o diagnóstico de TDAH é muitas vezes complexo, requerendo interconsultas e avaliações com vários profissionais pois nem sempre o Psicólogo sozinho é capaz de dar um diagnóstico preciso, sendo em alguns casos a intervenção médica necessária para fazer exames complementares.

Grande parte dos casos que avaliei se mostrava não TDAH, mas outros problemas relacionados a criança e aos pais. Pude constatar que sempre havia alguma deficiência nas relações familiares; por vezes eram fragmentadas, pais separados que ficavam jogando a criança um para o outro sem assumi-la por completo levando a sentimentos de rejeição e dificuldade em estabelecer um referencial para si; netos criados por avós que não sabiam dar limites a essas crianças, sendo permissivos e passivos; filhos de pais com histórico de brigas excessivas ou agressões, alcoolismo; pais ausentes. Todas essas configurações familiares citadas influenciavam no comportamento da criança de modo que ela passa a agir em resposta ao que vivencia no núcleo familiar, manifestando comportamentos indesejáveis na maioria das vezes.




Mas e o tal do TDAH? 

Comportamento impulsivo, dificuldade em terminar alguma atividade, pular de uma atividade para outra num curto espaço de tempo, dificuldade em atender o que lhe é solicitado, são facilmente distraídas por qualquer estímulo, são alguns dos comportamentos característicos de TDAH, mas como foi dito anteriormente é necessária avaliação de um profissional de modo a confirmar o diagnóstico.  

Tem cura esse negócio?

Quando falamos de desordens psicológicas é complicado falar em cura. Muitas são as causas atribuídas ao TDAH, mas existe um consenso de que o componente orgânico é preponderante, Ximenes (2008) afirma algumas hipóteses: Acredita-se que o desequilíbrio neuroquímico nos sistemas neurotransmissores da noradrenalina e da dopamina levaria ao TDAH por baixa produção dessas substâncias ou por sua subutilização.


Ou a disfunção do lobo frontal, responsável pela atenção, controle do impulso, organização e atividade continua dirigida ao objetivo, ocorreria por uma perturbação dos processos inibitórios do córtex e por  hipoperfusão do córtex frontal.

Existe uma associação do TDAH com hipóxia perinatal e neonatal, traumas obstétricos, rubéola intra-uterina, encefalite, entre outros.

Os fatores que interferem no desenvolvimento e curso do transtorno são o estilo de criação, a personalidade dos pais e fatores sócio-emocionais. Perdas e separações precoces também são apontadas.

O tratamento é feito com psicofármacos e psicoterapia infantil, geralmente se estendendo até a adolescência que é quando o paciente aprende melhor a lidar com sua impulsividade e com a realização de atividades frente a vários estímulos. Devemos ter em mente também que a participação da família é fundamental nesse processo para um aproveitamento melhor do tratamento, para que a família entenda que a criança não é assim porque ela quer, mas porque sofre de TDAH e não consegue controlar seus impulsos.

Mas e se meu filho não tem TDAH? Isso fica para outro artigo, onde discutiremos a ausência de limites na criação dos filhos e a falência da função paterna.

Continuem enviando suas dúvidas para o e-mail: leonardobozzano@hotmail.com





Fontes: 

CID -10 - Classificação dos transtornos mentais e de comportamento da CID 10: Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas - Organização Mundial de Saúde, trad. Dorgival Caetano, Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

DSM IV- Critérios Diagnósticos do DSM-IV, 4a ed, Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.


ATUALIZADO:
Vídeo game sendo utilizado para trabalhar crianças com TDAH:
http://agencia.fapesp.br/17888