quinta-feira, 15 de setembro de 2016

ENTREVISTA: Suicídio na adolescência: "É necessário dialogar com o filho", afirma psicólogo

Segue um trecho da entrevista que dei para o Jornal O Povo acerca do suicídio na adolescência.

O suicídio cresce entre os jovens em todo o mundo. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), ele é a segunda maior causa de mortes em pessoas entre 15 e 29 anos, antecede acidentes de trânsito, seguido do HIV e violência. Ainda que complexo, ele pode e deve ser prevenido. É o que explica ao O POVO Online o psicólogo Leonardo Martins .

Leonardo aponta que o aumento alarmante do comportamento entre adolescentes, além de doenças psicológicas, pode ser atribuído a diminuição dos contatos sociais, e com mais intensidade a desestruturação dos núcleos familiares.
O profissional enfatiza a importância do diálogo como forma de prevenção. “Os pais podem perceber algo através do diálogo, não só através do comportamento. Embora a adolescência seja um período conturbado, algumas vezes é parte da fase, mas outras não. Para diferenciar, é necessário dialogar com o filho, saber como ele está na escola, o que se passa”.
Ele alerta sobre a força que o bullying tem no Brasil, orientando os pais a serem participativos e acessíveis, já que muitos jovens pensam que não tem a quem recorrer, e o ensino público e privado, muitas vezes, não estão preparados para lidar com a situação.
Abordando a temática na infância, o profissional diz que é possível que uma criança pense em atentar contra a vida, mas que depende da idade, já que ela pode não ter noção exata da morte. “Algumas crianças podem achar que podem morrer e voltar, achar que a morte é abstrata. Vai depender do contexto cultural em que está inserido”.
Leonardo descreve as três fases do comportamento suicida: "a ideação, o planejamento e a execução". Desde o primeiro momento, é importante que a pessoa ou familiar procure ajuda. Ele aponta que a liberdade na internet, com diversos grupos de pessoas com esse perfil, ou até mesmo ideias de como passar para a terceira fase, de execução, é perigoso para quem se encontra em um momento de fragilidade.
Matéria completa em:
http://mobile.opovo.com.br/noticias/brasil/2016/09/setembro-amarelo-nao-e-papo-de-adolescente-e-papo-de-familia.html

terça-feira, 6 de setembro de 2016

QUAL A DIFERENÇA DE CONVERSAR COM UM PSICÓLOGO E COM UM AMIGO?

Muitas pessoas se perguntam como um psicólogo pode ajudá-las apenas "conversando", e isto é, inclusive, um questionamento que alguns pacientes me fizeram na primeira consulta. Então resolvi escrever um pouco acerca disso para clarear mais esse tema.



Conversar com um amigo é muito bom e saudável, ajuda a manter relações sociais, faz você sentir que pode confiar em alguém, auxilia a dividir o fardo dos problemas que você carrega. Mas estou falando de um amigo verdadeiro, aquele que aceita você, que fala sobre o que não concorda em suas atitudes, que te dá o ombro quando você precisa. Mas o amigo vai te dar a opinião dele, o amigo nem sempre vai concordar com você, o amigo pode (e geralmente vai) te julgar moralmente, por mais que seja uma amizade longa e estabelecida. Não que tais atos sejam ruins, tente pensar além dessa dualidade de bem e mau, mas é uma questão de atitudes humanas.


QUAL O DIFERENCIAL DO DIÁLOGO COM UM PSICÓLOGO?

Como eu disse anteriormente muitos acreditam que o psicólogo é um profissional que apenas "joga conversa fora" com o paciente. Isso é uma percepção completamente equivocada a respeito do trabalho do psicólogo. Primeiro porque o curso de Psicologia não é fácil, são pelo menos cinco anos para se formar, fora os cursos de aperfeiçoamento e extensão. O psicólogo estuda antropologia, filosofia, sociologia para entender as relações humanas, estuda desenvolvimento, psicologia infantil para entender os processos de aprendizagem, estuda neuroanatomia e neurofisiologia para entender como o cérebro funciona e como controla os processos fisiológicos, estuda diversas teorias psicológicas e psicopatologias para entender os desvios comportamentais e tratá-los. 

Além de todo esse estudo, o psicólogo, assim como todo profissional de saúde, tem que estar estudando constantemente para acompanhar os avanços da ciência e ampliar seu conhecimento. Geralmente os psicólogos fazem cursos de formação onde se aprofundam numa teoria específica, fora a pós-graduação que agrega novos conhecimentos e mestrados e doutorados. O bom psicólogo é um eterno estudante. 

Durante o atendimento o psicólogo aprende a fazer as perguntas certas, de modo a explorar o problema do paciente da melhor forma possível, de modo que ao mesmo tempo que está fazendo perguntas está pensando nas estratégias para tratar a situação, e está elaborando novas perguntas, tudo ao mesmo tempo! O psicólogo tem que pensar rápido e várias coisas ao mesmo tempo. Não existe uma receita de bolo, então as estratégias geralmente são criadas a partir do problema e da individualidade de cada paciente, apesar de existirem algumas que sejam comuns mas devem ser sempre adaptadas a cada situação. Logo o bom psicólogo é criativo e um excelente estrategista.

Ouvir relatos dos pacientes, a famosa "conversa" que os leigos chamam, não é uma tarefa simples. imagine você passar o dia inteiro escutando horas de diálogo, de sofrimento e dor, estórias pesadas, tristes, cheias de angústia. Ouvir isso durante o dia todo faz com que ao final do dia nosso corpo e nossa mente estejam fadigados. O psicólogo se treina para suportar esses conteúdos negativos, ele mesmo deve fazer terapia para não misturar seus problemas com os do paciente e aprender a lidar com esses conteúdos negativos. Logo, o psicólogo se torna o depósito de todo conteúdo negativo do paciente e deve saber lidar com isso para não carregar isso para casa e deixar que isso afete sua vida. 

Então meus amigos, podemos ver que não é fácil ser psicólogo. É, em nosso país uma profissão ainda cheia de estigmas, pois ainda existe no senso comum a ideia de que só quem vai para o psicólogo é "doido", quando na verdade o psicólogo pode atender pessoas com e sem transtornos mentais. A Psicologia tem uma importância enorme, porque ninguém está a salvo de passar por uma situação difícil, de desenvolver um problema psicológico ou um transtorno sério. Nem o próprio psicólogo. E ainda assim é uma profissão pouco valorizada. Entretanto o maior valor, pelo menos para mim é o bem estar dos meus pacientes, quando eles melhoram ou resolvem a situação que os levaram para o consultório e dizem o quanto fui importante para eles, para ajudá-los e compreendê-los. 







terça-feira, 30 de agosto de 2016

O QUE É EUTANÁSIA, ORTOTANÁSIA, DISTANÁSIA E SUICÍDIO ASSISTIDO?

Existe muita desinformação e controvérsias acerca do direito de escolher a própria morte, em determinadas circunstâncias. Vamos então tentar esclarecer pontos importantes dessas condutas.



A morte sempre foi e sempre será um tema muito presente em relação a condição humana, não apenas por ser uma certeza absoluta da vida, mas também por todo mistério e tabu que a cercam. Diversos pensamentos filosóficos e religiosos buscam explicar a morte e dar sentido a vida humana, ao passo que a própria morte, em determinados momentos históricos e culturas, acaba se tornando um tabu. Com o avanço da medicina, prolongar a vida foi possível através da descoberta de vacinas, antibióticos e do tratamento de muitas doenças simples, na medida em que outras doenças mais sérias e incuráveis começavam a se expandir. Vencemos a varíola e a tuberculose, a poliomielite, mas fomos surpreendidos pelo HIV, pelo aumento nos casos de câncer, e não conseguimos vencer ainda as doenças degenerativas como a doença de Huntington, Parkinson e Alzheimer, assim como as doenças genéticas. Então surge uma tentativa de minimizar a dor causada por essas enfermidades, uma forma de aliviar o sofrimento do paciente. Não entrarei aqui no discurso moral ligado a certo e errado, o propósito desse texto é ser informativo. 

EUTANÁSIA, ORTOTANÁSIA, DISTANÁSIA E SUICÍDIO ASSISTIDO


Desde cedo, o acadêmico de medicina é moldado para enxergar a morte como “o maior dos adversários”, o qual deverá ser impiedosamente confrontado e vencido graças ao avanço da ciência, da tecnologia ou mesmo da competência individual. A morte de um paciente muitas vezes é, real ou simbolicamente, o atestado de falha, de que em algum ponto algo deu errado e não foi possível salvar o paciente. É, sem sombra de dúvida, uma carga de responsabilidade e estresse para o médico realmente compromissado com a missão de salvar vidas e garantir o bem estar de seus pacientes. Mas em algum momento a morte sempre sai vitoriosa e quando o médico sabe que esse momento vai chegar, é possível que ele possa cuidar de seu paciente apenas garantindo que sofra menos e viva seus últimos momentos de forma digna até sua partida. 

Justamente, o termo eutanásia é oriundo do grego, tendo por significado boa morte ou morte digna. Etimologicamente eutanásia, significa "morte boa" (eu = bom/boa; thánatos = morte) ou "morte sem grandes sofrimentos". 

"Foi usado pela primeira vez pelo historiador latino Suetônio, no século II d.C., ao descrever a morte “suave” do imperador Augusto: A morte que o destino lhe concedeu foi suave, tal qual sempre desejara: pois todas as vezes que ouvia dizer que alguém morrera rápido e sem dor, desejava para si e para os seus igual eutanásia (conforme a palavra que costumava empregar) (Suetônio, 2002). Séculos depois, Francis Bacon, em 1623, utilizou eutanásia em sua Historia vitae et mortis, como sendo o “tratamento adequado às doenças incuráveis”(apud Jiménez de Asúa, 1942)"

Existem alguns tipos de eutanásia, trago a definição de Neukamp (1937):

  •  Eutanásia ativa, ato deliberado de provocar a morte sem sofrimento do paciente, por fins humanitários (como no caso da utilização de uma injeção letal);

  •  Eutanásia passiva, quando a morte ocorre por omissão em se iniciar uma ação médica que garantiria a perpetuação da sobrevida (por exemplo, deixar de se acoplar um paciente em insuficiência respiratória ao ventilador artificial);

  • Eutanásia de duplo efeito, quando a morte é acelerada como consequência de ações médicas não visando ao êxito letal, mas sim ao alívio do sofrimento de um paciente (por exemplo, emprego de uma dose de benzodiazepínico para minimizar a ansiedade e a angústia, gerando, secundariamente, depressão respiratória e óbito).



Já Martin, (1998) entende a eutanásia da seguinte forma:

  • Eutanásia voluntária, a qual atende uma vontade expressa do doente – o que seria um sinônimo do suicídio assistido;

  • Eutanásia involuntária, que ocorre se o ato é realizado contra a vontade do enfermo – ou seja, sinônimo de “homicídio”;

  • Eutanásia não voluntária, quando a morte é levada a cabo sem que se conheça a vontade do paciente.


De acordo com as Leis do nosso país a eutanásia é vista como homicídio, mas em países como Suíça, Bélgica e Holanda é considerada uma prática comum. Segue um vídeo que mostra um exemplo de eutanásia, de uma mulher que sofria com uma doença dolorosa mas não-letal e mesmo assim optou por morrer.





Ortotanásia é deixar que o paciente siga seu caminho natural para a morte sem aumentar-lhe a vida de forma artificial, ou seja, apenas o acompanhamento para que a morte seja menos sofrível possível e de forma natural. Alguns pacientes, em países europeus e nos EUA, por exemplo, tem ordens de não ressuscitação em caso de parada cardio-respiratória, o que abrevia sua existência e impede os esforços médicos de mantê-lo vivo.

Temos ainda a Distanásia, cujo primeiro significado veio em 1904 por Morcache, para caracterizar uma agonia prolongada que origina uma morte com sofrimento físico ou psicológico do indivíduo lúcido. O termo é bastante utilizado hoje na intenção de designar a forma de prolongar a vida de modo artificial, sem perspectiva de cura ou melhora (Pessini, 2001). Pessoas em estado vegetativo que vivem através de aparelhos são um exemplo de distanásia. 

Outro conceito que é confuso, o suicídio assistido (também chamado de morte assistida) é quando uma pessoa solicita o auxílio de outra para morrer, caso não consiga matar-se por si mesma. No suicídio assistido o paciente está consciente e verbaliza seu desejo de morrer, enquanto que na eutanásia, nem sempre o paciente está consciente. Um exemplo disso seria um paciente em coma, mantido vivo com ajuda de aparelhos. Nesse exemplo a eutanásia seria então autorizada por um membro da família.



Referências:

SIQUEIRA-BATISTA, Rodrigo. SCHRAMM, Fermin Roland. Eutanásia: pelas veredas da morte e da autonomia. Ciência & Saúde Coletiva, 9(1):31-41, São Paulo, 2004.

PESSINI, L. Distanásia. Até quando prolongar a vida? São Camilo-Loyola, São Paulo, 2001.

Martin LM. Eutanásia e distanásia, pp 171-192. In SIF Costa, G Oselka & V Garrafa (orgs.). Iniciação à bioética. Conselho Federal de Medicina, Brasília. 1998.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

O QUE É DEPRESSÃO PÓS-PARTO

Existem muitos mitos e desinformação aceca da depressão pós parto, uma condição que afeta muitas mulheres e que é muitas vezes mal diagnosticada, o tratamento nem sempre é o correto e há riscos para a mãe e para o bebê. Falaremos um pouco disso no artigo de hoje.


O QUE É A DEPRESSÃO PÓS PARTO?

A gravidez é um processo natural, bastante desejado por algumas mulheres que tem o desejo de ser mãe, mas que pode gerar muitas fantasias, medo e angústias, mesmo a mulher tendo todo suporte do seu companheiro e da família. Questionamentos como "será que vou dar conta?", "vou ser uma boa mãe?" podem criar no imaginário dessa mãe uma cacofonia de pensamentos desencadeando ansiedade e enfraquecendo sua auto confiança. 

A depressão pós-parto ou DPP é um problema de saúde pública e ocorre, em geral,  nas primeiras quatro semanas após o parto, podendo se estender e atingir o ápice alguns meses depois. Os sintomas mais comuns apresentados por essas mulheres são desânimo, sentimentos de culpa, alterações do sono, ideias suicidas, medo/desejo de machucar o filho, alteração do apetite e diminuição da libido. Saber diferenciar sintomas depressivos e “sequelas normais” de dar à luz, como as alterações no peso,
sono e energia é um desafio que torna mais complicado ainda o diagnóstico clínico. 

Segundo Ruschi, Sun, Mattar, Filho, Zandonade, Lima: 
"... menos de 25% das puérperas acometidas têm acesso ao tratamento, e somente 50% dos casos de
depressão pós-parto são diagnosticados na clínica diária." 

Significa dizer que ainda existe um contingente de mulheres que não se tratam, por diversos motivos, desde falhas na rede de encaminhamento até carência de locais com atendimento especializado, assim como existe uma dificuldade em diagnosticar o problema por parte dos profissionais de saúde. 

Alguns fatores psicossociais são associados a DPP, tais como baixa escolaridade, baixo nível econômico, baixo suporte social, histórico de transtorno psiquiátrico, baixa auto estima, stress, abuso de drogas, ansiedade pré-natal, gravidez não planejada, tentativa de interromper a gravidez, sentimentos negativos em relação à criança. Não significa que toda mulher que tenha DPP apresente todos esses fatores, mas que eles podem favorecer o surgimento da DPP. Mesmo assim, é possível uma puérpera com apenas um ou dois fatores de risco desenvolver DPP. 

Estudos epidemiológicos demonstram que a prevalência da DPP na população geral é de 10% a 20%, e em mães adolescentes adolescentes dos 14 aos 18 anos de idade essa taxa sobe para 26% (Troutman & Cutrona, 1990).

"A relação entre o período do pós-parto e as perturbações psiquiátricas foi reconhecida há cerca de 2000 anos atrás. Curiosamente, a primeira descrição de um caso de perturbação mental no pós-parto foi feita no século XVI por um médico Português, João Rodrigues de Castelo Branco, que na altura exercia em Roma ('de uma mulher que ao dar à luz se tornava melancólica e louca’) (Brockington, 1996, p.166)"

Existe ainda a psicose puerperal, que é quando a paciente apresenta sintomas de alucinações, delírios e perda de insight, rápidas oscilações do humor que podem incluir alternância entre humor deprimido e elevado ou irritabilidade, insonia ou pensamentos obsessivos. Estima-se que mais de 5% das mulheres possam cometer suicídio e que 2-4% representam um risco direto considerável para os seus
bebés (Knopps, 1993). Estudos têm mostrado que a maioria das mulheres com Psicose Puerperal
preenche os critérios para perturbação bipolar (Kendell et al., 1987; Kumar et al., 1995).

O parto é um dos fatores preponderantes no desencadeamento dos episódios bipolares, em mulheres vulneráveis (Brockington, 1996). Muitos estudos revelam que aproximadamente 65% destas irão sofrer episódios psicóticos subsequentes não puerperais (Benvenuti et al., 1992). Cerca de dois terços irão ter recaídas em gravidezes futuras. Contudo, comparativamente às mulheres que têm episódios de psicose não puerperal, as que sofrem de PP têm uma menor probabilidade de serem readmitidas em hospitais psiquiátricos e quando readmitidas a duração do internamento é menor (Platz & Kendell, 1988), sugerindo um melhor prognóstico. A PP costuma remitir após algumas semanas de tratamento.

Uma mulher com depressão pós parto ou psicose puerperal está sujeita a diversos riscos, dos quais podemos destacar suicídio, auto agressão, agressão ao bebê, dificuldade em cuidar da criança e de si mesma, incapacidade para voltar as atividades cotidianas. Desta forma é de suma importância que essa paciente esteja sempre acompanhada por alguém da família que possa dar suporte, jamais deixando-a sozinha.

O risco de suicídio é um dos maiores problemas deste quadro, portanto as orientações acerca de pacientes potencialmente suicidas se aplicam aqui, mesmo que não haja nenhum indício ou manifestação de comportamento suicida. Evitar que a pessoa tenha acesso fácil a cordas, instrumentos perfuro-cortantes, medicamentos, venenos e substâncias químicas, janelas abertas. Existem muitos casos relatados de suicídio de puérperas que não deram sinais da ideação e cometeram o ato por impulso, desta forma é preciso estar sempre atento e ter cuidado redobrado com estas pacientes.

TRATAMENTO E PROGNÓSTICO

O tratamento é feito através de medicação prescrita pelo psiquiatra e psicoterapia realizada por um psicólogo. O psicólogo irá tirar as dúvidas dos familiares, fornecer as orientações necessárias à família e ajudar a paciente a suportar esse período tão difícil. Já a medicação tem papel de amenizar os sintomas, auxiliar no controle da ansiedade, da angústia, da falta de sono e apetite, da apatia e/ou da agitação. Quando bem diagnosticado e tratado da forma correta o prognóstico é muito bom, no caso da DPP, em geral alguns meses após o início do tratamento a paciente começa a ter uma remissão dos sintomas. Com relação a Psicose Puerperal isso varia muito, depende muito de cada caso. É fundamental que a paciente seja sempre assistida pelos profissionais.

Temos que ter em mente que a mulher não escolhe estar assim, de forma alguma, é uma ignorância tremenda pessoas que culpam a paciente pelo seu estado. Existem fatores biológicos e psicossociais ligados a esse quadro, então é preciso que haja um entendimento de que é uma doença e que precisa ser tratada. Falo isso porque muitas pessoas não buscam o tratamento, acham que é besteira ou que imaginam "isso vai passar". Se essas pessoas falassem com um profissional e fossem devidamente diagnosticadas precocemente poderia se evitar muitas fatalidades.




Referências:

MORAESA, Inácia Gomes da Silva. PINHEIRO, Ricardo Tavares. SILVA, Ricardo Azevedo da. HORTA, Bernardo Lessa. SOUSA, Paulo Luis Rosa. FARIA, Augusto Duarte. Prevalência da depressão pós-parto e fatores associados. Rev Saúde Pública, 2006;40(1):65-70. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rsp/v40n1/27117.pdf/> Acesso em: 02/08/2016.



RUSCHI, Gustavo Enrico Cabral. SUN, Sue Yazaki. MATTAR, Rosiane. FILHO, Antônio C. ZANDONADE, Eliana. LIMA, Valmir José de.  Aspectos epidemiológicos da depressão pós parto
em amostra brasileira. Rev Psiq 03. 2004.  Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/rprs/v29n3/v29n3a06> . Acesso em: 02/08/2016.


MAIA, Berta Maria Marinho Rodrigues. Perfeccionismo e depressão pós-parto. Tese de Doutoramento. Faculdade de Medicina de Coimbra, Portugal, 2011. Disponível em: <https://eg.sib.uc.pt/bitstream/10316/18179/1/Tese%20doutoramento_Berta%20Rodrigues%20Maia_pdf.pdf>. Acesso em: 02/08/2016.

BALONE, G. Depressão Pós-parto. Disponível em: <http://www.cemp.com.br/textos.php?id=40>. Acesso em: 02/08/2016.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

SUICÍDIO ENTRE JOVENS: 'OS PAIS NÃO DIALOGAM COM SEUS FILHOS'

Gostaria de deixar aqui o link para uma entrevista que forneci para um portal sobre psicologia. A entrevista é acerca do suicídio, um tema importante que deveria ser mais abordado e que deveria ter mais atenção das autoridades. Segue o início da entrevista.



"Uma jovem de 19 anos transmitiu ao vivo seu suicídio, quando decidiu se jogar na frente de um trem. O que leva uma pessoa a fazer algo assim? Psicólogos falam de falta de diálogo e apoio."

Se você nunca teve que lidar de forma direta com o problema do suicídio na sua família, seguramente conhece alguém (que conhece alguém) que sim. Os casos podem acontecer em diferentes faixas etárias e nunca são fáceis de assimilar e superar.
Também estão as histórias que ganham repercussão nas mídias e redes sociais, gerando comoção e abrindo o debate para outras questões, como falta de controle sobre o que é divulgado, a responsabilidade de quem reproduz a notícia e o efeito que pode provocar em quem está passando por problemas similares.
Em maio, uma jovem francesa de 19 anos usou um aplicativo de celular para transmitir ao vivo seu suicídio, gravando quase 30 minutos de imagens que terminaram com ela se jogando na frente de um trem, na cidade de Égly, a 40km de Paris.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 800 mil pessoas se suicidam por ano no mundo inteiro. E é importante lembrar que, para cada caso efetivado, há várias tentativas não consumadas, o que agrava ainda mais as estatísticas. Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a segunda principal causa de morte, segundo dados de 2012.
Os números servem para evidenciar a gravidade do tema, considerado pela OMS como um grave problema de saúde pública. Por trás de cada número há uma história de vida, marcada por uma trajetória de sofrimento e, muitas vezes, incompreensão.
O que leva uma pessoa a cometer suicídio? O que está por trás de casos como o da jovem francesa? Como ajudar quem está numa situação de risco? Convidamos dois psicólogos, Leonardo Viana de Vasconcelos Martins e Maitê Hammoud, para responder algumas perguntas sobre o tema. Confira suas entrevistas agora.


http://br.mundopsicologos.com/artigos/suicidio-entre-jovens-os-pais-nao-dialogam-com-seus-filhos

sexta-feira, 18 de março de 2016

COMO SABER SE O PSICÓLOGO QUE ESCOLHI É UM BOM PROFISSIONAL?

Recentemente uma paciente de outro estado me procurou porque leu meu blog que falava sobre seu atual problema e num simples contato por e-mail ela achou que eu tinha mais conhecimento/ competência do que o profissional psicólogo que ao qual ela se consultava. Segundo ela "ele só fazia perguntas sexuais, era psicanalista". Eu expliquei a ela o problema dela, como era o tratamento caso realmente fosse o diagnóstico e dei os devidos encaminhamentos. Ela sentiu mais confiança numa pessoa que não conheceu pessoalmente do que no profissional ao qual fazia acompanhamento e isso me fez ter a ideia desse texto. Como saber se o psicólogo que eu escolhi para me ajudar é um bom profissional?


É preciso ter em mente que em qualquer profissão podemos nos deparar com profissionais mal formados, despreparados ou mesmo muito inteligentes, mas com pouca (ou nenhuma) competência para seguir aquela carreira. Como trabalho na saúde, escuto muitos relatos de pacientes queixando-se do tratamento que recebem dos médicos. Nesses relatos há queixa de falta de humanidade no atendimento, "o médico nem me olhou, nem me examinou, fez umas perguntas e foi passando uma receita", do descaso e até da rispidez "Doutor, eu continuo sentindo dor" e o médico responder "Não posso fazer nada". Fico inclusive curioso para entender como esses médicos são formados, o que é passado sobre como atender um paciente. A pessoa não é uma doença e muito menos um prontuário ou pedaço de carne. Um paciente doente é uma pessoa em sofrimento com toda uma história de vida e deve ser acolhida e respeitada. Infelizmente isso não ocorre na prática.

Em psicologia não e muito diferente. Já soube de muitos absurdos e essas pessoas continuam por aí promovendo não um tratamento sério, mas um embuste ao paciente leigo que muitas vezes não faz ideia de que está sendo enganado. Assim como na Medicina, a Psicologia também lida com vidas, uma psicoterapia mal executada, a falta de preparo do psicólogo e o fato do mesmo nunca ter feito terapia para lidar com seus próprios conflitos pode sim causar danos irreparáveis a um paciente que esteja fragilizado, ou que tenha propensão ao suicídio. 


Outro exemplo comum, não menos repugnante, são os psicólogos que se aproveitam da fragilidade do paciente para seduzi-los e ter aventuras sexuais. Psicologia é uma ciência que estuda o comportamento humano, as patologias mentais, as dificuldades das relações interpessoais. Então se o seu psicólogo sugere uma "massagem" para você relaxar alguma coisa está errada. Esse tipo de atitude além de ser antiética, é imoral e mancha toda uma categoria. Existem alguns tipos de terapia que podem envolver o toque, mas isso é explicado e existe um contexto clínico. 

O bom terapeuta percebe quando a terapia está muito erotizada e caso não consiga reverter a situação ele deve encaminhar o paciente para outro profissional. Você pode estar se perguntando "mas e se eu me apaixonar pelo terapeuta e ele por mim?" Nesses casos, se ambos decidirem manter um relacionamento sério, o tratamento com esse profissional chega ao fim e, deve ser continuadonão deve se relacionar afetivamente com seus pacientes, não deve se envolver sentimentalmente com eles, uma vez que isso compromete todo trabalho terapêutico e pode ter consequências catastróficas. vou dar um exemplo disso. 
caso haja necessidade, por outro psicólogo. O que quero deixar bem claro aqui é que o psicólogo profissional


Imagine que a moça vai ao psicólogo para trabalhar seus sentimentos de baixa autoestima porque foi rejeitada pelo namorado e tem um histórico de rejeição na família. Eis que nesse momento onde ela se encontra fragilizada ela se sente atraída pelo psicólogo e este, pela sua incompetência ou qualquer que seja o motivo (injustificável), se envolve com ela, eles se beijam, fazem sexo, trocam mensagens. É então que esse psicólogo, que via isso como uma aventura, decide "terminar" com a paciente.  A paciente com histórico de rejeição, sentimentos de baixa estima e deprimida não suporta e comete suicídio. É plenamente possível. A seguir, deixo algumas dicas para ajudar o paciente leigo a reconhecer um bom terapeuta.


  • Pergunte acerca da formação desse profissional, que tipo de casos ele atende, onde ele se formou, que tipo de trabalho desenvolve, qual sua experiência. Isto lhe ajuda a conhecer um pouco do lado profissional e técnico do profissional.
  • Se possível, busque informações sobre o terapeuta com outros pacientes atendidos por ele ou em instituições onde ele trabalha. 
  • Sempre pergunte sobre o seu tratamento, diagnóstico ou qualquer dúvida que surja durante a terapia. Muitas pessoas tem vergonha, medo ou acham que isso é desnecessário. Não é. Quanto mais você souber sobre isso, melhor.
  • Desconfie de qualquer situação estranha na terapia, questione os objetivos do que o terapeuta propõe e peça para que ele informe como aquele procedimento pode ser útil com você.
  • O tratamento psicológico é baseado na conversação, e na aplicação das orientações fornecidas pelo profissional. Qualquer coisa que vá além disso questione. 
  • Qualquer tentativa de contato físico, troca de fotos ou mensagens é estranho. Desconfie. 
  • Mesmo que o terapeuta siga o código de ética isto não faz dele um bom profissional. Falta de conhecimento técnico pode tornar a terapia um processo sem resultados. Caso não sinta melhora no seu problema, depois de algum tempo em terapia, converse com seu terapeuta sobre isso. 
  • É preciso ter confiança e empatia com o profissional que você escolheu para lhe tratar. Sem isso, a terapia pode ficar estagnada. Caso não se sinta à vontade com o psicólogo que escolheu ou não se sinta confiante nada te impede de procurar outro profissional. Não insista em algo que não está te dando retorno.
  • Por fim, existem muitas abordagens psicológicas, assim como a medicina tem suas ramificações, e determinados problemas às vezes necessitam de uma abordagem específica. Como saber que tipo de abordagem pode tratar seu problema? Pergunte ao seu terapeuta ou ao Conselho de Psicologia da sua região.

Uma última observação. O tratamento psicológico geralmente é uma jornada demorada e difícil, muitas vezes requer tempo e investimento do paciente na sua melhora, logo a responsabilidade também é do paciente em seguir as orientações do profissional. A melhora dos sintomas, do problema que o paciente está vivenciando nem sempre vem rapidamente, porque a conscientização do comportamento e a mudança de atitude são processo lentos, na maioria das vezes. 

Caso você sinta que algo está errado ou que o paciente está indo além da terapia realizando práticas inadequadas denuncie. Além de te prejudicar ele provavelmente já prejudicou outro e irá prejudicar muitos. Busque o conselho de psicologia que contemple sua região, é fácil achar na internet, e se informe sobre o que está acontecendo e faça a denúncia. Só assim poderemos extirpar os profissionais antiéticos do meio e permitir que as pessoas tenham atendimento de qualidade. 

Espero que essas dicas tenham ajudado, me ponho a disposição para qualquer dúvida, crítica ou sugestão.  

quinta-feira, 10 de março de 2016

MEU FILHO NÃO ME OBEDECE, O QUE EU FAÇO?

O título desse post refere uma pergunta constante que me fazem no consultório, algo que perpassa a grande maioria dos pais na atualidade, que não sabem como reagir ou reagem de formas ineficientes com seus filhos que apresentam comportamentos "inapropriados".

A primeira coisa que os pais tem que entender é que a criança é um ser em desenvolvimento que absorve e reproduz os comportamentos ou situações que vivencia. Um exemplo prático é que se você fala palavrão em casa, o pequeno naturalmente vai falar esse palavrão em algum momento, porque a imitação/reprodução faz parte do aprendizado.. Os pais parecem esquecer que uma criança não tem a mesma maturidade emocional e intelectual que um adulto, e por isso deve ser orientada constantemente sobre o que é certo e o que é errado. Daí chegamos no problema do nosso modo de vida moderno onde as funções de educação e orientação, em geral, são transferidos para terceiros: escola, babá, avós. Os pais tem que trabalhar, afinal criar um filho gera muita despesa, e o ritmo de trabalho diminui o tempo de contato com os filhos. Esse distanciamento gera uma série de sentimentos conflitantes na criança, que geralmente exibe o que os analistas do comportamento chamam de variabilidade comportamental, uma expressão de atitudes diferentes. É o que as pessoas definem como criança inquieta, travessa. Na grande maioria das vezes o mau comportamento de uma criança é reflexo de um ambiente no qual algo está faltando para aquela criança, seja educação, limites ou atenção dos pais.


O QUE FAZER QUANDO MEU FILHO NÃO OBEDECE?

Não existe uma cartilha ou conjunto de regras para lidar com isso, porque as situações são as mais variadas possíveis, embora a queixa seja semelhante, a de que seu filho não te respeita e desobedece você. O que vou falar a seguir são algumas orientações, atitudes simples que podem melhorar muito essa relação.


  • Estabeleça mais contato com seu filho, olhe sempre nos olhos dele quando falar algo importante, fale próximo dele, diminua a distância. 
  • Nunca ponha seu filho de castigo sem motivo e sempre deixe claro quando ele fizer algo indevido.
  • Tenha regras na casa. Crianças precisam se acostumar com regras, portante é interessante que elas tenham horário para tomar banho, dormir, estudar, comer.
  • Evite contradizer suas próprias regras. Ser rígido demais não é bom, mas ser liberal demais é igualmente desaconselhável. Procure sempre equilibrar as coisas. Evite abrir exceções para essas regras o tempo todo. Ex: Dormir mais tarde uma vez porque está vendo um filme/jogando vídeo game, mas que isso não se torne rotina. 
  • No caso de irmãos, evite favorecer um, as regras devem valer para todos de forma mais igualitária possível.
  • Passe ensinamentos morais, deixe claro o certo e o errado. Quando mais nova a criança, mais simples deve ser a explicação, conforme eles crescem você pode dar mais detalhes e exemplos.
  • Brinque com seus filhos, converse com eles, abrace, beije. O carinho é um grande alimento para a formação dos pequenos.




Para finalizar, vou citar um caso que atendi uns anos atrás. Era uma mãe jovem que chegou com a filha de 3 anos, muito desesperada porque sua filha estava com tricotilofagia. Nesse transtorno mental a pessoa desenvolve uma compulsão por arrancar seu cabelo e engolir. O cabelo não é digerido pelo suco gástrico no estômago, depois de um tempo existe uma bola de cabelo alojada no estômago da pessoa que deve ser retirada através de cirurgia. É um transtorno que eu só havia visto em adultos. Naquele dia era uma criança de 3 anos que sofria com isso. Depois de entrevistar a mãe e a criança eu percebi o quão tumultuada era a relação delas. Mãe solteira, tinha que trabalhar e cuidar da filha. Brigava com a menina, agredia ela muitas vezes sem motivo, descontando suas frustrações na criança. Durante a terapia tratei mais a mãe do que a filha, orientando, dando suporte que ela não tinha da família, todos a culpavam pelo fracasso de ser mãe solteira. Depois de um tempo, ela parou de descontar na filha aquela raiva do mundo, de ter sido abandonada pelo companheiro, de não ter um bom emprego e de ser criticada pela família, Passou a brincar mais com a filha, a conversar mais com ela, a passear e a dar afeto. Naturalmente, a menina não mais arrancou os cabelos e cessou o comportamento nocivo. Neste caso específico não foi necessária nenhum tipo de medicação, apenas terapia. A mãe me agradeceu muito ao final do tratamento e não mais retornou para atendimento psicológico comigo.