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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Estigmas em Saúde Mental


Olá caros leitores, meu objetivo com esse texto é levar vocês a uma reflexão sobre os estigmas que os portadores de algum problema psicológico sofrem. Como eu sempre gosto de fazer, vamos ver a definição da palavra estigma, apesar de seus vários significados o que nos interessa é esse:

Estigma: Figurado. O que pode ser considerado ou definido como indigno; desonroso.

Os membros de nossa sociedade estão sempre prontos a realizar um julgamento, seja de uma pessoa, situação ou condição, na grande maioria das vezes sem se preocupar em conhecer aquilo que está julgando, não buscando compreender o contexto da situação. Desta forma é que os loucos são taxados de incapazes, são vistos como párias. Esse artigo é quase uma continuação do anterior que trata sobre a loucura, se você não viu clique aqui.

Muitos pacientes que eu atendo referem o medo de ficar loucos, de perder o controle e de serem taxados de incapazes pelos que o cercam, pela sociedade em si, mas principalmente é o medo de como serão vistos por amigos e familiares. A maioria dessas pessoas sequer possui um problema psicológico grave que as faça perder a noção da realidade. Se você me perguntasse o que é a loucura e eu lhe responderia da forma mais simples: é uma pessoa que perde a noção do que é real. Esses pacientes que se questionam estão tristes e fragilizados devido aos problemas que passam e vivem com medo do estigma da loucura, porque o simples pensamento de não ser mais aceito em seus círculos sociais é terrível.

Mas e os portadores de transtornos sérios? Que estigmas eles enfrentam?

Pacientes esquizofrênicos, na minha opinião, são uns do que mais sofrem com a estigmatização das doenças mentais. Isso porque a esquizofrenia é uma doença antiga, complexa, que mesmo com os avanços da neurociência, da neuropsicologia, continua com mais lacunas do que certezas. Sabemos muita coisa sobre ela hoje, avançamos muito, conhecemos vários fármacos que ajudam no seu controle. Apesar disso ainda não existe um remédio que cure o preconceito. Porque as pessoas temem os esquizofrênicos? Por conta de suas alucinações? De seus delírios? De suas idéias absurdas e seu comportamento bizarro? Ou será que é medo de se tornar um deles, como se ao olhar para o doente e sentisse "Poderia ser eu ali".  


Esquizofrênicos são pessoas como eu e você, apenas tem uma experiência diferente de ver o mundo. Alguns de vocês pode estar se perguntando se estou mesmo falando de uma doença. É uma doença porque causa sofrimento para a pessoa e para a família. Como disse anteriormente, não é fácil compreender a esquizofrenia e o próprio esquizofrênico necessita de alguém que o oriente, que o acompanhe nessa jornada sem fim (a esquizofrenia não tem cura), e esse profissional é o Psicólogo/ Psiquiatra. 

Esse mesmo sentimento do paciente esquizofrênico é sentido por outros pacientes com depressão,
transtorno de ansiedade, transtorno de pânico. Eles simplesmente não entendem o que está acontecendo com eles e são dominados pelo temor da loucura. Seus parentes, maridos, esposas, filhos também entram nesse jogo pelo desconhecimento do que é um transtorno mental e se tornam ansiosos e temerosos pelo que pode acontecer. Entretanto ansiedade e depressão tem um prognóstico melhor, ou seja, a evolução para uma "cura", (coloquei as apas porque a noção de cura em saúde mental se refere a qualidade de vida e a lidar com os sintomas, sendo que algumas patologias simples podem ter recaídas de acordo com o tratamento e como a pessoa lida com seu problema), é bem mais simples do que a esquizofrenia.  

Toda doença, com tratamento e acompanhamento profissional adequado pode ser tratada e os transtornos mentais não fogem a regra. Se as pessoas procurassem se informar mais acerca do que é o problema psicológico antes de conceber um preconceito ou julgamento acerca daquilo, talvez o sofrimento dessas pessoas fosse amenizado e nossa sociedade se tornasse menos intolerante. 



Referências:

http://www.dicio.com.br/estigma/


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Psicoterapia e Medicalização do Sujeito

Muito se discute sobre a necessidade do uso de medicação psicoativa e da eficácia da psicoterapia. Nesse breve artigo tentarei falar de ambas, sua importância e a necessidade de cada uma. 

Vivemos num futuro onde a maioria das doenças são curáveis através de vacinas, de máquinas especiais ou de remédios. Medicamentos são drogas que agem no corpo, alterando a bioquímica das células de modo a alcançar um efeito específico. Numa definição mais específica, medicamento é:

"Toda a substância ou associação de substâncias apresentada como possuindo propriedades curativas ou preventivas de doenças em seres humanos ou dos seus sintomas ou que possa ser utilizada ou administrada no ser humano com vista a estabelecer um diagnóstico médico ou, exercendo uma ação farmacológica, imunológica ou metabólica, a restaurar, corrigir ou modificar funções fisiológicas"

Em medicina é um recurso bastante utilizado para tratar inúmeras moléstias, mas quando chegamos no campo da saúde mental esbarramos em vários pré-conceitos, estigmas e inverdades e práticas desnecessárias que muitas vezes dificultam a adesão do tratamento e trazem descredibilidade ao tratamento Psicológico e Psiquiátrico. Acontece que as drogas psicoativas (ou substância psicotrópica, é uma substância química que age principalmente no sistema nervoso central, onde altera a função cerebral e temporariamente muda a percepção, o humor, o comportamento e a consciência) evoluíram muito ao longo dos anos, embora muitas vezes sejam utilizadas de forma indevida. 

Acontece que quando é feito o diagnóstico Psicológico/Psiquiárico, muitas vezes se faz necessário o uso de medicamentos específicos para ajudar no tratamento; drogas que vão aliviar o mal estar, reduzir a ansiedade, o medo, aliviar a sensação de tristeza e pânico, reduzir a insônia, eliminar as alucinações e os pensamentos delirantes e o comportamento maníaco. Os medicamentos psicoativos servem para uma infinidade de quadros sintomatológicos e tem sua eficácia comprovada através de estudos médicos, neurológicos e neuropsicológicos. 

Entretanto, por conta da falta de preparo, humanização ou boa vontade do profissional o paciente nem sempre é informado do seu diagnóstico e na grande maioria das vezes também não é orientado acerca da medicação que está fazendo uso. Toma os "remédios pra cabeça"(ou para os nervos) sem saber para que servem, seus efeitos, etc. Dependendo do paciente isso pode até ser irrelevante, mas mesmo um paciente que não responde pelos atos da vida civil, como um paciente com algum grau de retardo mental, esquizofrenia ou psicose, a família deveria ser informada sobre tudo, afinal faz parte do tratamento.

Pela minha experiência cotidiana existe uma prática entre muitos profissionais da psiquiatria que é a de apenas medicar o paciente, muitas vezes sem ouvi-lo realmente, sem conhecer sua queixa real, sua necessidade, pondo toda responsabilidade da cura no medicamento. Uma vez que o sujeito é colocado em segundo plano, a melhora ou a "cura" dessa pessoa acaba tomando um rumo incerto, uma vez que essa medicação psicoativa atua nos sintomas dos transtornos psicológicos e não na causa, assim sendo apenas aliviam e mascaram o problema.


QUAL O PAPEL DA PSICOTERAPIA?

Aliado ao diagnóstico e a medicação existe a psicoterapia. Sua definição é:




"Um tipo de terapia, cuja finalidade é tratar os problemas psicológicos, tais como depressão, ansiedade, dificuldades de relacionamento, entre outros problemas de saúde mental. É um processo dialético efetuado entre um profissional, o psicoterapeuta - que pode ser psicólogo ou psiquiatra - , e o cliente ou paciente".


Os objetivos da psicoterapia são:

-Restabelecer o funcionamento psíquico do paciente para que volte ao estado de equilíbrio;
-Permitir que o paciente compreenda o que acontece com ele a nível psicológico, emocional e comportamental para que possa encontrar recursos psíquicos para lidar com suas dificuldades, problemas, etc;
-Desenvolver meios de agir no mundo, estratégias, redefinindo suas atitudes, pensamento e modo de encarar a vida;
-Solucionar problemas pontuais, que o afligem (como a perda de um ente querido, por exemplo), bem como, tratar de questões de cunho mais existencial.

Você deve estar se perguntando se para tratar tudo isso é necessário medicação e a resposta é: não. Muitos problemas que chegam aos consultórios de Psicologia/Psiquiatria poderiam ser trabalhados apenas com psicoterapia, sem necessidade de medicação, embora muitos psiquiatras acreditem que o seu maior poder esteja na prescrição dessas drogas e muitos pacientes julguem que somente essas drogas vão tirá-los de seu problema. Esse é um erro tão comum, mas tão gritante que deveria ser esclarecido ao pacientes pelos bons profissionais que trabalham na área. Um bom diagnóstico vai delimitar a real necessidade ou não da medicação.

Deixo claro aqui que algumas condições clínicas são crônicas e o uso da medicação é imprescindível, até mesmo pelo resto da vida como nas esquizofrenias, psicoses, transtorno obsessivo compulsivo, transtornos de personalidade (borderline, por exemplo). Nesses casos é fundamental o uso contínuo da medicação que melhor se adequar ao paciente, mas também se faz necessário a psicoterapia para ajudar o paciente a lidar com seus sintomas, com sua angústia e aprender melhor sobre seu transtorno de modo que possa ter uma qualidade de vida.


A farmacologia e a psicoterapia não devem ser inimigas, mas aliadas. Minha crítica gira em torno a penas do uso desnecessário de medicamentos em situações que o paciente pode lidar com a ajuda da psicoterapia, sendo que muitas vezes é encorajado por médicos (clínicos ou psiquiatras) a usar determinada medicação como forma de alívio imediato dos sintomas. O problema é que o sintoma aliviado não some, muitas vezes ele muda de lugar e cresce como um monstro que começa a devorar o sujeito por dentro. Sem um trabalho terapêutico de pouco adianta a medicação, ela irá só amenizar os sintomas físicos, mas não dará autonomia para o paciente para compreender suas dificuldades reais e lidar com ela. Outra questão é que a medicalização desnecessária possa criar pessoas dependentes de certas classe de remédios, os famosos tarja preta. Já atendi pessoas dependentes de diazepam, por exemplo, que usavam a droga há 30 anos sem necessidade alguma.

Desta forma, sempre questione seu médico sobre a real necessidade do medicamento, sobre seus efeitos no seu corpo e sobre os benefícios de usá-lo. Para finalizar, lembro de uma vez em que eu estava com muita insônia e fui a um clínico geral, já esperando que ele fosse me medicar com algum sedativo, como é de praxe. Depois de duas horas de consulta (isso mesmo, duas horas, enquanto que muitos médicos passam dez minutos para examinar um paciente), o simpático doutor cuja filha era psicóloga me deu orientações em como lidar com meu estresse e não me passou NENHUM remédio. Pela primeira vez na vida saí de um consultório médico sem receita. Quem dera existissem mais profissionais médicos assim, com um olhar mais humano e menos biológico/farmacológico.




Referências:

Vida Celeiro - Revista de Saúde, Beleza e Bem-estar. N.º16 - Inverno 2012. Pág.26

http://www.dre.pt/pdf1s/2006/08/16700/62976383.pdf

http://www.infoescola.com/psicologia/psicofarmacologia/

quinta-feira, 20 de março de 2014

Depressão, Sim ou Não?


Quando você vê uma pessoa triste, quieta ou chorando por alguns dias qual a primeira coisa que lhe vem a cabeça? Sim, que a pessoa é "depressiva" ou que está com depressão. No artigo de hoje vamos ver que não é bem assim, vamos aprender um pouco sobre o que é e como se manifesta a depressão e desconstruir alguns preconceitos que estão instaurados em nossa cultura.


Como sempre gosto de fazer em meus artigos, o primeiro passo seria definir o que é depressão. A definição do dicionário é: "Estado patológico de sofrimento psíquico assinalado por um abaixamento do sentimento de valor pessoal, por pessimismo e por uma inapetência face à vida.". Parece conter bastante informação útil sobre o que percebemos de uma pessoa supostamente depressiva. Tristeza, raiva, alegria são sentimentos que fazem parte da constituição humana e só não os expressam pessoas com algum problema neurológico ou psicopatológico sério (psicopatas não expressam tristeza ou remorso, por exemplo). Depressão é um transtorno psicológico que afeta o físico e o emocional do sujeito, dificulta ou impede que ele exerça suas funções cotidianas, além de que gera um sentimento de vazio e angústia intensa, ocorrendo uma série de sintomas específicos e se prolongando por várias semanas. 

A tristeza tem um papel adaptativo, pois anuncia para os outros que aquele indivíduo está precisando de amparo, de ajuda. A tristeza pode aumentar significativamente e se desenvolver de formas bem distintas como consequência de vários fatores diferentes, internos ou externos. Daí a complexidade de definir  o quadro de Depressão, porque existem diversos tipos de Depressão e formas específicas dela se manifestar. Além disso, ela pode aparecer "anexada" a outros quadros clínicos de alteração psicológica, como Esquizofrenia, Transtorno por Abuso de Álcool, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Demência, só para citar alguns. E pode surgir sozinha, caracterizando o Transtorno Depressivo.


MELANCOLIA É DEPRESSÃO?

Melancolia é um estado de tristeza, um momento onde o indivíduo experimenta baixa energia para realizar suas atividades, sente-se fraco psiquicamente e manifesta alguns pensamentos negativos. Mas isso não é Depressão. Vários estados podem despertar a melancolia no ser humano, uma frustração, um problema, saudade de uma pessoa querida. O problema é quando essa melancolia se intensifica e começa a tomar outras formas. 

Algo bastante comum é quando perdemos um ente querido. O processo de tristeza pela perda de uma pessoa estimada por nós é chamado de Luto, e a elaboração desse luto é um processo natural desde que o homem pisou na Terra. Cada cultura tem sua maneira de lidar com esse processo, a nossa está muito associada ao apego e portanto, a dor vivenciada com muita intensidade. Em culturas africanas, por exemplo, o processo de luto é festivo, não há tristeza mas alegria porque para eles aquele indivíduo atingiu uma nova esfera de existência. Nosso modo brasileiro de encarar o luto é bem comum em qualquer parte: choro, comoção durante o velório e enterro e sentimento de melancolia intensa nos dias que se seguem. Todavia se o indivíduo não consegue elaborar esse luto, ou seja, se ele não consegue restaurar seu desejo de prosseguir com sua vida, com suas atividades cotidianas e se apega aquele sofrimento podemos estar diante de um caso de Depressão reativa por luto mal elaborado. Mas isso se a pessoa passa meses assim. Estar triste pela perda de alguém não torna essa pessoa doente de Depressão, ela pode sim estar melancólica e deprimida, mas a tendência é que sua psiquê se restabeleça aos poucos e que retorne ao seu cotidiano. Existe uma tendência atual de impedir que a pessoa vivencie esse luto, o que não é benéfico, uma vez que o ser humano deve passar pelas fases do sofrimento para que o equilíbrio emocional retorne, suprimir isso é fazer com que esse luto volte em algum momento do futuro de forma patológica prejudicando ainda mais a pessoa. É direito seu rir, se alegrar, se emocionar e sofrer. Ninguém quer sofrer, mas faz parte da vida.


E COMO SABER SE A PESSOA ESTÁ OU NÃO COM DEPRESSÃO?

Você pode suspeitar por conta do comportamento que vai dando várias pistas, embora somente o
especialista Psicólogo ou Psiquiatra possam melhor diagnosticar qualquer estado depressivo. Quando a pessoa exibe um quadro de tristeza muito prolongado, excesso de pensamentos negativos e autodepreciativos ("eu não presto", "não sei fazer nada", "sou muito feio", "nunca vou ser ninguém", apenas alguns exemplos), alterações no apetite e no sono e incapacidade de seguir com as atividades normais do cotidiano, é muito provável que esteja vivenciando algum tipo de estado depressivo. Outro sinal são comportamento autoagressivos, onde a pessoa se agride, ou exibe esse desejo e claro os pensamentos suicidas. Em todo caso, o paciente deve ser encaminhado para uma avaliação.


ALGUMAS CAUSAS DA DEPRESSÃO


Não vou entrar muito em termos de descrição nosológica, como sempre friso esse blog é para leigos e não uma tese de mestrado, então vou ser simplista e enumerar algumas das possíveis causas de estados de Depressão. Temos as causas internas e externas. Todo mundo imagina logo que aconteceu algo na vida de uma pessoa para que ela esteja naquele estado lastimável, mas nem sempre é assim. Muitas vezes uma queda na quantidade de neurotransmissores, substâncias químicas produzidas pelos neurônios que enviam informações a outras células, pode causar uma Depressão controlada apenas com medicação, por exemplo. 

Excessos de fracassos podem levar a pessoa a um desamparo prolongado que tem a possibilidade de culminar numa Depressão caso ele não desenvolva mecanismos adaptativos suficientes para lidar com as dificuldades no meio em que se encontra. Abuso de substâncias, principalmente drogas (lícitas ou ilícitas), podem gerar estados Depressivos, mais comumente álcool, cocaína e crack. Além desses fatores, outros transtornos psicológicos podem levar a estados depressivos e doenças físicas (pacientes com doenças terminais, ou crônicas como alguns tipos de reumatismo, fibromialgia, por exemplo.). 

Que fique claro aqui, Depressão não é frescura, não é invenção da pessoa, não é desculpa para não trabalhar, não é preguiça. Muita gente tem dificuldade de se colocar no lugar do outro, até compreensível visto que a Depressão é algo que gera um intenso sofrimento psíquico, mas não é uma simulação, é real e afeta a pessoa como um todo. É preciso respeitar e apoiar esse paciente na sua crise e acima de tudo, buscar uma ajuda para ele, uma vez que em muitos casos o paciente não tem forças para buscar ajuda.

Quaisquer dúvidas ou questões, fiquem à vontade para me mandar e-mails, comentários ou marcar uma consulta. Espero que essas informações tenham sido úteis.


Referências:

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=53

CID -10 - Classificação dos transtornos mentais e de comportamento da CID 10: Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas - Organização Mundial de Saúde, trad. Dorgival Caetano, Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

DSM IV- Critérios Diagnósticos do DSM-IV, 4a ed, Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.




quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Alucinações e Loucura


Alguma vez na vida você já deve ter se perguntado, mesmo que por brincadeira, "Estou ficando louco?", frente a alguma situação em que você reagiu de forma totalmente diferente do que você agiria ou em face de alguma experiência quase "sobrenatural" que tenha passado pelos seus sentidos. No artigo de hoje vamos...


O que é alucinação?

Primeiro, não me refiro aquela música do Belchior. Segundo para o dicionário da língua portuguesa, alucinação é: 

s.f. Sensação mórbida produzida por algo inexistente.
Devaneio, delírio, ilusão.
Obscurecimento passageiro das faculdades mentais.

Essa é a definição do dicionário, mas delírio e ilusão são outros sintomas psiquiátricos, então vamos a definição de alucinação para a saúde mental. Alucinação, segundo a definição do Dr. Cleto Ponte é uma percepção sensorial falsa não associada a estímulos sensoriais externos, o qual é aceita pelo paciente como verídica. É a percepção real de algo inexistente sem um estímulo externo. Dizemos que a percepção é real, tendo em vista a convicção inabalável que a pessoa manifesta em relação ao objeto alucinado, portanto, será real para a pessoa que está alucinando. 

Mas aí a grande questão que a maioria das pessoas imagina é: se estou alucinando, estarei louco? Estou perdendo a razão, a sanidade? A resposta é: depende. Vamos entender porque.

TIPOS DE ALUCINAÇÃO

Existem alucinações para cada um dos sentidos. 
Alucinações visuais: são as mais comuns, onde o indivíduo vê pessoas, seres, objetos, paisagens, qualquer coisa relacionada com a visão por mais absurda. Já tive pacientes que viam demônios saindo das pessoas, por exemplo.

Alucinações auditivas: também são bastante comuns, a pessoa ouve sons, vozes ou barulhos que não estão no ambiente. Geralmente essas vozes dão comandos ou reforçam uma ideia negativa que a pessoa tem de si ("Você é um fracassado", "Você vai morrer", "Ninguém gosta de você", por exemplo). Tive um paciente que disse que a Virgem Maria lhe disse que o mundo iria acabar e só restaria a cidade onde ele mora.

Alucinações gustativas: incomuns, mas curiosas. O sujeito tem a absoluta certeza de gostos e sabores em sua boca que não estão lá. Gosto de sangue, fezes e outras coisas. Já atendi uma paciente que relatava um gosto de pimenta na boca.

Alucinações táteis: a pessoa tem plena convicção de que há algo no seu corpo ou algo errado com o seu corpo. Há relato de pacientes que sentem formigas ou outro tipo de inseto em seu corpo.

Alucinações olfativas: também são incomuns, o paciente sente odores que não estão no ambiente, geralmente esses odores o acompanham o tempo todo, causando um incômodo constante.


Então, se eu tive algum tipo de alucinação desses, estou ficando doido? Vão me internar num Hospital Psiquiátrico? Claro. Que não. Existem alguns estados que podem ocasionar alucinações em uma pessoa mentalmente saudável.


ALUCINOSE ORGÂNICA

Neste tipo, o sujeito é acometido por alguma moléstia orgânica que o faz alucinar, não tendo a ver com transtorno psiquiátrico. Um exemplo clássico disso é a alucinose por abuso de álcool, uma vez que pessoa com histórico de alcoolismo pode alucinar devido a intoxicação pelo álcool ou pela sua abstinência. A utilização de drogas (lícitas ou ilícitas) pode provocar alucinação. Usar algumas categorias de medicamento e ingerir bebidas alcoólicas pode provocar alucinação. Problemas nos rins, quando os rins estão falhando e o nível de impurezas no sangue aumenta pode também provocar estados alucinatórios, revertendo o quadro quando a patologia é sanada. Drogas como LSD, Crack causam alucinação, abuso de cocaína e outras drogas também. Problemas metabólicos (uremias e diabetes) podem causar alucinação. Traumas (pancadas) na cabeça ou tumores cerebrais podem causar alucinação. Como vimos, em todos os casos citados o problema é essencialmente orgânico ligado a um fator externo que pode ser revertido dependendo da gravidade do problema, fazendo com que a pessoa pare de alucinar.


É possível alucinar sem que seja qualquer uma das situações acima e que não seja um transtorno mental? A resposta é sim! Privação de sono, estados intensos de estresse podem provocar alucinações passageiras. Quando se está caindo no sono e quando se está acordando é possível alucinar, e vou logo avisando que é um processo involuntário. Imagine que você está sonhando com um bombardeio, bombas caindo e explodindo tudo. Você acorda assustado, e mesmo acordado você ouve o barulho das explosões dos aviões por alguns minutos e depois tudo silencia. O nome disso é alucinação hipnopômpica, porque ocorre ao acordar. Agora se você está deitado na sua cama e está quase adormecendo, você sabe que está só no seu quarto e sente a cama afundando como se alguém deitasse com você e depois você dorme. Isto é uma alucinação hipnagógica, porque ocorre ao adormecer. Nenhuma é indicativo de algum problema, todo mundo passa por várias dessas durante a vida. 


Mas então como saber se uma pessoa que está alucinando precisa de tratamento? Alucinação é só um sintoma, o que caracteriza qualquer transtorno são uma série de sintomas, desta forma, depende não só da alucinação, mas do tipo de pensamento e comportamento que o sujeito está manifestando. O ideal é procurar um Psicólogo para que ele possa avaliar. 


OBS: Esse é um site para leigos, então procuro ser o mais claro e simples, evitando jargões complexos e excesso de teoria clínica. Se tiverem alguma duvida, podem perguntar nos comentários ou mandem um e-mail. 


Para saber mais: http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=103

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Psicologia, Cinema e Pipoca #6: A Ilha do Medo

Que tal um filme de suspense? Mesmo sendo uma ficção, o roteiro é muito bem escrito, envolvendo de mistério uma Ilha utilizada como local para tratamento de doentes mentais. O hospital psiquiátrico é isolado de tudo e todos e lá se desenvolve uma trama psicológica densa que vai deixar o expectador curioso e confuso até o ultimo instante. Um filme de fato muito bom.




A ILHA DO MEDO

Título Original: Shutter Island
Ano: 2010
Atores principais: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley
Direção: Martin Scorsese
Gênero: Drama, Thriller

Sinopse: 1954. Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) investiga o desaparecimento de um paciente no Shutter Island Ashecliffe Hospital, em Boston. No local, ele descobre que os médicos realizam experiências radicais com os pacientes, envolvendo métodos ilegais e anti-éticos. Teddy tenta buscar mais informações, mas enfrenta a resistência dos médicos em lhe fornecer os arquivos que possam permitir que o caso seja aberto. Quando um furacão deixa a ilha sem comunicação, diversos prisioneiros conseguem escapar e tornam a situação ainda mais perigosa.


Veja o trailer do filme: