quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Psicologia, Cinema e Pipoca #8: Melhor É Impossível

Olá, depois de um tempo sem indicar filmes aqui, venho apresentar essa pérola do final dos anos 90. Trata-se de um filme bem interessante cujo protagonista tem TOC e uma vez que falamos sobre isso no último artigo achei pertinente indicá-lo. O filme além de ter um roteiro bacana, consegue ilustrar bem como se manifesta o TOC em algumas pessoas.


MELHOR É IMPOSSÍVEL

Título Original: As Good as it Gets
Ano: 1998
Atores principais: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear
Direção: James L. Brooks
Gênero: romance, comédia dramática


Sinopse: Em Nova York um escritor grosseiro e sarcástico (Jack Nicholson) tem como alvos principais um artista gay (Greg Kinnear), seu vizinho, e uma garçonete (Helen Hunt) que o atende diariamente e se desdobra para cuidar do filho que tem asma crônica. O destino vai fazer com que eles fiquem muito mais próximos do que poderiam imaginar.







Trailer:

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Entendendo o TOC- Transtorno Obsessivo-Compulsivo


No nosso texto de hoje iremos tentar explicar de maneira mais simples o que é o Transtorno Obsessivo-Compulsivo- TOC, e como ele se manifesta. Como o próprio nome indica, é uma psicopatologia em que o sujeito apresenta obsessões e compulsões que se repetem, causam sofrimento e dificultam a realização de atividades da vida cotidiana. Muitos desses sintomas são confundidos / reconhecidos por pessoas leigas como "manias", mas muito incomuns e irracionais. Talvez você já tenha ouvido falar sobre TOC ou visto alguma reportagem na televisão, então você deve estar imaginando algumas dessas "manias" como lavar as mãos, manter tudo sempre limpo, organização excessiva, etc. Isso tudo é TOC? Depende.


Ballone nos apresenta uma definição clara do que são obsessões e compulsões:

Obsessões são pensamentos ou idéias (p. ex. dúvidas), impulsos, imagens, cenas, enfim, são atitudes mentais que invadem a consciência de forma involuntária, repetitiva, persistente e normalmente absurdas. Essas idéias obsessivas são ou não seguidas de rituais destinados a neutralizá-los, as compulsões. Os pesamentos obsessivos são experimentados como intrusivos, inapropriados ou estranhos pelo próprio paciente, o que acaba causando mais ansiedade e desconforto emocional. A pessoa tenta resistir a esses pensamentos, ignorá-los ou suprimi-los com ações ou com outros pensamentos, mas sempre, o próprio paciente reconhece tudo isso como produto de sua mente e não como se fossem originados de fora (como ocorre na esquizofrenia). 

Compulsões são comportamentos repetitivos (p.ex.lavar as mãos, fazer verificações, fechar portas 4 vezes), ou atos mentais (rezar,contar, repetir palavras ou frases) que a pessoa é levada a executar em resposta a uma obsessão ou em virtude de regras (auto impostas) que devem ser seguidas rigidamente. Os comportamentos ou atitudes mentais compulsivas são destinadas a prevenir ou reduzir o desconforto gerado pela obsessão, ou prevenir alguma situação ou evento temidos. Como dissemos, o próprio paciente percebe que essas atitudes não possuem uma conexão realística ou direta com o que pretendem evitar, ou que são claramente excessivas, mas essa crítica não é suficiente para inibir a compulsão.

Então, simplificando em vias gerais, o TOC são pensamentos que a pessoa não tem controle e se repetem em sua mente, vindo insistentemente e causando angústia, enquanto que as compulsões são atos em que a pessoa repete comportamentos, mentalmente ou fisicamente, para aliviar os pensamentos obsessivos. 


Os pensamentos obsessivos são em sua maioria irracionais e sem lógica compatível com a realidade, então um exemplo disso é uma pessoa cujo pensamento diz para ela rezar cinco vezes sempre que ver alguém com uma camisa azul senão alguém da sua família vai morrer. Conheci uma pessoa com TOC que ela tinha que rezar sempre que ia ao banheiro. Existem uma infinidade de exemplos de sintomas do TOC, mas quais são os tipos mais comuns? É o que veremos a seguir.

Tipos de Obsessões e Compulsões:
(Lembrando que a obsessão é o pensamento e compulsão é o ato)




-Preocupação/Medo de Contaminação: medo de se contaminar com germes, bactérias, doenças, o que leva a pessoa a limpar tudo excessivamente, evitar tocar nas coisas que ela considera sujas/contaminadas, proteção exagerada como usar luvas e máscara o tempo todo ou boa parte do tempo, evitar tocar em outras pessoas ou objetos.


-Pensamentos repetitivos de dúvidas e de perfeição extrema: leva a pessoa a verificar as coisas detalhadamente, várias vezes seguidas, dificulta que a pessoa termine qualquer coisa que tenha para fazer, porque mesmo terminada a tarefa ela confere minunciosamente tudo várias vezes.

-Preocupação com simetria, exatidão, ordem ou alinhamento: também muito comum, a pessoa
organiza tudo ao seu redor com extrema rigidez, qualquer coisa desalinhada (um par de chinelos tortos, quadros tortos, sequencias desiguais) levam a pessoa a ficar extremamente incomodada e um desejo incontrolável de organizar tudo.






-Pensamentos ou impulsos de machucar, ferir ou agredir: Esse é pouco conhecido, mas faz parte dos sintomas do TOC. Diz respeito a fugir de objetos que possam machucar os outros, como facas, armas, desculpar-se excessivamente com os outros mesmo que nada tenha ocorrido.

-Pensamentos ruins, indesejáveis ou negativos sobre sexo: evita manifestações de carinho e afeto, retraimento social excessivo por medo de perder o controle, orações exageradas, evita relacionamentos e atividade sexual ou as faz mas com um sentimento grande de culpa.

-Preocupação em guardar, poupar, armazenas objetos sem necessidade: Esse ganhou até um Acumuladores, pois é isso que as pessoas que não se tratam se tornam. Passam a guardar coisas inúteis, não conseguem jogar objetos fora, descartar lixo, o que leva a entupir o espaço onde vive de tranqueiras. Lembro de mais de um caso onde as pessoas morreram soterradas no próprio lixo que acumularam. Clique aqui para ler a reportagem.




-Preocupação com doenças ou com o corpo: medo de ficar doente, consultas frequentes ao médico, mesmo sabendo que não está doente não confia no diagnóstico médico nem em exames.


-Preocupação números, cores, datas, horários: tendem a ter atitudes bizarras, não usam determinada cor (Roberto Carlos, é você?), acham que as cor podem influenciar a realidade, evitam ou se apegam a determinados números e datas, evitam ou se apegam a determinados horários.


-Pensamentos sobre culpa, pecado, blasfêmias, honestidade/desonestidade: Compulsões para rezar, repetir palavras, frases, tentar afastar pensamentos indesejáveis e negativos.



Como podemos ver existe uma ampla gama de sintomas do TOC, em geral o portador apresente algum tipo dos descritos acima ou uma pequena variação de um ou dois tipos. Alguns pacientes podem ainda apresentar sintomas pontuais de um dos transtornos sem caracterizar o TOC em si, o que chamamos de espectro do TOC, ou seja, ele possui um sintoma que faz parte de alguma compulsão ou obsessão, mas não o bastante para fechar o diagnóstico de TOC.

Não se sabe o que causa o TOC, embora alguns fatores neurobiológicos (incluindo os genéticos), fatores de natureza psicológica e fatores ambientais atuam na origem, agravamento e manutenção dos sintomas do TOC. Sabe-se que os portadores de TOC têm várias características biológicas distintas, que produzem um funcionamento cerebral também distinto. São pessoas mais suscetíveis aos medos, experimentam excesso de responsabilidade, interpretam riscos de forma exagerada e lidam com suas angústias e temores tentando neutralizá-los através de realizações de rituais ou evitações.


O TOC deve ser diagnosticado por um profissional Psiquiatra ou Psicólogo, e seu tratamento deve ser iniciado o mais breve possível. O tratamento desse transtorno é feito com antidepressivos, e é indispensável o uso de remédios, uma vez que os pensamentos obsessivos não podem ser evitados apenas com aconselhamento e terapia. É um transtorno extremamente desagradável, não há uma cura definitiva, mas há tratamento e alívio dos sintomas.



Referências: 

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=80

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=81

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Estigmas em Saúde Mental


Olá caros leitores, meu objetivo com esse texto é levar vocês a uma reflexão sobre os estigmas que os portadores de algum problema psicológico sofrem. Como eu sempre gosto de fazer, vamos ver a definição da palavra estigma, apesar de seus vários significados o que nos interessa é esse:

Estigma: Figurado. O que pode ser considerado ou definido como indigno; desonroso.

Os membros de nossa sociedade estão sempre prontos a realizar um julgamento, seja de uma pessoa, situação ou condição, na grande maioria das vezes sem se preocupar em conhecer aquilo que está julgando, não buscando compreender o contexto da situação. Desta forma é que os loucos são taxados de incapazes, são vistos como párias. Esse artigo é quase uma continuação do anterior que trata sobre a loucura, se você não viu clique aqui.

Muitos pacientes que eu atendo referem o medo de ficar loucos, de perder o controle e de serem taxados de incapazes pelos que o cercam, pela sociedade em si, mas principalmente é o medo de como serão vistos por amigos e familiares. A maioria dessas pessoas sequer possui um problema psicológico grave que as faça perder a noção da realidade. Se você me perguntasse o que é a loucura e eu lhe responderia da forma mais simples: é uma pessoa que perde a noção do que é real. Esses pacientes que se questionam estão tristes e fragilizados devido aos problemas que passam e vivem com medo do estigma da loucura, porque o simples pensamento de não ser mais aceito em seus círculos sociais é terrível.

Mas e os portadores de transtornos sérios? Que estigmas eles enfrentam?

Pacientes esquizofrênicos, na minha opinião, são uns do que mais sofrem com a estigmatização das doenças mentais. Isso porque a esquizofrenia é uma doença antiga, complexa, que mesmo com os avanços da neurociência, da neuropsicologia, continua com mais lacunas do que certezas. Sabemos muita coisa sobre ela hoje, avançamos muito, conhecemos vários fármacos que ajudam no seu controle. Apesar disso ainda não existe um remédio que cure o preconceito. Porque as pessoas temem os esquizofrênicos? Por conta de suas alucinações? De seus delírios? De suas idéias absurdas e seu comportamento bizarro? Ou será que é medo de se tornar um deles, como se ao olhar para o doente e sentisse "Poderia ser eu ali".  


Esquizofrênicos são pessoas como eu e você, apenas tem uma experiência diferente de ver o mundo. Alguns de vocês pode estar se perguntando se estou mesmo falando de uma doença. É uma doença porque causa sofrimento para a pessoa e para a família. Como disse anteriormente, não é fácil compreender a esquizofrenia e o próprio esquizofrênico necessita de alguém que o oriente, que o acompanhe nessa jornada sem fim (a esquizofrenia não tem cura), e esse profissional é o Psicólogo/ Psiquiatra. 

Esse mesmo sentimento do paciente esquizofrênico é sentido por outros pacientes com depressão,
transtorno de ansiedade, transtorno de pânico. Eles simplesmente não entendem o que está acontecendo com eles e são dominados pelo temor da loucura. Seus parentes, maridos, esposas, filhos também entram nesse jogo pelo desconhecimento do que é um transtorno mental e se tornam ansiosos e temerosos pelo que pode acontecer. Entretanto ansiedade e depressão tem um prognóstico melhor, ou seja, a evolução para uma "cura", (coloquei as apas porque a noção de cura em saúde mental se refere a qualidade de vida e a lidar com os sintomas, sendo que algumas patologias simples podem ter recaídas de acordo com o tratamento e como a pessoa lida com seu problema), é bem mais simples do que a esquizofrenia.  

Toda doença, com tratamento e acompanhamento profissional adequado pode ser tratada e os transtornos mentais não fogem a regra. Se as pessoas procurassem se informar mais acerca do que é o problema psicológico antes de conceber um preconceito ou julgamento acerca daquilo, talvez o sofrimento dessas pessoas fosse amenizado e nossa sociedade se tornasse menos intolerante. 



Referências:

http://www.dicio.com.br/estigma/


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Uma Breve História sobre a Loucura

A humanidade vive com a loucura desde o seu surgimento, tendo adotado as mais diferentes práticas com o objetivo de curar o louco ou simplesmente afasta-lo da sociedade. 

O louco era visto como alguém excêntrico, ou possuído pelo demônio, devido ao seu comportamento que sempre se distanciava do que era considerado o padrão para uma determinada época/sociedade. 

Na Grécia antiga, a loucura era tida como um saber divino, e os loucos eram vistos como mensageiros dos deuses, pessoas que tinham um dom especial capazes de ver um mundo que ninguém mais consegue. Nessa época a loucura encontrou um espaço na sociedade; não era necessário banir ou controlar o louco, uma vez que ele era instrumento divino; suas visões inspiravam as pessoas que buscavam conselhos, as vozes que ouviam eram atribuídas aos deuses que sussurravam aos seus ouvidos. Filósofos ouviam os loucos e traçavam vários diálogos com eles, buscando explicar os fenômenos da natureza e o próprio fenômeno humano.

Foi na Idade Média que a coisa ficou ruim para os mentalmente incapazes. Esse foi um período de forte dominação religiosa e perseguição daqueles que eram contra a igreja, um tempo onde crenças surgiam e o misticismo era visto como algo demoníaco, herético. Pessoas com epilepsia, quando tinham ataques e convulsionavam, eram ditas estarem possuídas pelo demônio, ou enfeitiçadas. A ignorância e o medo se tornaram armas implacáveis, levando esses pobres enfermos a alimentarem as fogueiras da Inquisição. Os loucos não eram mais sábios, mas hereges possuídos pelo diabo e sua única redenção era pela tortura e pelo fogo. 


Na Renascença o louco entra, pela primeira vez, na categoria de doente, mas ao invés de tratamento ele deve ser excluído da sociedade. Os loucos falam o que as pessoas não querem ouvir, falam de coisas fantásticas, quase um retorno ao divino, como era nos tempos dos gregos. Entretanto não há lugar na sociedade para esse tipo de indivíduo, cuja mente é estranha, diferente, cuja aparência e discurso são assustadores. É então que se tem a ideia de colocar os loucos em navios, que vagavam sem destino e ocasionalmente chegavam a algum lugar, onde novamente eram excluídos, tornando-se párias permanentes da sociedade.

Por volta do século VIII, a moralidade incentivou a sociedade a criar locais onde poderia "guardar" seus excluídos: prostitutas, pessoas com várias doenças venéreas, mendigos, aleijados. Os loucos foram acrescentados a esse círculo, pois eles também eram excluídos. Não eram locais para tratamento, apenas para afastar a escória das pessoas decentes. Foi nessa época que um médico, o Dr. Pinel, passou a ver a doença mental como algo que necessitava de atenção e rompeu correntes e paradigmas que até então prendiam os loucos, levando-os para os primeiros manicômios. Entretanto, a doença mental era tratada como um desvio de caráter moral, sendo os tratamentos baseados na "forma correta" como aqueles indivíduos deviam agir no meio social. No entanto, com o passar do tempo, o tratamento moral de Pinel vai se modificando: permanecem as idéias corretivas do comportamento e dos hábitos dos doentes, porém como recursos de imposição da ordem e da disciplina institucional. 

No século XIX, o louco é um doente e precisa de tratamento específico, que consistia em medidas físicas como duchas, banhos frios, chicotadas, máquinas giratórias e sangrias. É a época do surgimento da Psiquiatria, o saber médico aliado ao conhecimento científico buscando entender e tratar a loucura. O louco não tem voz ou credibilidade, ser taxado de louco é sinônimo de ser desacreditado por todos. Há um medo mais ainda da loucura, pois pior do que viver num mundo alheio ao das outras pessoas é ser completamente ignorado. Os médicos conversam com seus pacientes na tentativa de compreender os transtornos mentais, dissecam cérebros na tentativa de encontrar no órgão a causa do comportamento inadequado. A ciência tenta avançar mesmo que de forma rudimentar.  

A tradição do início do século XIX até metade do século XX permanece. Há avanços na ciência, mas o louco ainda é tratado como animal, submetido a tratamentos que estão mais próximos da tortura do que de uma terapia. Ainda reina um moralismo poderoso, uma vez que masturbação compulsiva, sexo fora dos padrões e desvios de caráter e homossexualismo são considerados loucura. Os manicômios estão em toda parte. Apesar do avanço da Psicologia, a Psiquiatria ainda vê a causa da doença mental como algo orgânico. 

É então que no final do século XX se inicia no Brasil, no final da década de 70, a mobilização dos profissionais da saúde mental e dos familiares de pacientes com transtornos mentais. Esse movimento se inscreve no contexto de redemocratização do país e na mobilização político-social que ocorre na época. Essa é a semente da Reforma Psiquiátrica, que viria a germinar anos mais tarde, reformulando não só a forma de tratar e acomodar o "louco", mas de reinseri-lo no convívio social.



Importantes acontecimentos acontecem no Brasil, como a intervenção e o fechamento da Clínica Anchieta, em Santos/SP, e a revisão legislativa proposta pelo então Deputado Paulo Delgado por meio do projeto de lei nº 3.657, ambos ocorridos em 1989, impulsionam a Reforma Psiquiátrica Brasileira. Em 1990, o Brasil torna-se signatário da Declaração de Caracas a qual propõe a reestruturação da assistência psiquiátrica, e, em 2001, é aprovada a Lei Federal 10.216 que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Dessa lei origina-se a Política de Saúde Mental a qual, basicamente, visa garantir o cuidado ao paciente com transtorno mental em serviços substitutivos aos hospitais psiquiátricos, superando assim a lógica das internações de longa permanência que tratam o paciente isolando-o do convívio com a família e com a sociedade como um todo.


E os profissionais de saúde mental lutam para desconstruir séculos da imagem que foi criada do louco, para um sujeito que padece de algum transtorno e precisa de apoio e acompanhamento especializado. Até hoje, mesmo com os avanços dos tratamentos, da evolução da Psicologia, dos fármacos, as pessoas ainda temem a doença mental, as maioria das famílias não querer se responsabilizar pelo cuidado dessa pessoa, muitas vezes desejando que o Estado o assuma. Mas o maior objetivo da Reforma Psiquiátrica é a reinserção do "louco" na sociedade, porque talvez o louco veja o mundo de uma forma mais sã que nos. E nos em nossa ignorância tememos aquilo que não conhecemos. O homem parece o mesmo desde os tempos antigos, sempre isolando algo que teme, sempre fugindo daquilo que desconhece. 

Para terminar, só quero deixar claro que qualquer transtorno mental tem tratamento, embora muitos ainda não tenham cura, mas um acompanhamento especializado com medicação e psicoterapia pode garantir qualidade de vida a esse indivíduo, aliviar seu sofrimento, fazê-lo sentir-se aceito entre os seus e lhe dar a liberdade que séculos de medo e ignorância ceifaram.


Referências:

FOUCAULT, M. História da loucura. Ed. Perspectiva - SP, 1978.

http://www.ccs.saude.gov.br/vpc/reforma.html

http://www.ccs.saude.gov.br/memoria%20da%20loucura/mostra/reforma.html

http://www.letraefel.com/2007/01/loucura-na-histria.html

http://www.ebah.com.br/content/ABAAAANGcAF/olhar-sobre-a-loucura-foucault

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Medos Excessivos: Pânico ou Fobia?

É comum muitos pacientes relatarem o medo como um sintoma primordial que vivenciam quando algo vai errado em sua psiquê, de modo que vem sempre acompanhado de outras manifestações físicas ou psíquicas. Vamos procurar delinear a diferença entre pânico e fobia.

Fobia é uma palavra que vem do grego e significa "medo".  Já pânico é uma sensação intensa de medo e ansiedade. Para ficar claro e de forma didática vamos falar primeiro da fobia.

FOBIA

Do ponto de vista clínico, a Psicologia e a Psiquiatria definem fobia como um espectro de sintomas específicos que se manifestam em situações diferentes. A Fobia seria um medo irracional e muito intenso de alguma coisa ou alguma situação específica. O DSM IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 4a Edição) divide as fobias simples em cinco tipos:

Animais (aranhas, cobras, sapos, etc.);
Aspectos do ambiente natural (trovoadas, terremotos, etc.);
Sangue injeções ou feridas;
Situações (alturas, andar de avião, andar de elevador, etc.);
Outros tipos (medo de vomitar, contrair uma doença, etc.).

Então quando o indivíduo está exposto a uma dessas situações ele experiencia uma sensação de ansiedade muito intensa, medo irracional e a ação mais comum é evitar a situação, num movimento de fuga. A Fobia social é um tipo bastante comum de Fobia onde o sujeito desenvolve um medo sempre que está ou que se imagina em alguma situação social, que podem ser festas e reuniões ou até mesmo trabalho e escola. Atendia uma garota de 15 anos diagnosticada com Fobia Social que deixou de ir a escola, quase não saía de casa e basicamente vivia no próprio quarto. A intervenção nesse caso era difícil porque a paciente tinha um medo intenso de sair na rua e encontrar com pessoas. 

Fobias de animais são bem comuns também, podem algumas vezes estar associadas a traumas de infância (medo de cachorro, por exemplo porque foi atacada por um cão quando criança), ou um medo sem explicação aparente, como Fobia de sapos. Mesmo o paciente sabendo que o sapo não é um animal perigoso, mas ver um sapo lhe causa uma angústia indescritível. Esse tipo de fobia atua de forma tão inconsciente que mesmo se o sapo em questão for de plástico, de barrro, a pessoa ainda se sente desconfortável.  

Muitas vezes as fobias podem estar relacionadas com situações traumáticas da infância, que foram esquecidas (recalcadas como diz Freud, pai da Psicanálise), e voltam na forma do sintoma fóbico porque não foram elaboradas de forma adequada pela psiquê do sujeito. Em outros casos são uma série de associações ligadas a experiência individual da pessoa que acaba desenvolvendo a Fobia sem uma causa aparente. O caso é que a fobia vem sempre acompanhada do medo intenso, sensações físicas de taquicardia, falta de ar, tonturas, etc.


PÂNICO

O pânico é um sintoma de alguma psicopatologia. É descrito como uma sensação intensa de ansiedade e medo, acompanhado de uma série de sintomas físicos (taquicardia, falta de ar, náusea ou dor de estômago, dor abdominal ou diarreia, tontura, tremores nos membros), e uma vontade forte de ir para um local que considere seguro, além de pensamentos negativos que se repetem como se previssem algo catastrófico.  Nosso cérebro possui um sistema de defesa ancestral que nos permitia sobreviver ao encontro com predadores; desta forma, sempre que se sentir ameaçado o cérebro da pessoa envia uma série de comandos para o corpo para prepará-lo para fugir ou lutar, através de uma descarga de adrenalina e outras substâncias. No pânico esse mecanismo é ativado constantemente, sem que haja um perigo real.

Diversos transtornos tem o pânico como sintoma, como por exemplo o Transtorno de Ansiedade, Transtorno do Pânico, Fobias e Depressão. Dessa forma, é preciso uma avaliação com um especialista para determinar o diagnóstico e o curso do tratamento. 

No geral, tanto os quadros de Fobia quanto os que têm o pânico como sintoma, são utilizados medicamentos ansiolíticos (reduzem a ansiedade e o mal estar) e antidepressivos, mas é preciso que o paciente também faça psicoterapia com um psicólogo para aprender a lidar com suas Fobia/pânico, de modo a compreender melhor a si mesmo nessas situações.






Referências:

http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2011/06/especialistas-explicam-sintomas-e-tratamento-da-sindrome-do-panico.html

http://www.appi.org/Pages/DSM.aspx

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=75

Kaplan, Wilfred. Manual de Psiquiatria Clínica. 2aEd.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Psicoterapia e Medicalização do Sujeito

Muito se discute sobre a necessidade do uso de medicação psicoativa e da eficácia da psicoterapia. Nesse breve artigo tentarei falar de ambas, sua importância e a necessidade de cada uma. 

Vivemos num futuro onde a maioria das doenças são curáveis através de vacinas, de máquinas especiais ou de remédios. Medicamentos são drogas que agem no corpo, alterando a bioquímica das células de modo a alcançar um efeito específico. Numa definição mais específica, medicamento é:

"Toda a substância ou associação de substâncias apresentada como possuindo propriedades curativas ou preventivas de doenças em seres humanos ou dos seus sintomas ou que possa ser utilizada ou administrada no ser humano com vista a estabelecer um diagnóstico médico ou, exercendo uma ação farmacológica, imunológica ou metabólica, a restaurar, corrigir ou modificar funções fisiológicas"

Em medicina é um recurso bastante utilizado para tratar inúmeras moléstias, mas quando chegamos no campo da saúde mental esbarramos em vários pré-conceitos, estigmas e inverdades e práticas desnecessárias que muitas vezes dificultam a adesão do tratamento e trazem descredibilidade ao tratamento Psicológico e Psiquiátrico. Acontece que as drogas psicoativas (ou substância psicotrópica, é uma substância química que age principalmente no sistema nervoso central, onde altera a função cerebral e temporariamente muda a percepção, o humor, o comportamento e a consciência) evoluíram muito ao longo dos anos, embora muitas vezes sejam utilizadas de forma indevida. 

Acontece que quando é feito o diagnóstico Psicológico/Psiquiárico, muitas vezes se faz necessário o uso de medicamentos específicos para ajudar no tratamento; drogas que vão aliviar o mal estar, reduzir a ansiedade, o medo, aliviar a sensação de tristeza e pânico, reduzir a insônia, eliminar as alucinações e os pensamentos delirantes e o comportamento maníaco. Os medicamentos psicoativos servem para uma infinidade de quadros sintomatológicos e tem sua eficácia comprovada através de estudos médicos, neurológicos e neuropsicológicos. 

Entretanto, por conta da falta de preparo, humanização ou boa vontade do profissional o paciente nem sempre é informado do seu diagnóstico e na grande maioria das vezes também não é orientado acerca da medicação que está fazendo uso. Toma os "remédios pra cabeça"(ou para os nervos) sem saber para que servem, seus efeitos, etc. Dependendo do paciente isso pode até ser irrelevante, mas mesmo um paciente que não responde pelos atos da vida civil, como um paciente com algum grau de retardo mental, esquizofrenia ou psicose, a família deveria ser informada sobre tudo, afinal faz parte do tratamento.

Pela minha experiência cotidiana existe uma prática entre muitos profissionais da psiquiatria que é a de apenas medicar o paciente, muitas vezes sem ouvi-lo realmente, sem conhecer sua queixa real, sua necessidade, pondo toda responsabilidade da cura no medicamento. Uma vez que o sujeito é colocado em segundo plano, a melhora ou a "cura" dessa pessoa acaba tomando um rumo incerto, uma vez que essa medicação psicoativa atua nos sintomas dos transtornos psicológicos e não na causa, assim sendo apenas aliviam e mascaram o problema.


QUAL O PAPEL DA PSICOTERAPIA?

Aliado ao diagnóstico e a medicação existe a psicoterapia. Sua definição é:




"Um tipo de terapia, cuja finalidade é tratar os problemas psicológicos, tais como depressão, ansiedade, dificuldades de relacionamento, entre outros problemas de saúde mental. É um processo dialético efetuado entre um profissional, o psicoterapeuta - que pode ser psicólogo ou psiquiatra - , e o cliente ou paciente".


Os objetivos da psicoterapia são:

-Restabelecer o funcionamento psíquico do paciente para que volte ao estado de equilíbrio;
-Permitir que o paciente compreenda o que acontece com ele a nível psicológico, emocional e comportamental para que possa encontrar recursos psíquicos para lidar com suas dificuldades, problemas, etc;
-Desenvolver meios de agir no mundo, estratégias, redefinindo suas atitudes, pensamento e modo de encarar a vida;
-Solucionar problemas pontuais, que o afligem (como a perda de um ente querido, por exemplo), bem como, tratar de questões de cunho mais existencial.

Você deve estar se perguntando se para tratar tudo isso é necessário medicação e a resposta é: não. Muitos problemas que chegam aos consultórios de Psicologia/Psiquiatria poderiam ser trabalhados apenas com psicoterapia, sem necessidade de medicação, embora muitos psiquiatras acreditem que o seu maior poder esteja na prescrição dessas drogas e muitos pacientes julguem que somente essas drogas vão tirá-los de seu problema. Esse é um erro tão comum, mas tão gritante que deveria ser esclarecido ao pacientes pelos bons profissionais que trabalham na área. Um bom diagnóstico vai delimitar a real necessidade ou não da medicação.

Deixo claro aqui que algumas condições clínicas são crônicas e o uso da medicação é imprescindível, até mesmo pelo resto da vida como nas esquizofrenias, psicoses, transtorno obsessivo compulsivo, transtornos de personalidade (borderline, por exemplo). Nesses casos é fundamental o uso contínuo da medicação que melhor se adequar ao paciente, mas também se faz necessário a psicoterapia para ajudar o paciente a lidar com seus sintomas, com sua angústia e aprender melhor sobre seu transtorno de modo que possa ter uma qualidade de vida.


A farmacologia e a psicoterapia não devem ser inimigas, mas aliadas. Minha crítica gira em torno a penas do uso desnecessário de medicamentos em situações que o paciente pode lidar com a ajuda da psicoterapia, sendo que muitas vezes é encorajado por médicos (clínicos ou psiquiatras) a usar determinada medicação como forma de alívio imediato dos sintomas. O problema é que o sintoma aliviado não some, muitas vezes ele muda de lugar e cresce como um monstro que começa a devorar o sujeito por dentro. Sem um trabalho terapêutico de pouco adianta a medicação, ela irá só amenizar os sintomas físicos, mas não dará autonomia para o paciente para compreender suas dificuldades reais e lidar com ela. Outra questão é que a medicalização desnecessária possa criar pessoas dependentes de certas classe de remédios, os famosos tarja preta. Já atendi pessoas dependentes de diazepam, por exemplo, que usavam a droga há 30 anos sem necessidade alguma.

Desta forma, sempre questione seu médico sobre a real necessidade do medicamento, sobre seus efeitos no seu corpo e sobre os benefícios de usá-lo. Para finalizar, lembro de uma vez em que eu estava com muita insônia e fui a um clínico geral, já esperando que ele fosse me medicar com algum sedativo, como é de praxe. Depois de duas horas de consulta (isso mesmo, duas horas, enquanto que muitos médicos passam dez minutos para examinar um paciente), o simpático doutor cuja filha era psicóloga me deu orientações em como lidar com meu estresse e não me passou NENHUM remédio. Pela primeira vez na vida saí de um consultório médico sem receita. Quem dera existissem mais profissionais médicos assim, com um olhar mais humano e menos biológico/farmacológico.




Referências:

Vida Celeiro - Revista de Saúde, Beleza e Bem-estar. N.º16 - Inverno 2012. Pág.26

http://www.dre.pt/pdf1s/2006/08/16700/62976383.pdf

http://www.infoescola.com/psicologia/psicofarmacologia/

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

SITUAÇÕES EXTREMAS: ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

O que ocorre conosco quando somos submetidos a situações inesperadas, a algo que nos leva ao limite emocional, que eleva ao máximo os níveis de alerta do cérebro e desafia toda experiência negativa pela qual já passamos antes? Nesse artigo, vou falar para vocês o que é e como ocorre o Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

É sabido que as emoções influem no funcionamento do corpo, não apenas na saúde, mas também na doença, podem ser emoções agradáveis ou desagradáveis e desempenham um papel não apenas fisiológico como também motivacional. São as emoções que nos impulsionam para a realização de nossas atividades diárias, das nossas metas, dos nossos sonhos, embora também se tornem obstáculos quando se fala de medo, insegurança e ansiedade. A emoção é sentida pela pessoa ao mesmo tempo em que o corpo responde fisiologicamente, ativando áreas específicas do cérebro e liberando diferentes substâncias na nossa corrente sanguínea. 

Segundo Ballone: 

"Dentro das emoções negativas, uma das reações emocionais que mais se tem estudado é, sem dúvida, a ansiedade. Este é um estado emocional reconhecidamente associado a múltiplos transtornos. Uma segunda emoção negativa que está sendo muito estudada é a raiva, por sua estreita relação com os transtornos cardiovasculares. Finalmente, a tristeza e sua representação psicopatológica, a Depressão, até pelo fato desta se acompanhar, em geral, de altos níveis de ansiedade."

Assim, cada emoção desencadeia reações diferentes em nosso corpo, fisiológicas e comportamentais, de acordo com a situação vivenciada pelo sujeito. A questão desse artigo é: e quando é um evento traumático, que consequências ele terá sobre a pessoa?


O QUE É O TRAUMA?

A palavra "trauma", do ponto de vista semântico, vem do grego trauma (plural: traumatos, traumas), cujo significado é “ferida”. A terminologia trauma em medicina admite vários significados, todos eles ligados a acontecimentos não previstos e indesejáveis que, de forma mais ou menos violenta, atingem indivíduos neles envolvidos, produzindo-lhes alguma forma de lesão ou dano. 

Conforme o dicionário da infopedia, trauma, tem seu conceito psicológico:
"Acontecimento emocionalmente doloroso que torna o sujeito particularmente sensível em situações similares"

O trauma psicológico é algo particular para cada indivíduo. A vida nos trás inúmeros prejuízos durante o curso de nossa existência, cada situação é vivida de uma forma diferente por nós com base em como aprendemos a lidar com nossos problemas e situações estressoras. Desta forma o que pode ser algo extremamente para uma pessoa para outra pode ser uma situação ruim facilmente superável. 


AS GUERRAS E OS ESTUDOS EM PSICOLOGIA

O período das guerras, principalmente a Primeira e a Segunda Grande Guerra Mundial foram importantes para o desenvolvimento de vários estudos na área da psicologia, psiquiatria e medicina. Os psicólogos começaram a analisar como poderia alocar melhor aqueles homens o que fez nascer o que no futuro seria chamado de Orientação Vocacional. Contudo o que nos interessa nesse período é saber dos estudos conduzidos com os combatentes que retornavam do campo de batalha. Fosse com o sem traumas físicos (amputações, incapacitações físicas) estava claro que havia algo de errado com a mente daqueles homens. Muitos acordavam a noite gritando, se escondiam embaixo de suas camas, saíam gritando no meio do almoço como se estivessem sendo perseguidos. A guerra havia destroçado suas mentes. 


O trauma mental ocasionado por viver em constante situação de estresse, medo, angústia deixou marcas permanentes no psicológico desses soldados, muitos nunca mais tiveram uma vida normal. Psiquiatras e Psicólogos que estudavam essas reações perceberam um padrão: angustia, medo, ansiedade, em alguns casos até mesmo alucinações estavam presentes. Alguns apresentavam tremores incessantes, tiques, mutismos e outros sintomas difusos. Um conhecido caso extremo disso é o chamado Shell Shock (algo como choque na casca), resultado do nível altíssimo que o soldado era submetido e que seu emocional não suportava desencadeando uma espécie de somatização, ou seja, o emocional transbordando para o corpo físico. Segue um vídeo sobre o shell shock:



Muito embora a ideia do Transtorno do Estresse Pós-Traumático tenha sido um conceito desenvolvido a partir de 1980, nas classificações internacionais (CID.10 e DSM.IV), que permitiu unificar uma série de categorias de transtornos emocionais reativos a acontecimentos traumáticos anteriormente dispersos na classificação psiquiátrica.


O TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

Esse quadro é característico principalmente devido a um fator externo que desencadeia o trauma, um fator estressante que leva o sujeito além do seu limite de suportar algo aversivo o que o leva a um quadro complexo e cuja a evolução pode ser rápida e danosa se não diagnosticada e tratada. 

Segundo Ballone e Moura:
"a influência da severidade das agressões no risco de desenvolver o Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Dab (1987) assinala que a gravidade das seqüelas físicas é proporcional à importância do dano físico e que 80% dos feridos graves desenvolvem um Transtorno do Estresse Pós-Traumático. A comorbilidade do Transtorno do Estresse Pós-Traumático com Transtorno Depressivo também é maior nessas pessoas, sobretudo quando se compara a incidência de 21,8% de depressão nos sujeitos severamente feridos, que corresponde a 2,6 vezes mais que nas pessoas feridos levemente ou não feridos (Bouthillon, 1992)."


Significa dizer que quando maior e mais severa a agressão ou dano físico sofrido pelo sujeito, estatisticamente falando, mais a probabilidade de desenvolver o transtorno e não apenas isso, ocorrer também outros transtornos em concomitante como transtorno depressivo e mesmo transtorno de ansiedade generalizada. 


O leitor deve estar se perguntando se só combatentes de guerras sofrem com esse tipo de transtorno e a resposta é não. Vítimas de acidente, tortura, agressões, perseguições, sequestros, incêndios, atentados podem desenvolver o transtorno de estresse pós-traumático.




Algumas manifestações do transtorno são:

1. Atitude psíquica de reviver o trauma, através de sonhos e de pensamentos durante a vigília; 
2. Comportamento de evitação persistente de qualquer coisa que lembre o trauma e embotamento da resposta a esses indicadores; 
3. Estado afetivo hiperexitado persistentemente. 
4. Sentimento de tristeza, ansiedade, culpa, medo, raiva podem estar presentes.
5. Alucinações, delírios ou paranóia podem estar presentes.

Além disso algumas profissões sofrem mais com esse transtorno, profissões onde o nível de estresse e alerta do sujeito são constantes. Acertou quem pensou "policial", mas também, bombeiros, seguranças, pessoas que lidam com valores altos ou que estão sujeitas a violência.


UM CASO DE TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

Eu atendi um caso deste tipo em que um jovem adolescente com menos de 15 anos brincava com o melhor amigo manuseando a espingarda "cartucheira" do avô, uma arma rudimentar e instável. Eles miraram para um lugar seguro e apertaram o gatilho. Como não houve disparo acreditaram que a arma estaria descarregada e continuaram brincando com ela. Quando o jovem mirou na cabeça do outro, ele nem precisou tocar no gatilho, a arma disparou acidentalmente atingindo a cabeça do melhor amigo que caiu banhado em sangue e morto. O jovem foi encaminhado para tratamento comigo. Passou a ser introspectivo, isolou-se socialmente, apresentava melancolia frequente, seu rendimento escolar caiu e passou dois meses sem ir a escola. 

Aquele jovem se culpava constantemente pela morte do amigo, que era quase como um irmão de criação, e revivia a cena do disparo em sua mente o tempo todo. Desenvolveu sentimentos de menos valia, ou seja, passou a não se valorizar enquanto se culpava cada vez mais. Entretanto, devido ao início precoce do tratamento foi possível reverter esse quadro após 1 ano de psicoterapia, impedindo que o adolescente entrasse em depressão ou algum quadro ansioso. Minha experiência com esse jovem foi enriquecedora pois fui capaz de ajudá-lo a reestabelecer contato consigo mesmo e com a comunidade ao qual ele se isolara. Retornou a escola, suas notas melhoraram, recuperou a autonomia de si, ganhou confiança e aprendeu com a experiência negativa que viveu, nunca mais querendo contato com armas de fogo e sabendo respeitá-las. Hoje ele vive bem e não desenvolveu nenhum tipo de transtorno, tendo saído do quadro de transtorno de estresse pós-traumático e recebido alta.


Uma coisa é certa, ele nunca esquecerá o que aconteceu, mas foi capaz de superar esse evento traumático de uma forma positiva a partir do tratamento. Detalhe é que não foi necessário o uso de qualquer medicação. No caso dele apenas a psicoterapia foi capaz de lhe devolver o equilíbrio emocional necessário para continuar sua vida.

Para finalizar, as maiores vítimas desse tipo de transtorno hoje são as pessoas que vivenciam a violência urbana, acidentes de todo tipo e tortura. Procure um psicólogo para superar esses traumas antes que eles evoluam para outras psicopatologias.



Referências:

trauma In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-08-29]. Disponível em
URL:http://www.infopedia.pt/lingua-ortuguesa/trauma;jsessionid=sTQYK6pUiHJxzyCyoAFVEA__>.

http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=01

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516
44462003000500014&lng=pt&nrm=iso

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=25

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=69