Olá, eu me chamo Leonardo e sou Psicólogo registrado pelo Conselho Regional de Psicologia, CRP da 11a região sob o número 05089. O objetivo desse blog é esclarecer as pessoas sobre questões ligadas a Psicologia usando uma linguagem simples, acessível e incentivar reflexões acerca da natureza humana, da sociedade e de problemas do cotidiano.
O medo é uma reação natural e evolutiva do organismo com o objetivo de protegê-lo de algo ameaçador. Entretanto, muitas vezes o ser humano acaba refém do próprio medo. Os animais sentem medo mas o processam de forma instintiva, diferente de nós que temos consciência do medo e criamos medos que não existem. E o propósito desse texto é justamente isso, falar desses medos interiores.
Segundo o dicionário:
MEDO
substantivo masculino
1.
psic estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência.
"m. ao se sentir ameaçado"
2.
temor, ansiedade irracional ou fundamentada; receio.
"m. de tomar injeções"
Existe um mecanismo bem conhecido nos animais: a reação de luta ou fuga. É uma herança genética que permitiu que os animais se adaptassem as situações de perigo e foi repassado até nós. Não temos hoje, nós humanos que nos preocuparmos com animais selvagens enquanto dormimos ou com movimentos suspeitos nos arbustos. A centenas de anos atrás era bem diferente. Todavia hoje nos preocupamos se nosso chefe vai nos demitir, se aquele cara estranho no ponto do ônibus vai nos assaltar, se o avião que passa por uma turbulência vai cair. Essas situações podem desencadear em nós o mesmo mecanismo de luta ou fuga, mas que com o tempo pode se transformar num problema: o transtorno de ansiedade generalizada. Para saber mais sobre ansiedade, clique aqui.
O homem, com sua capacidade mental de pensar sobre as coisas, também incorre em fantasiar demasiadamente, pensando em eventos que não aconteceram, podendo assim gerar medo e expectativas em coisas que não existem. Chamamos isto de fantasiar.
Quando o rapaz está na festa, ele é tímido e quer iniciar uma paquera, suas mãos começam a transpirar frio, seu coração acelera, a boca fica seca, ele sente o estômago se revirar. Uma reação de ansiedade está se desenrolando em seu corpo. Mas ele não sabe disso, não sabe que o medo que ele alimentou em seus pensamentos, "o que ela vai dizer", "será que vou levar um não", "e se ela me ignorar", desencadeou uma reação ansiosa.
Medo de falhar, é um dos mais comuns fatores que levam a uma reação ansiosa. Mais existem muitos outros medos. A mulher que mora sozinha, por exemplo, pode ter medo de ser estuprada, de invadirem a sua casa e lhe fazerem mal. Inexplicavelmente ela começa a sentir o coração acelerar, falta de ar, tremores nos membros, uma sensação de pânico. Ela sente isso em casa, no trabalho, com a família. Até ela buscar atendimento psicológico, não ficará claro para essa moça que o que ela vivencia é uma reação ansiosa a suas fantasias, pensamentos que despertam seus temores mais profundos.
A reação de ansiedade é sempre acompanhada de expectativas de coisas que não aconteceram, e anda de mãos dadas com o que chamamos em psicologia de pensamentos catastróficos, ou seja, aquilo vai dar errado, vai acontecer algo ruim, não vou conseguir, não vai dar. Esse fluxo de pensamentos negativos antecipando algo vai levar a uma reação de luta ou fuga, uma reação ansiosa, onde não há um motivo real para lutar ou fugir, mas é assim que o cérebro dela interpreta a informação. É como se a pessoa criasse uma programação equivocada no cérebro.
Se eu ando numa rua perigosa e sei disso, posso ter medo para me proteger, mesmo que o ladrão nunca apareça eu vou estar em estado de alerta como forma de me prevenir de qualquer coisa. Mas se começo a imaginar centenas de situações ruins, estou alimentando minha mente com muita informação desnecessária de eventos improváveis, estou permitindo que essas reações desagradáveis ocorram no meu corpo.
A melhor forma de evitar isso é conversar sobre seus medos, percebe-los e assumi-los, buscando evitar passar uma imagem de pessoa inabalável, que não tem medo de nada, que nada lhe afeta. Somos humanos e somos passíveis de sermos afetados por qualquer coisa. Ter determinado medo não é demérito ou fraqueza. Quando conhecemos melhor esse medo temos a chance de poder encará-lo e enfrentá-lo. Caso não consiga sozinho, então é hora de buscar um psicólogo para te ajudar nesse processo.
Nos dias de hoje, dirigir é importante e faz parte do nosso cotidiano. Quando não dirigimos, na maioria das vezes estamos sob a responsabilidade de alguém que dirige e que nos transporta para nossos compromissos. Entretanto, existem aquelas pessoas que tem alguma dificuldade em pegar o voltante. Vamos falar um pouco sobre isso nesse artigo.
Dirigir parece ser algo simples e tal comum que não percebemos que muitas pessoas passam por um tormento para executar essa tarefa. Pesquisas mostram que as mulheres são as que mais sofrem com esse problema: ao mesmo tempo que são, em sua maioria, mais cuidadosas ao dirigir muitas delas passam por problemas relacionados a condução de veículos. Numa dessas pesquisas foi constatado que 45,2% dos entrevistados tinha habilitação mas não dispunha do veículo para praticar. Depois de um tempo, essas pessoas acabam se tornando dependentes de outros condutores e presenciam diversas situações no trânsito que podem minar sua confiança, causando assim um bloqueio para o ato de dirigir.
Muitos acreditam que o medo de dirigir vem de experiências traumáticas, tais como acidentes, por exemplo, onde é comum o Transtorno de Estresse Pós Traumático (clique para ler o artigo sobre esse tema), todavia isso é uma percepção errônea, baseada no senso comum. Estudos mostram que uma apenas uma pequena porcentagem (em torno de 18%, mas a amostragem era de 93 pessoas) dessas pessoas sofreram algum tipo de acidente relacionado ao trânsito. Segundo esse estudo:
"Mais fatores relevantes para as pessoas não dirigirem foram o comodismo (15,1%), a falta de incentivo (12,9%), recebimento de críticas constantes no período da autoescola (8,6%), conduta adotada pelos instrutores (6,4%), intolerância aos próprios erros (8,6%) e outros motivos, como adoecimento e mudanças para outros locais de moradia com o trânsito diferente do de onde aprenderam a dirigir (8,6%)"¹
E além disso:
"...a maioria das pessoas se queixou de: não ter boa noção de espaço (91,4%), ter dificuldade para estacionar (90,3%), não saber sair com o carro em uma subida (90,3%), ter dificuldade em dirigir em tráfego intenso (89,2%), não conseguir dirigir sozinhas (89,2%) e não dominar o trajeto de casa para o trabalho (83,9%). Além disso, queixas como de não saber estacionar na própria garagem (82,8%), não dirigir em rodovias (82,8%), não dominar todas as marchas (81,7%) e não conseguir fazer curvas rápidas (78,5%)"
Fica claro que existem dois fatores a serem considerados. O primeiro é o fator interpessoal, o
segundo é questão do treinamento das autoescolas. Vamos falar primeiro do curso de direção fornecido pelas autoescolas. Já ouvi pessoas comparando o treinamento de condutor ao cursinho de pré-vestibular- ele te ensina a passar na prova, no caso da autoescola, a passar pela prova do Detran. Mesmo treinando nas ruas, o condutor não sai preparado para as situações reais do cotidiano do trânsito. lembro quando tirei minha habilitação anos atrás que o instrutor me ensinou muito bem como fazer todas as manobras necessárias para obter êxito na prova prática, mas eu fui aprender como dirigir pra valer no cotidiano, nas ruas, enfrentando o movimento frenético de pedestres, ciclistas, motociclistas, coletivos, etc. Não sei se todas as autoescolas funcionam assim, mas um curso voltado não só para passar no exame do Detran mas também para ensinar de fato como dirigir poderia ajudar muito essas pessoas. Isso implicaria numa reformulação dos cursos de formação de condutores.
O fator interpessoal é outro aspecto fundamental no que diz respeito ao ato de conduzir um veículo. Primeiro a pessoa deve ter o treinamento adequado, saber o básico do funcionamento, como se executam suas manobras etc. Segundo a pessoa deve ter confiança em si. Quando essa confiança da lugar ao medo criam-se barreiras que atrapalham a pessoa a dirigir.
O MEDO DE DIRIGIR
"O medo é um mecanismo de proteção. Quando nos defrontamos com o perigo, seja ele de qualquer natureza, o corpo se arma para enfrentar "o inimigo". A partir de uma reação de luta ou fuga, o organismo ativa o sistema nervoso simpático, liberando as substâncias adrenalina e noradrenalina. Estas promovem alterações fisiológicas que viabilizam a defesa do indivíduo, como o aumento da frequência cardíaca, a constrição dos vasos da pele, a redução da atividade gastrintestinal, o aumento da taxa respiratória, o aumento da sudorese e a dilatação da pupila"²
Essa sensação de medo vai persistindo conforme a pessoa cria em seu imaginário situações catastróficas ligadas ao ato de dirigir, ou seja, imagina acidentes e afins, e para se proteger desenvolve esse comportamento de fuga/ esquiva do ato de conduzir o veículo. Algumas pessoa acreditam que o medo vai passar com esse ato de evitação, mas estão profundamente enganadas. Isso apenas vai trazer um alívio momentâneo da situação ao mesmo tempo em que mina a confiança do sujeito que se torna totalmente inseguro para tentar outras vezes. Daí pode variar de um simples medo ao pânico/ fobia total de dirigir. No estudo citado nesse artigo, veja o que as pessoas pensam/sentem sobre isso:
"...medo de errar (75,3%), medo de causar um acidente (72%) e medo de perder o controle da situação (61,3%). Além disso, 59,1% dos sujeitos disseram sentir aflição, 23,7% relataram sentir vergonha das outras pessoas e 23,7% apontaram ter vontade de desistir. A impaciência foi apontada por 20,4% das pessoas, enquanto 19,4% relataram sentir vontade de chorar, 17,2% disseram ter dificuldade de concentração e 3,2% frisaram sentir vontade de brigar.¹"
Logo, se percebe uma gama se sentimentos e pensamentos negativos relacionados ao medo de dirigir. E embora as pessoas não sejam obrigadas a serem motoristas, muitas precisam dirigir por necessidade, para se deslocar melhor dentro das cidade, visto que o transporte público em nosso país é bastante deficitário. A pessoa com fobia de dirigir pode procurar um psicólogo para lhe auxiliar a lidar com esse comportamento e aqui faço uma ressalva. Há uns anos atrás existia em minha cidade um instrutor de direção que se dizia especialista em fobia para dirigir e na sua propaganda ele dizia que iria ajudar a pessoa a superar seus medos. Esse indivíduo não possuía nenhuma formação em Psicologia ou Psiquiatria, sendo habilitado apenas como instrutor de direção. A questão é, como poderia ele ajudar uma pessoa sem entender nada do comportamento humano? Talvez ele trabalhasse apenas a questão prática da direção, estimulando a pessoa positivamente, mas dependendo da pessoa e do que ela está sentindo isso não é o suficiente. Apenas um profissional com formação em saúde mental teria conhecimento científico e técnico para diagnósticar que tipo de transtorno está relacionado e ajudar a pessoa a entender esse sintomas através de uma terapia. Então fica o alerta para esse tipo de prática, procure sempre um profissional capacitado.
Dirigir é algo que como tudo na vida requer prática e atenção. E assim como muitas coisas, nem todos fazem excelentemente. É como tocar violão. Posso aprender a tocar violão e saber o básico e nunca ir além disso, mas existirão pessoas que podem aprender com muita facilidade e se tornarem mestres da música, ao passo que outras nunca vão tocar direito os acordes. Quanto mais treino, vontade e dedicação melhor. E para vencer os medos e as dificuldades pode ser necessária a ajuda de um profissional psicólogo. Dirija com cuidado e até o próximo artigo.
É comum muitos pacientes relatarem o medo como um sintoma primordial que vivenciam quando algo vai errado em sua psiquê, de modo que vem sempre acompanhado de outras manifestações físicas ou psíquicas. Vamos procurar delinear a diferença entre pânico e fobia.
Fobia é uma palavra que vem do grego e significa "medo". Já pânico é uma sensação intensa de medo e ansiedade. Para ficar claro e de forma didática vamos falar primeiro da fobia.
FOBIA
Do ponto de vista clínico, a Psicologia e a Psiquiatria definem fobia como um espectro de sintomas específicos que se manifestam em situações diferentes. A Fobia seria um medo irracional e muito intenso de alguma coisa ou alguma situação específica. O DSM IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 4a Edição) divide as fobias simples em cinco tipos:
Animais (aranhas, cobras, sapos, etc.);
Aspectos do ambiente natural (trovoadas, terremotos, etc.);
Sangue injeções ou feridas;
Situações (alturas, andar de avião, andar de elevador, etc.);
Outros tipos (medo de vomitar, contrair uma doença, etc.).
Então quando o indivíduo está exposto a uma dessas situações ele experiencia uma sensação de ansiedade muito intensa, medo irracional e a ação mais comum é evitar a situação, num movimento de fuga. A Fobia social é um tipo bastante comum de Fobia onde o sujeito desenvolve um medo sempre que está ou que se imagina em alguma situação social, que podem ser festas e reuniões ou até mesmo trabalho e escola. Atendia uma garota de 15 anos diagnosticada com Fobia Social que deixou de ir a escola, quase não saía de casa e basicamente vivia no próprio quarto. A intervenção nesse caso era difícil porque a paciente tinha um medo intenso de sair na rua e encontrar com pessoas.
Fobias de animais são bem comuns também, podem algumas vezes estar associadas a traumas de infância (medo de cachorro, por exemplo porque foi atacada por um cão quando criança), ou um medo sem explicação aparente, como Fobia de sapos. Mesmo o paciente sabendo que o sapo não é um animal perigoso, mas ver um sapo lhe causa uma angústia indescritível. Esse tipo de fobia atua de forma tão inconsciente que mesmo se o sapo em questão for de plástico, de barrro, a pessoa ainda se sente desconfortável.
Muitas vezes as fobias podem estar relacionadas com situações traumáticas da infância, que foram esquecidas (recalcadas como diz Freud, pai da Psicanálise), e voltam na forma do sintoma fóbico porque não foram elaboradas de forma adequada pela psiquê do sujeito. Em outros casos são uma série de associações ligadas a experiência individual da pessoa que acaba desenvolvendo a Fobia sem uma causa aparente. O caso é que a fobia vem sempre acompanhada do medo intenso, sensações físicas de taquicardia, falta de ar, tonturas, etc.
PÂNICO
O pânico é um sintoma de alguma psicopatologia. É descrito como uma sensação intensa de ansiedade e medo, acompanhado de uma série de sintomas físicos (taquicardia, falta de ar, náusea ou dor de estômago, dor abdominal ou diarreia, tontura, tremores nos membros), e uma vontade forte de ir para um local que considere seguro, além de pensamentos negativos que se repetem como se previssem algo catastrófico.Nosso cérebro possui um sistema de defesa ancestral que nos permitia sobreviver ao encontro com predadores; desta forma, sempre que se sentir ameaçado o cérebro da pessoa envia uma série de comandos para o corpo para prepará-lo para fugir ou lutar, através de uma descarga de adrenalina e outras substâncias. No pânico esse mecanismo é ativado constantemente, sem que haja um perigo real.
Diversos transtornos tem o pânico como sintoma, como por exemplo o Transtorno de Ansiedade, Transtorno do Pânico, Fobias e Depressão. Dessa forma, é preciso uma avaliação com um especialista para determinar o diagnóstico e o curso do tratamento.
No geral, tanto os quadros de Fobia quanto os que têm o pânico como sintoma, são utilizados medicamentos ansiolíticos (reduzem a ansiedade e o mal estar) e antidepressivos, mas é preciso que o paciente também faça psicoterapia com um psicólogo para aprender a lidar com suas Fobia/pânico, de modo a compreender melhor a si mesmo nessas situações.
O que ocorre conosco quando somos submetidos a situações inesperadas, a algo que nos leva ao limite emocional, que eleva ao máximo os níveis de alerta do cérebro e desafia toda experiência negativa pela qual já passamos antes? Nesse artigo, vou falar para vocês o que é e como ocorre o Transtorno de Estresse Pós-Traumático.
É sabido que as emoções influem no funcionamento do corpo, não apenas na saúde, mas também na doença, podem ser emoções agradáveis ou desagradáveis e desempenham um papel não apenas fisiológico como também motivacional. São as emoções que nos impulsionam para a realização de nossas atividades diárias, das nossas metas, dos nossos sonhos, embora também se tornem obstáculos quando se fala de medo, insegurança e ansiedade. A emoção é sentida pela pessoa ao mesmo tempo em que o corpo responde fisiologicamente, ativando áreas específicas do cérebro e liberando diferentes substâncias na nossa corrente sanguínea.
Segundo Ballone:
"Dentro das emoções negativas, uma das reações emocionais que mais se tem estudado é, sem dúvida, a ansiedade. Este é um estado emocional reconhecidamente associado a múltiplos transtornos. Uma segunda emoção negativa que está sendo muito estudada é a raiva, por sua estreita relação com os transtornos cardiovasculares. Finalmente, a tristeza e sua representação psicopatológica, a Depressão, até pelo fato desta se acompanhar, em geral, de altos níveis de ansiedade."
Assim, cada emoção desencadeia reações diferentes em nosso corpo, fisiológicas e comportamentais, de acordo com a situação vivenciada pelo sujeito. A questão desse artigo é: e quando é um evento traumático, que consequências ele terá sobre a pessoa?
O QUE É O TRAUMA?
A palavra "trauma", do ponto de vista semântico, vem do grego trauma (plural: traumatos, traumas), cujo significado é “ferida”. A terminologia trauma em medicina admite vários significados, todos eles ligados a acontecimentos não previstos e indesejáveis que, de forma mais ou menos violenta, atingem indivíduos neles envolvidos, produzindo-lhes alguma forma de lesão ou dano.
Conforme o dicionário da infopedia, trauma, tem seu conceito psicológico:
"Acontecimento emocionalmente doloroso que torna o sujeito particularmente sensível em situações similares"
O trauma psicológico é algo particular para cada indivíduo. A vida nos trás inúmeros prejuízos durante o curso de nossa existência, cada situação é vivida de uma forma diferente por nós com base em como aprendemos a lidar com nossos problemas e situações estressoras. Desta forma o que pode ser algo extremamente para uma pessoa para outra pode ser uma situação ruim facilmente superável.
AS GUERRAS E OS ESTUDOS EM PSICOLOGIA
O período das guerras, principalmente a Primeira e a Segunda Grande Guerra Mundial foram importantes para o desenvolvimento de vários estudos na área da psicologia, psiquiatria e medicina. Os psicólogos começaram a analisar como poderia alocar melhor aqueles homens o que fez nascer o que no futuro seria chamado de Orientação Vocacional. Contudo o que nos interessa nesse período é saber dos estudos conduzidos com os combatentes que retornavam do campo de batalha. Fosse com o sem traumas físicos (amputações, incapacitações físicas) estava claro que havia algo de errado com a mente daqueles homens. Muitos acordavam a noite gritando, se escondiam embaixo de suas camas, saíam gritando no meio do almoço como se estivessem sendo perseguidos. A guerra havia destroçado suas mentes.
O trauma mental ocasionado por viver em constante situação de estresse, medo, angústia deixou marcas permanentes no psicológico desses soldados, muitos nunca mais tiveram uma vida normal. Psiquiatras e Psicólogos que estudavam essas reações perceberam um padrão: angustia, medo, ansiedade, em alguns casos até mesmo alucinações estavam presentes. Alguns apresentavam tremores incessantes, tiques, mutismos e outros sintomas difusos. Um conhecido caso extremo disso é o chamado Shell Shock (algo como choque na casca), resultado do nível altíssimo que o soldado era submetido e que seu emocional não suportava desencadeando uma espécie de somatização, ou seja, o emocional transbordando para o corpo físico. Segue um vídeo sobre o shell shock:
Muito embora a ideia do Transtorno do Estresse Pós-Traumático tenha sido um conceito desenvolvido a partir de 1980, nas classificações internacionais (CID.10 e DSM.IV), que permitiu unificar uma série de categorias de transtornos emocionais reativos a acontecimentos traumáticos anteriormente dispersos na classificação psiquiátrica.
O TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO
Esse quadro é característico principalmente devido a um fator externo que desencadeia o trauma, um fator estressante que leva o sujeito além do seu limite de suportar algo aversivo o que o leva a um quadro complexo e cuja a evolução pode ser rápida e danosa se não diagnosticada e tratada.
Segundo Ballone e Moura:
"a influência da severidade das agressões no risco de desenvolver o Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Dab (1987) assinala que a gravidade das seqüelas físicas é proporcional à importância do dano físico e que 80% dos feridos graves desenvolvem um Transtorno do Estresse Pós-Traumático. A comorbilidade do Transtorno do Estresse Pós-Traumático com Transtorno Depressivo também é maior nessas pessoas, sobretudo quando se compara a incidência de 21,8% de depressão nos sujeitos severamente feridos, que corresponde a 2,6 vezes mais que nas pessoas feridos levemente ou não feridos (Bouthillon, 1992)."
Significa dizer que quando maior e mais severa a agressão ou dano físico sofrido pelo sujeito, estatisticamente falando, mais a probabilidade de desenvolver o transtorno e não apenas isso, ocorrer também outros transtornos em concomitante como transtorno depressivo e mesmo transtorno de ansiedade generalizada.
O leitor deve estar se perguntando se só combatentes de guerras sofrem com esse tipo de transtorno e a resposta é não. Vítimas de acidente, tortura, agressões, perseguições, sequestros, incêndios, atentados podem desenvolver o transtorno de estresse pós-traumático.
Algumas manifestações do transtorno são:
1. Atitude psíquica de reviver o trauma, através de sonhos e de pensamentos durante a vigília;
2. Comportamento de evitação persistente de qualquer coisa que lembre o trauma e embotamento da resposta a esses indicadores;
3. Estado afetivo hiperexitado persistentemente.
4. Sentimento de tristeza, ansiedade, culpa, medo, raiva podem estar presentes.
5. Alucinações, delírios ou paranóia podem estar presentes.
Além disso algumas profissões sofrem mais com esse transtorno, profissões onde o nível de estresse e alerta do sujeito são constantes. Acertou quem pensou "policial", mas também, bombeiros, seguranças, pessoas que lidam com valores altos ou que estão sujeitas a violência.
UM CASO DE TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO
Eu atendi um caso deste tipo em que um jovem adolescente com menos de 15 anos brincava com o melhor amigo manuseando a espingarda "cartucheira" do avô, uma arma rudimentar e instável. Eles miraram para um lugar seguro e apertaram o gatilho. Como não houve disparo acreditaram que a arma estaria descarregada e continuaram brincando com ela. Quando o jovem mirou na cabeça do outro, ele nem precisou tocar no gatilho, a arma disparou acidentalmente atingindo a cabeça do melhor amigo que caiu banhado em sangue e morto. O jovem foi encaminhado para tratamento comigo. Passou a ser introspectivo, isolou-se socialmente, apresentava melancolia frequente, seu rendimento escolar caiu e passou dois meses sem ir a escola.
Aquele jovem se culpava constantemente pela morte do amigo, que era quase como um irmão de criação, e revivia a cena do disparo em sua mente o tempo todo. Desenvolveu sentimentos de menos valia, ou seja, passou a não se valorizar enquanto se culpava cada vez mais. Entretanto, devido ao início precoce do tratamento foi possível reverter esse quadro após 1 ano de psicoterapia, impedindo que o adolescente entrasse em depressão ou algum quadro ansioso. Minha experiência com esse jovem foi enriquecedora pois fui capaz de ajudá-lo a reestabelecer contato consigo mesmo e com a comunidade ao qual ele se isolara. Retornou a escola, suas notas melhoraram, recuperou a autonomia de si, ganhou confiança e aprendeu com a experiência negativa que viveu, nunca mais querendo contato com armas de fogo e sabendo respeitá-las. Hoje ele vive bem e não desenvolveu nenhum tipo de transtorno, tendo saído do quadro de transtorno de estresse pós-traumático e recebido alta.
Uma coisa é certa, ele nunca esquecerá o que aconteceu, mas foi capaz de superar esse evento traumático de uma forma positiva a partir do tratamento. Detalhe é que não foi necessário o uso de qualquer medicação. No caso dele apenas a psicoterapia foi capaz de lhe devolver o equilíbrio emocional necessário para continuar sua vida.
Para finalizar, as maiores vítimas desse tipo de transtorno hoje são as pessoas que vivenciam a violência urbana, acidentes de todo tipo e tortura. Procure um psicólogo para superar esses traumas antes que eles evoluam para outras psicopatologias.
Referências:
trauma In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-08-29]. Disponível em
Que tal um filme de suspense? Mesmo sendo uma ficção, o roteiro é muito bem escrito, envolvendo de mistério uma Ilha utilizada como local para tratamento de doentes mentais. O hospital psiquiátrico é isolado de tudo e todos e lá se desenvolve uma trama psicológica densa que vai deixar o expectador curioso e confuso até o ultimo instante. Um filme de fato muito bom.
A ILHA DO MEDO
Título Original: Shutter Island
Ano: 2010
Atores principais: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley
Direção: Martin Scorsese
Gênero: Drama, Thriller
Sinopse: 1954. Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) investiga o desaparecimento de um paciente no Shutter Island Ashecliffe Hospital, em Boston. No local, ele descobre que os médicos realizam experiências radicais com os pacientes, envolvendo métodos ilegais e anti-éticos. Teddy tenta buscar mais informações, mas enfrenta a resistência dos médicos em lhe fornecer os arquivos que possam permitir que o caso seja aberto. Quando um furacão deixa a ilha sem comunicação, diversos prisioneiros conseguem escapar e tornam a situação ainda mais perigosa.
Violência. A onda de violência na TV me cansa, me mostra um
mundo doente que não percebe que está doente, um mundo desumano que tenta ser
humano e cada vez mais falha miseravelmente. Pessoas cada vez mais tendo
atitudes incoerentes, deixando seus sentimentos mais sombrios e egoístas
transbordarem em uma série de atos cruéis praticados contra seus semelhantes.
Se o que nos distingue dos animais irracionais é a capacidade de refletir
porque não nos debruçamos sobre essa reflexão e pensamos melhor sobre como a
violência nos permeia? Porque deixamos a violência tomar espaço, ser liberada
como as águas caudalosas de uma represa arrebentada, diretamente escoando de
nosso inconsciente, de nossas frustrações, de nossos desejos sombrios. Porque é
bom ser violento, esse é o motivo.
Somos reprimidos o tempo todo, somos tolhidos em nosso ser
contra nossas frustrações, nossos sonhos esmagados, nossas esperanças
desastrosas e acabamos por afundar em nossa própria angústia, atrás de uma boia
que possa nos salvar da perdição de nossa própria falha. E aí vem a raiva, a
vontade de descarregar todo ódio contra esse mundo injusto, nas pessoas que
acharam que nos prejudicaram, o desejo de vingança vem como uma febre
inesperada tomando todo nosso ser e quando percebemos estamos agindo como nunca
esperávamos que fôssemos capazes. Mas somos, porque o ser humano é o pior
animal do mundo, por ser racional, é capaz de mais irracionalidades que os
irracionais. E assim, a violência cresce pautada nos egos feridos, nos limites
frágeis da constituição humana, atingindo toda sociedade num efeito dominó
incontrolável. Se por acaso trocássemos a violência pela gentileza o efeito
seria muito mais saudável, proveitoso, contudo o homem é seu próprio algoz.
E assim, eu estou cansado, cansado dessa violência sem
sentido. Abomino-a, e abomino a mim mesmo por saber que muitas vezes ela é
necessária.
Hoje gostaria de compartilhar com vocês um pouco sobre a famigerada
"Síndrome do Pânico" como é popularmente conhecida ou Transtorno de Ansiedade Generalizada ou ainda
Transtorno do Pânico (ansiedade paroxística episódica) um quadro bastante
frequente nos dias de hoje e cujo venho me deparando comumente na clínica.
Acredito que de dez pacientes que vem ao meu consultório, seis relatam sintomas
compatíveis com o quadro.
O que é Transtorno de Ansiedade Generalizada e Transtorno do
Pânico?
São quadros bem similares associados a diversos sintomas,
sendo a principal sensação o ataque de
pânico onde a pessoa sente um medo irracional, muitas vezes acreditando que
vai morrer ou passar muito mal. Esse ataque de pânico causa várias alterações
orgânicas no momento em que é desencadeado, tais como taquicardia,
hiperventilação, pressão arterial elevada, asfixia, náusea, desconforto
abdominal, tontura, dores no peito e sensações subjetivas de pavor e morte
iminente (DSM-IV-TR, 2003). No Transtorno
do Pânico a característica essencial são os ataques de pânico, já na ansiedade
generalizada os sintomas são
variáveis, mas compreendem nervosismo persistente, tremores, tensão muscular,
transpiração, sensação de vazio na cabeça, palpitações, tonturas e desconforto
epigástrico, sempre iniciados por um pico de ansiedade que faz a pessoa passar
mal.
Como a pessoa desenvolve esses quadros?
Geralmente são pessoas jovens, que trabalham, estudam, tem
diversas responsabilidades, mas também atinge uma parcela considerável de
pessoas de meia idade. Algumas características da personalidade dos pacientes
que atendo sempre se repetem, um indicativo de que as formas de agir mal adaptadas
contribuem para desencadear o quadro clínico. São pessoas controladoras,
excessivamente preocupadas com tudo, são pouco flexíveis nas situações
cotidianas, sofrem de níveis elevados de estresse, tem expectativas altas em
relação ao que fazem, os pensamentos negativos de falha ou incapacidade são
predominantes, acumulam problemas, estão sempre cheios de conflitos internos e
externos. Tudo isso faz com que a pessoa sinta uma pressão ambiental muito
intensa, culpando o mundo externo por suas falhas, levando-a a temer agir e
desempenhar seus papéis sociais.
Simplesmente o sujeito começa a passar mal, os níveis de
ansiedade se elevam e desencadeiam os processos citados acima, o que leva a
pessoa a acreditar em várias distorções: a mais comum é achar que tem um
problema cardíaco, acabam indo parar nas emergências dos hospitais acreditando
piamente que estão enfartando até os médicos perceberem que não se trata disso
e receitarem "calmantes" para essas pessoas; outras passam a evitar
sair de casa, ir a escola/faculdade, ir ao trabalho pelo medo de passar mal (como
dizem muitos dos meus pacientes, "Tenho medo de passar mal e não ter
ninguém pra me ajudar" ou "Eu sei que se eu sair eu vou passar
mal" (sic)).
A pessoa simplesmente não entende o que está acontecendo com
seu organismo e o medo vira um ciclo que é retroalimentado pelas suas falhas
que geram mais ansiedade e insegurança, assim quanto mais medo de passar mal,
mais forte é a crise, mais incerteza a pessoa tem sobre suas capacidades e sua
tendência é evitar todas as situações que lhe pareçam ameaçadoras. Quanto mais
tempo a pessoa demorar para procurar um profissional, mais o quadro irá se
agravar levando diversas perdas ao seu universo pessoal. É importante salientar que esse quadro pode
vir associado a outros Transtornos, como Depressão, por exemplo, tudo vai
depender da avaliação do Psicólogo/Psiquiatra para determinar o diagnóstico.
Hábitos saudáveis ajudam a prevenir a manifestação da
ansiedade excessiva. É importante que a pessoa tenha um lazer, não trabalhe
excessivamente ou evite o estresse no trabalho, em casa que aprenda a lidar com
os conflitos familiares, com os conflitos internos, faça atividade física e
evite álcool e tabagismo. Na dúvida, não tenha medo de recorrer a um
profissional afim investigar seus sintomas para determinar se existe um quadro
de Ansiedade Generalizada ou Ataque de Pânico estabelecido. O tratamento não é complicado, mas requer uma
mobilização do paciente para mudança de certos hábitos e dependendo da
intensidade dos sintomas pode ser necessário uma intervenção farmacológica.
Referências:
CID -10 - Classificação dos transtornos mentais e de comportamento da CID 10: Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas - Organização Mundial de Saúde, trad. Dorgival Caetano, Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
DSM IV- Critérios Diagnósticos do DSM-IV, 4a ed, Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
Para começar as atividades deste blog, resolvi fazer uma postagem que englobasse uma série de dúvidas e questões comuns que as pessoas tem. As perguntas são baseadas nos questionamentos que eu escuto por aí, de pessoas leigas que não conhecem o trabalho do psicólogo, então o intuito aqui é o esclarecimento.
Este será um dos posts mais interessante desse blog e também
um dos mais úteis, uma vez que estarão reunidas aqui várias perguntas e
respostas ligadas a atuação do psicólogo. Gostaria que vocês também enviassem
suas dúvidas para que sejam acrescentadas aqui, enviem a pergunta/dúvidas para
o e-mail leonardobozzano@hotmail.com e na mensagem não esqueçam de incluir nome
(ou um pseudônimo) e idade.
Qual é o trabalho do Psicólogo?
R: Depende da área onde ele atua, mas o princípio norteador
da atuação de qualquer psicólogo é o seu Código de Ética. Devemos primar pelo
bem estar dos nossos pacientes e das pessoas com quem trabalhando, sempre
respeitando os Direitos Humanos e as convicções particulares de cada indivíduo.
Quais as áreas de atuação da Psicologia?
R: Inúmeras. Psicologia Clínica, Psicologia Organizacional,
Hospitalar, Escolar, Jurídica. Vai depender de onde o profissional estiver
inserido.
Todo psicólogo atende pessoas?
R: Não. Geralmente são os psicólogos clínicos que realizam Psicoterapia, se for esse tipo de
atendimento ao qual você se refere. O Psicólogo Escolar por exemplo orienta os
alunos e elaboras estratégias dentro do contexto escolar para melhorar o
desempenho, auxilia no processo de escolha vocacional, enquanto o Psicólogo
Hospitalar atende pacientes internados nas unidades hospitalares, atuando de
forma a minimizar o sofrimento e a angústia desses. O Psicólogo Organizacional
trabalha com recrutamento e seleção, desenvolve estratégias dentro da empresa
visando a melhoria das relações de trabalho e o desempenho dos funcionários. O
modelo de atendimento clássico que a maioria das pessoas imagina é realizado
mesmo pelo Psicólogo Clínico, num consultório adequado e privado.
Como eu sei que eu preciso procurar ajuda de um Psicólogo?
R: Se você estiver passando por alguma problema contínuo e
não estiver conseguindo superar uma determinada situação, seja sozinho ou com
suporte de amigos/família esse é um bom indicativos. Estados duradouros de angústia,
medo, insegurança, solidão também. A nossa mente sempre busca alternativas para
escapar de estados que nos cause sofrimento, mas quando isso se torna
persistente e começa a afetar seu dia a dia, dificulta a realização de
atividades cotidianas como ir a escola, trabalhar, se relacionar com as
pessoas, então é um bom indicativo para buscar ajuda.
Posso ir ao Psicólogo sem ter nenhum problema aparente?
R: Sim, não há contraindicação para psicoterapia. Ela pode
tanto ajudar uma pessoa com transtornos psicológicos, quanto auxiliar no
autoconhecimento e no desenvolvimento de capacidades interpessoais.
Estou sentindo coisas estranhas, procurei na internet de
acordo com meus sintomas e acho que tenho um transtorno psicológico grave. O
que devo fazer?
R: Primeiro tenha calma. Entenda, não é porque você
conseguiu comparar o que você sente com descrições de transtorno que você terá
um. Para caracterizar um transtorno a pessoa deve ter vários sintomas que
preenchem critérios diagnósticos. Além disso, deve ser avaliada por um profissional
Psicólogo ou Psiquiatra que poderá esclarecer esse diagnóstico. Então nada de
ficar procurando doenças na net!
Quais os tipos de problemas que o Psicólogo trata?
R: Além dos Transtornos Psiquiátricos, o psicólogo clínico pode
trabalhar inúmeras questões, desde gagueira até ejaculação precoce. Mas
lembre-se que antes de tudo o psicólogo avalia a gênese do problema,
investigando tudo para determinar se a causa de um problema é mesmo
psicológica. Se o paciente já vem do médico dizendo que "meus exames não
deram nada" aí começa nosso trabalho. Não vamos psicologizar tudo, existem
patologias de causa orgânica e de causa psíquica.