Ouço muitas pessoas no dia a dia se referindo a outras como "fulano é bipolar, uma hora faz uma coisa, outra hora faz outra" e comentários similares para tentar caracterizar o comportamento de alguém num quadro patológico. Hoje falaremos sobre o que realmente é o Transtorno Bipolar e como ele se manifesta.
Olá, eu me chamo Leonardo e sou Psicólogo registrado pelo Conselho Regional de Psicologia, CRP da 11a região sob o número 05089. O objetivo desse blog é esclarecer as pessoas sobre questões ligadas a Psicologia usando uma linguagem simples, acessível e incentivar reflexões acerca da natureza humana, da sociedade e de problemas do cotidiano.
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sábado, 26 de maio de 2018
O QUE É O TRANSTORNO BIPOLAR?
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segunda-feira, 18 de setembro de 2017
DEPRESSÃO E SUICÍDIO- ENTREVISTA NO PROGRAMA TODOS OS SENTIDOS
Olá, sejam muito bem vindos a mais uma postagem! Trabalho e mais trabalho. Ah, como eu gostaria de ter mais tempo para postar aqui. O programa 10 minutos de Psicologia está parado por problemas técnicos que ainda não consegui solucionar. Entretanto, segue minha entrevista para o programa Todos os Sentidos, da Rádio Universitária da Universidade Federal do Ceará, originalmente transmitido no dia 13/09/2017, que agora disponibilizo para que vocês possam ouvir na íntegra. Falamos sobre Depressão e Suicídio, esclarecendo muitas dúvidas dos ouvintes! Espero que possa ajudar a não só passar mais conhecimento para vocês como ajudar a quem precisa.
#SetembroAmarelo #EspalheVida #EspalheAmarelo
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
O QUE É A BULIMIA?
Olá! Hoje vamos falar sobre Bulimia, explicando muitas coisas a respeito desse transtorno, falando sobre o diagnóstico e o tratamento.
Basicamente a Bulimia é um transtorno que se caracteriza por episódios recorrentes e incontroláveis de compulsão alimentar, seguidos de reações inadequadas para evitar o ganho de peso, tais como indução de vômitos, uso de laxativos e diuréticos, jejum prolongado e prática exaustiva de atividade física.
Compulsão alimentar é a ingestão de uma grande quantidade de comida, por um período de tempo (menos de duas horas). A pessoa sente que não tem controle e acaba ingerindo essa grande quantidade de alimento, comendo duas a três vezes do mais do que normalmente ela comeria. O tipo de alimento ingerido pode variar, de acordo com cada indivíduo.
As pessoas que tem Bulimia em geral sentem muita vergonha dos seus atos para perder peso (indução de vômitos, uso de laxativos, etc), e procuram esconder o que estão fazendo da família e dos amigos. Isso é um problema porque o problema acaba se estendendo muito antes que a pessoa busque ajuda. Lembro de uma paciente que eu atendi que a família só descobriu o que estava acontecendo quando encontraram sacos cheios de vômito debaixo da cama dela.
A pessoa acaba tendo sentimentos negativos em relação aos alimentos, ao peso corporal e a forma do corpo. O aspecto essencial da Bulimia é o comportamento recorrente de utilizar meios mal adaptados para evitar o ganho de peso. Em alguns casos a pessoa vai comer sempre com o objetivo de vomitar depois e este é o comportamento compensatório inapropriado mais comum.
Pessoas com esse transtorno tem sérios problemas de autoestima e sempre enfatizam a forma negativa como se percebem, demonstrando distorções em relação a sua autoimagem. Mesmo o paciente estando com baixo peso, ele continua a se achar feio e gordo. Então pessoas com baixa autoestima, preocupações excessivas com peso e com a o corpo, sintomas depressivos e ansiosos são fatores que podem desencadear o quadro. É bem mais frequente no sexo feminino.
O risco de suicídio é algo preocupante em pacientes com esse transtorno. é importante que o profissional que acompanhe esse tipo de caso esteja sempre alerta para os sinais de ideação suicida que o paciente possa manifestar. Não é incomum esses pacientes apresentarem um transtorno depressivo.
De 10 a 15% dos pacientes bulímicos revertem o quadro para anorexia, o que é algo bastante preocupante. As consequências da bulimia são variadas e graves e podem causar lesões irreversíveis ou de difícil tratamento. Alguns exemplos são: fadiga, arritmia cardíaca, irregularidade menstrual, ossos e dentes frágeis, vasos sanguíneos dilatados na pele do rosto e problemas de estômago e esôfago e na boca, em decorrência do suco gástrico que constantemente é expelido no processo de indução do vômito e da perda de nutrientes no processo.
O tratamento é feito através de uma equipe multidisciplinar, onde médicos, psicólogos, psiquiatras, nutricionistas irão acompanhar o caso do paciente. São utilizados antidepressivos, principalmente por conta dos sintomas de depressão e ansiedade e para ajudar a controlar a impulsividade. A psicoterapia vai auxiliar o paciente a entender melhor o seu problema, a lidar com ele e trabalhar as questões em relação a imagem corporal, ao significado da alimentação para aquele indivíduo e questões de autoestima.
É muito importante que a pessoa que está passando por isso não guarde para si, e busque imediatamente ajuda. Tudo que tratamos precocemente acaba trazendo mais benefícios para o paciente.
REFERÊNCIAS:
http://www.abpcomunidade.org.br/site/?p=275
https://drauziovarella.com.br/doencas-e-sintomas/bulimia-nervosa/
Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. American Psychiatric Organization. 5a ed. Porto Alegre: Artmed, 2015.
segunda-feira, 26 de junho de 2017
VAMOS FALAR SOBRE 13 REASONS WHY
Demorou, eu sei. Existem muitos textos sobre isso na internet hoje, entretanto eu precisava assistir e escrever sobre isso, uma vez que trabalho com saúde mental e prevenção ao suicídio. Tomei o cuidado de não ler nada, nenhum artigo sobre essa série, para não me "contaminar" e poder escrever minhas ideias de forma mais clara e autenticas o quanto possível. Nesse artigo, minha proposta é analisar a série, contrapor com meus pensamentos e com dados de estudos científicos relacionados à saúde mental e prevenção de suicídio.
[AVISO!!! SE VOCÊ NÃO ASSISTIU E NÃO QUER RECEBER SPOILERS, ASSISTA E DEPOIS VOLTE AQUI. ESTOU AVISANDO, VAI TER SPOILERS AQUI DA SÉRIE. SE VOCÊ NÃO SE PREOCUPA COM ISSO ENTÃO PODE CONTINUAR.]
Lembro que quando começaram a falar da série 13 Reasons Why houve muito burburinho sobre aquilo estar sendo mostrado, se não poderia incentivar as pessoas. Ouvi um comentário dizendo que o suicídio era tratado de forma romantizada na série e muitas pessoas pisando em ovos com relação ao tema. Pois digo exatamente o que penso: precisamos falar sobre suicídio, sem medos e sem tabus. Eu compreendo o medo das pessoas, mas existe muita informação sobre o tema disponível, talvez as pessoas não tenham acesso, não sei. Mas aqui terão acesso a informação científica e espero que possam aquietar essas angústias. Visitem outros artigos meus acerca do tema (clicando aqui, aqui e aqui).
13 REASONS WHY
Gostaria de falar primeiro como expectador, não como psicólogo. Eu me entreguei ao assistir a série, sozinho, concentrado, me senti em certo momento fazendo parte daquele mundo, daquela escola com aqueles alunos e seus dramas. Passei por seus dores, medos, raivas, decepções. Houve momentos em que fiquei triste, outros em que me senti bastante angustiado e outros em que vibrei de alívio. Mas também vieram momentos de dor e pesar. A série realmente é muito densa, aborda temas pesados e é capaz de mexer bastante com o sentimento das pessoas. Há uma progressão, senti que ela começa e conforme avança vai ficando cada vez mais e mais pesada em cima das problemáticas a qual retrata.
Agora vamos ao meu olhar de psicólogo. A série acompanha as experiências de uma adolescente do que seria análogo ao nosso 2o ano do ensino médio, Hannah Baker, que logo de cara você recebe descobre que ela cometeu suicídio e que os alunos estão tentando lidar com isso. Então o melhor amigo dela, Clay, recebe um pacote com fitas cassetes e descobre que Hannah gravou 13 fitas falando sobre como se sentia e de coisas que aconteceram com ela, levando a tomar sua decisão de tirar a própria vida. Clay vai ouvindo as fitas e o expectador vai descobrindo, junto com ele, tudo aquilo pelo qual Hannah passou, vai descobrindo os segredos dos seus colegas de escola e se dando conta de como tudo poderia ter sido evitado. Gostaria de ressaltar pontos chave para comentar e ficar algo mais organizado.
-BULLYING: É um dos temas centrais do seriado e é um dos grandes problemas que impulsionam as taxas de suicídios entre os jovens. Vejam essas reportagens:
- Garoto se Suicida após sofrer bullying e colégio não tomar atitude (aqui)
- Suicídios de meninas de 17 e 13 anos reacendem debate sobre bullying em escolas na França (aqui)
- “Não aguento ir ao colégio”: Diego de 11 anos, suicida-se por sofrer bullying na escola (aqui)
O que é retratado na série não está longe do mundo real, pelo contrário, está bem colado. Mas o que sabemos sobre a correlação entre bullying e suicídio? Algumas pessoas (até mesmo pais), podem achar exagero um aluno cometer suicídio por sofrer bullying na escola. Vamos aos estudos.
- Suicídio é a terceira causa de morte entre jovens, resultando em aproximadamente 4.400 mortes por ano nos Estados Unidos, de acordo com o Centro de Controle de Doenças.
- Vítimas de Bullying tem de 2 a 9 vezes mais chance de cometer suicídio do que pessoas que não sofrem bullying, de acordo com estudos da Universidade de Yale.
- Um estudo britânico estimou que metade dos suicídios entre jovens estão relacionados ao bullying, meninas de 10 a 14 anos tem mais chance de cometer suicídio.
Há muitas situações em 13 Reasons Why que podem ser enquadradas como bullying. Muita gente acha que bullying é apenas quando ocorre violência física, portanto acho importante trazer uma definição do que seria bullying.
"É qualquer forma de abuso, psicológico, verbal ou físico, que ocorreu entre crianças de escola várias vezes ao longo de um determinado momento."
Logo de início, Hannah se envolve com Justin, jogador de basquete da escola, popular entre as garotas, mas um rapaz que só quer saber de curtição. Ele tira uma foto por baixo da saia de Hannah e espalha através dos aplicativos de mensagem para celular em toda escola. Isso já é um passo além, pode ser considerado cyberbullying, que é o bullying através das redes sociais e de meios eletrônicos. Hannah se sente mal por virar assunto da escola, começa a imaginar o que estão falando dela, boatos sobre ela ser fácil e de contato sexual se espalham. Esse é o primeiro conflito que Hannah tem de lidar.
Não é fácil lidar com cyberbullying tanto quanto o bullying convencional.
- Após ter vídeo íntimo compartilhado na internet, italiana comete suicídio (aqui)
Algo que é comum hoje em dia, gravações de vídeos íntimos, fotos íntimas que são vazadas, muitas vezes por vingança, outras vezes de forma inconsequente, podem acarretar transtornos terríveis na vida dessas pessoas. No ambiente escolar isso é bem mais impactante, porque aquele aluno(a) acaba sendo visado, seu rendimento escolar cai, faltas são comuns, muitas vezes o aluno não suporta a pressão e muda de escola ou pode simplesmente abandonar os estudos.
-ESTUPRO/ ABUSO SEXUAL: é bem sabido que este é um dos fatores de risco para suicídio.
Vítimas de abuso ou estupro possuem mais chances de vir a cometer suicídio do que não vítimas. Temos duas situações na série que são bem fortes, ambas envolvendo estupro. A primeira é a Jessica que, bêbada numa festa, é estuprada por Bryce "amigo" de Justin, enquanto Hannah presencia tudo escondida no quarto. Aquela cena é chocante para ela, traumático ver a pessoa que considerou amiga estando indefesa e sendo estuprada. Outro momento é quando Bryce estupra Hannah na banheira, não dando chance dela se desvencilhar. Ela não consegue reagir contra ele e temos aí outro trauma, decisivo para sua decisão final.
"Os adultos que foram vítimas de abuso físico durante a infância relataram índices mais elevados de ideação suicida e relataram ter realizado mais tentativas de suicídio ao longo da vida. Encontramos resultados semelhantes no que se refere às experiências de negligência e ao ambiente familiar disfuncional" (SILVA, Suzana, MAIA, Angela, 2010)
Não é fácil para uma vítima de abuso contar para a família ou denunciar o agressor. Daí a importância do diálogo (que discuto mais abaixo), de haver um canal aberto na família para que caso algo assim ocorra, não seja mascarado e fique oculto durante anos. Já perdi a conta de quantos pacientes atendi na clínica que sofreram abuso na infância, em vários níveis, e nunca contaram para a família, consequentemente nunca houve punição para o agressor, que provavelmente continuou os abusos com outras pessoas.
Vítimas de abuso ou estupro possuem mais chances de vir a cometer suicídio do que não vítimas. Temos duas situações na série que são bem fortes, ambas envolvendo estupro. A primeira é a Jessica que, bêbada numa festa, é estuprada por Bryce "amigo" de Justin, enquanto Hannah presencia tudo escondida no quarto. Aquela cena é chocante para ela, traumático ver a pessoa que considerou amiga estando indefesa e sendo estuprada. Outro momento é quando Bryce estupra Hannah na banheira, não dando chance dela se desvencilhar. Ela não consegue reagir contra ele e temos aí outro trauma, decisivo para sua decisão final.
"Os adultos que foram vítimas de abuso físico durante a infância relataram índices mais elevados de ideação suicida e relataram ter realizado mais tentativas de suicídio ao longo da vida. Encontramos resultados semelhantes no que se refere às experiências de negligência e ao ambiente familiar disfuncional" (SILVA, Suzana, MAIA, Angela, 2010)
Não é fácil para uma vítima de abuso contar para a família ou denunciar o agressor. Daí a importância do diálogo (que discuto mais abaixo), de haver um canal aberto na família para que caso algo assim ocorra, não seja mascarado e fique oculto durante anos. Já perdi a conta de quantos pacientes atendi na clínica que sofreram abuso na infância, em vários níveis, e nunca contaram para a família, consequentemente nunca houve punição para o agressor, que provavelmente continuou os abusos com outras pessoas.
-DIÁLOGO: Na série você não vê diálogo ente pais e filhos. Os filhos não conversam com seus pais para dizer o que estão passando, quais problemas estão enfrentando. Pois isso, quando os pais de Hannah a encontraram morta eles não entendia o que havia motivado o ato e passam o seriado inteiro em busca de respostas que os ajude a entender. Clay passa toda a estória escondendo tudo de seus pais, e em determinado momento quando sua mãe não aguenta mais tantos segredos ele cede e diz que logo vai revelar tudo a ela. Mas a série termina e a mãe de Clay ouve sobre as fitas e sobre o envolvimento de Clay com elas por outra pessoa. Hannah não conta para os pais as coisas que tem passado, os problemas e conflitos que se desenrolam na escola porque sempre que ela tenta se aproximar de alguém acaba dando errado.
O que gostaria de deixar claro é, o quão importante esse diálogo é e como isso pode ajudar a identificar sinais não só de bullying, mas de depressão e de ideação suicida. Somente ao fim da série, alguns dos alunos que passaram por experiências ruins, como a Jessica que é estuprada, contam o que de fato aconteceu para seus pais. Diálogo é uma forma dos pais acompanharem a vida social e escolar do filho, de poder abrir um canal de comunicação para tratar de assuntos difíceis, fornecer suporte emocional e mostrar o amor que tem.
-CONSELHEIRO ESCOLAR: Durante toda série eu fiquei observando como aquele conselheiro era de alguma forma estranha, mal preparado para lidar com os alunos, visto que ele não consegue estabelecer um vínculo positivo com ninguém. Todos que vão a sua sala tem a necessidade de falar, e desistem. Conselheiro escolar não é o mesmo que psicólogo escolar, que fique bem claro, ali é uma particularidade das escolas americanas. Todavia, é um profissional que deve estar capacitado para ouvir e orientar os jovens. Apenas no fim o expectador fica sabendo que Hannah o procurou, como última tentativa, um pedido de ajuda, e ele não conseguiu captar a mensagem que ela tentava passar, novamente demonstrando essa dificuldade de criar um rapport com os estudantes.
Nem sempre as pessoas estão dispostas a falarem sobre seus medos ou sobre coisas dolorosas assim. É muito comum na clínica paciente que só depois de um tempo, quando estão mais acostumados começarem a se abrir e falar dos seus problemas. Mesmo ouvindo o relato de Hannah ele não atentou para o pedido de socorro dela, que estava implícito naquela mensagem. Sim, profissionais não tem bola de cristal, como alguém aí deve estar pensando, mas quem trabalha nesse tipo de posição tem que ter empatia, sensibilidade para perceber essas nuanças. Além disso, é preciso capacitar os profissionais das escolas para perceberem os sinais de ideação suicida. Nem todas as escolas brasileiras possuem psicólogos, e muitas escolas grandes e particulares em geral focam os esforços do psicólogo em outras áreas que não a prevenção de suicídio (tenho amigos que foram psicólogos escolares). Ainda é um tabu grande trabalhar a prevenção de suicídio nas escolas (principalmente nas privadas), mas somente prevenindo podemos evitar tragédias. Todo corpo escolar deve ser capacitado para reconhecer sinais que possam indicar sofrimento psíquico e emocional intensos, de modo a poder se aproximar do aluno e estabelecer uma via de diálogo, dar suporte e avisar os pais e encaminhar para acompanhamentos mais especializados quando for o caso.-AUTOMUTILAÇÃO: automutilação é um comportamento recorrente em algumas tentativas de suicídio, sintoma de alguns transtornos (vide meu artigo sobre Transtorno de Personalidade Borderline clicando aqui) e até mesmo um diagnóstico de autolesão não suicida. A automutilação pode ser definida como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo sem intenção consciente de suicídio, apesar da nomenclatura, pode envolver queimaduras, fincar objetos na pele, etc. É mostrado, de forma breve, uma personagem com cortes no braços: Skye. Em dois breves takes, Clay percebe que o braço dela está cheio de riscos, cicatrizes de cortes, e a confronta no que ela responde "É o que você faz ao invés de se matar". Comportamento autolesivo não é incomum de ser precedido de ideação suicida, indica um grau de sofrimento psíquico e deve ser cuidado.
-SUICÍDIO: Desde o primeiro episódio de 13 Reasons Why é perceptível o quanto é difícil para os alunos aceitarem e lidarem com o suicídio de Hannah. A maioria prefere evitar o assunto e o expectador sente um clima pesado no ambiente escolar. Todos estão tentando retomar o cotidiano, mas o fantasma do suicídio assombra a escola. Alguns alunos tentam lidar com isso espalhando cartazes, mensagens positivas no armário de Hannah, a escola inclusive inicia um processo de orientar os pais sobre possíveis sinais (mas se não estou enganado isso vem apenas depois que os pais de Hannah entram com um processo contra a escola).
Suicídio é um tabu, é inegável. Não sabemos nem ao menos lidar direito com as mortes cotidianas (sejam de causas naturais ou não), logo enfrentar uma morte auto-infligida é um patamar muito mais difícil para nossa sociedade. Na série, os estudantes que tinham contato com Hannah não admitem (exceto Alex) que tiveram influência em algum ponto para motivar Hannah ao suicídio. Alex é um dos que mais se culpa, a ponto de no último capítulo tenta se matar com arma de fogo.
Gosto sempre de lembrar que o suicídio é um fenômeno complexo e multideterminado, logo não existe um motivo único para uma pessoa pensar ou cometer suicídio, mas um somatório de fatores, entre riscos e proteção. Se os fatores de risco superam os de proteção então as chances aumentam vertiginosamente. Bullying, decepções, solidão, isolamento, abuso sexual, possível transtorno mental, todos são fatores de risco.
Não fica claro em 13 Reasons Why, até porque é uma obra de ficção e limitada, mas geralmente existe um transtorno mental por trás das tentativas de suicídio. Muitas vezes um transtorno mental que não foi diagnosticado porque a pessoa nunca foi avaliada por um especialista.
Associados ao bullying geralmente temos a depressão, embora isso não fique claro em Hannah, que parece uma adolescente como qualquer outra. Mas o seriado evidencia a constante busca de Hannah por atenção, por relações sociais, algo que lhe e negado quase o tempo todo, gerando um suposto isolamento social (suposto porque isso não é mostrado de forma clara). Alguns transtornos de personalidade são caracterizados por essa busca constante por atenção. Hannah tinha um transtorno de personalidade não diagnosticado? Talvez, é apenas especulação minha, mas acho possível. Apesar de sua proximidade com Clay, parece que para ela aquela amizade não contava, uma vez que estava sempre em busca da amizade de outros, mesmo Clay estando sempre ali para ela. Mais uma característica dos transtornos de personalidade.
Supondo que houvesse um programa de prevenção de suicídio na escola, um canal de comunicação com a família, suporte de amigos, Hannah não teria cometido suicídio. Faltaram fatores protetivos. Mesmo quando ela buscou ajuda, o conselheiro falhou em chegar até ela e interpretar o que ela estava dizendo. Isso vale para a vida real. Devemos estar atentos a esses comentários de que a "vida não presta", "o mundo estaria melhor sem mim", "não sirvo para nada", "seria melhor desaparecer". Comentários assim são pedidos de socorro. Mas vamos aos sinais.
-SINAIS: Você que assistiu 13 Reasons Why deve ter se perguntando "Quais os sinais de uma pessoa que está pensando em cometer suicídio?". É difícil às vezes ver algo quando não se está procurando ou quando não se sabe o que se está procurando. Os sinais podem ser bem sutis em 13 Reasons Why eles são. O primeiro grande sinal é o poema de Hannah, que Ryan publica sem ela saber e que a deixa mal por saber que seus pensamentos agora são de domínio público. O poema de Hannah é forte e recheado de metáforas sobre sofrimento e o desejo de morrer. Hannah fica muito transtornada ao ver que, mesmo anonimamente, todos começam a comentar seu poema. A mesma coisa acontece com um sujeito com ideações suicidas. Imaginar que as pessoas sabem de suas intenções de tirar a própria vida pode deixá-lo numa situação constrangedora, daí muitas vezes o fato de não falar abertamente sobre isso, de não comunicar diretamente suas intenções. O que nós vamos procurar são sinais indiretos.

Temos que estar atentos a mudanças de comportamento (de repente a pessoa começa a agir diferente do habitual), isolamento, tristeza, explosões de raiva, comportamento auto-lesivo (se cortar, por exemplo), pensamentos mórbidos. identificando essas alterações, podemos conversar com a pessoa e fazer as seguintes perguntas que vão determinar a ideação suicida:
1) Você tem planos para o Futuro? A resposta do paciente com risco de suicídio é não
2) A vida vale a pena ser vivida? A resposta do paciente com risco de suicídio novamente é não
3) Se a morte viesse ela seria bem vinda? Desta vez a resposta será sim par aqueles que querem morrer
Se o paciente respondeu como foi referido acima, o profissional de saúde fará estas próximas perguntas:
4) Você está pensando em se machucar/se ferir/ fazer mal a você/ em morrer?
5) Você tem algum plano especifico para morrer/se matar/tirar sua vida?
6) Você fez alguma tentativa de suicídio recentemente?

Temos que estar atentos a mudanças de comportamento (de repente a pessoa começa a agir diferente do habitual), isolamento, tristeza, explosões de raiva, comportamento auto-lesivo (se cortar, por exemplo), pensamentos mórbidos. identificando essas alterações, podemos conversar com a pessoa e fazer as seguintes perguntas que vão determinar a ideação suicida:
1) Você tem planos para o Futuro? A resposta do paciente com risco de suicídio é não
2) A vida vale a pena ser vivida? A resposta do paciente com risco de suicídio novamente é não
3) Se a morte viesse ela seria bem vinda? Desta vez a resposta será sim par aqueles que querem morrer
Se o paciente respondeu como foi referido acima, o profissional de saúde fará estas próximas perguntas:
4) Você está pensando em se machucar/se ferir/ fazer mal a você/ em morrer?
5) Você tem algum plano especifico para morrer/se matar/tirar sua vida?
6) Você fez alguma tentativa de suicídio recentemente?
Na vida real é mais fácil de perceber esses sinais do que no seriado, visto que a obra de ficção mostra em detalhes o sofrimento de Hannah, mas não os sinais que normalmente os pacientes com ideação suicida dão. A série mostra o suicídio como uma escolha, e aqui eu gostaria de deixar claro meu posicionamento enquanto psicólogo e profissional da saúde. O suicídio é uma opção quando não há apoio. Nunca conheci alguém que quisesse morrer porque sua vida está indo bem, o comportamento suicida é motivado por um sofrimento psíquico intenso e quando não há alternativa para esse sofrimento o indivíduo busca a morte, como forma de alívio. Daí se houver amparo, tratamento e cuidado familiar, a tendência é a ideação ceder e o paciente melhorar. Não é um caminho fácil, mas é um caminho possível e alternativo a morte.
-SOBREVIVENTES: Nós chamamos de sobreviventes aqueles que vivenciam a perda de alguém para o suicídio- família, amigos, escola, trabalho. Essas pessoas vivenciam o luto de uma forma complexa, quanto mais próximo daquele indivíduo que se suicidou mais difícil é o processo de luto, podendo levar a problemas psicológicos graves. Em geral as pessoas não buscam suporte para lidar com esse tipo de perda, o que é uma questão importante, visto que existem diversos sentimentos associados a morte daquele ente querido.

Há uma tendência das pessoas em buscar culpados, isso é bem mostrado em 13 Reasons Why quando os pais de Hannah estão tentando a todo custo entender o suicídio de Hannah, assim como Clay também procura culpados e se culpa em vários momentos. É isso mesmo que acontece, sentimentos de raiva, tristeza, em certos momentos há culpa vai para outros, ora para si mesmo. Essa confusão de sentimentos, quando não trabalhada numa sessão de terapia de apoio, por exemplo, pode evoluir para depressão e outros transtornos. Em determinado momento pode levar a uma culpabilização insuportável que culmina com uma nova tentativa de suicídio. Por esse motivo Alex tenta se matar no último capítulo. Enquanto os outros alunos estão fugindo da responsabilidade, evitando o assunto, Alex sempre assumiu que suas ações influenciaram Hannah e essa culpa vai ficando cada vez mais pesada até ser insustentável, o que o leva e tentar suicídio por uso de arma de fogo.
CONCLUSÕES
"O Brasil é o quarto país latino-americano em número de suicídio entre 2000 e 2012, segundo a Organização Mundial da Saúde, porém, o Ministério da Saúde traz que o crescimento do número de suicídios no Brasil (5,8 por 100 mil habitantes) é praticamente a metade da média mundial (11,4 por 100 mil habitantes) (WHO, 2014)."
Bom, sei que o texto ficou bem grande, mas eu queria fazer uma reflexão sobre o que achei pertinente em 13 Reasons Why, ressaltando o que é mostrado com o lado científico, para informar vocês da importância da prevenção. Não podemos nos calar frente ao suicídio, precisamos falar, precisamos abrir canais em que as pessoas que precisam de ajuda possam se agarrar nos momentos difíceis de suas vidas.
A série não romantiza ou incentiva o suicídio, no meu ponto de vista. Fica claro o sofrimento e a dor de Hannah o tempo todo e como a adolescente não consegue encontrar mecanismos para lidar com isso, além de que a falta de diálogo e sensibilidade de algumas pessoas a faz sentir cada vez mais sozinha até ela tomar sua decisão. Não foram decepções amorosas, a falta de amigos ou bullying, que levaram Hannah a cometer suicídio, mas o somatório dessas experiências traumáticas, assim como a sensação de falta de suporte emocional, aliado a uma personalidade pré-morbida (a pessoa portadora de traços melancólicos e sensibilidade excessiva terá maior probabilidade de desenvolver uma quadro depressivo mais crônico e mais atrelado à personalidade, portanto, terá uma evolução mais desfavorável).
Vejo o seriado como um alerta, do que ocorre hoje em nossa sociedade, não apenas nas escolas, mas o Brasil tem tido um aumento nas taxas de suicídio ano após ano, enquanto outros países tem conseguido reduzir esses números. É um seriado que precisa ser visto e debatido, pois como sempre digo, é imprescindível falarmos sobre suicídio, mas fora do senso comum, entendo esse fenômeno como um problema de saúde pública, não como uma fraqueza ou uma escolha pessoal.
REFERÊNCIAS:
1-http://www.bullyingstatistics.org/content/bullying-and-suicide.html
2-https://www.cdc.gov/violenceprevention/pdf/bullying-suicide-translation-final-a.pdf
3-http://www.scielo.br/pdf/rprs/v32n3/1321.pdf
4-http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1647-21602016000100003
5-http://revpsi.org/wp-content/uploads/2015/12/Fukumitsu-et-al.-2015-Posvenção-uma-nova-perspectiva-para-o-suicídio-Posvenção-uma-nova-perspectiva-para-o-suicídio.pdf
6-http://www.mastereditora.com.br/periodico/20150501_135302.pdf
7-http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=58
8-http://www.scielo.mec.pt/pdf/rpsp/v31n2/v31n2a09.pdf
9-http://www.scielo.mec.pt/pdf/aps/v19n4/v19n4a03.pdf
10-BOTEGA, N. J. Crise suicida: avaliação e manejo. Porto Alegre: Artmed, 2015.
8-http://www.scielo.mec.pt/pdf/rpsp/v31n2/v31n2a09.pdf
9-http://www.scielo.mec.pt/pdf/aps/v19n4/v19n4a03.pdf
10-BOTEGA, N. J. Crise suicida: avaliação e manejo. Porto Alegre: Artmed, 2015.
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017
PSICONEWS- VITAMINA C NO COMBATE À DEPRESSÃO
Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) tem estudado a relação do ácido ascórbico, vitamina C, com o modelo de depressão, há pelo menos 10 anos.
Experimentos demonstraram que o uso da vitamina C em associação a três antidepressivos comuns no mercado potencializou o efeito dos medicamentos em camundongos com sintomas de depressão. Esses aintidepressivos são: fluoxetina, imipramina e bupropiona.
“Os antidepressivos têm muitos efeitos adversos, que são inclusive motivo de abandono do tratamento. Se conseguirmos baixar as doses ao associá-los com um agente sem efeitos colaterais, esta seria talvez uma estratégia terapêutica muito promissora no tratamento da depressão”, relata a pesquisadora Ana Lúcia Severo Rodrigues.
Os estudos provaram que, mesmo quando os antidepressivos são administrados em doses menores do que as que seriam consideradas efetivas, a associação do ácido ascórbico ajuda a reduzir os sintomas de depressão significativamente.
Os pesquisadores afirmam que apesar do progresso do estudo, ainda é preciso fazer testes em seres humanos, e há aí um longo trajeto científico e ético a ser traçado.
O estudo é importante pois abre as portas para uma nova forma de tratamento da depressão, que afeta bilhões de pessoas no mundo hoje.
Fontes:
http://boasnoticias.pt/vitamina-c-pode-aliviar-sintomas-de-depressao/
http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2016/09/cientistas-estudam-possivel-acao-da-vitamina-c-na-terapia-de-depressao.html
terça-feira, 2 de agosto de 2016
O QUE É DEPRESSÃO PÓS-PARTO
Existem muitos mitos e desinformação aceca da depressão pós parto, uma condição que afeta muitas mulheres e que é muitas vezes mal diagnosticada, o tratamento nem sempre é o correto e há riscos para a mãe e para o bebê. Falaremos um pouco disso no artigo de hoje.
O QUE É A DEPRESSÃO PÓS PARTO?
A gravidez é um processo natural, bastante desejado por algumas mulheres que tem o desejo de ser mãe, mas que pode gerar muitas fantasias, medo e angústias, mesmo a mulher tendo todo suporte do seu companheiro e da família. Questionamentos como "será que vou dar conta?", "vou ser uma boa mãe?" podem criar no imaginário dessa mãe uma cacofonia de pensamentos desencadeando ansiedade e enfraquecendo sua auto confiança.
A depressão pós-parto ou DPP é um problema de saúde pública e ocorre, em geral, nas primeiras quatro semanas após o parto, podendo se estender e atingir o ápice alguns meses depois. Os sintomas mais comuns apresentados por essas mulheres são desânimo, sentimentos de culpa, alterações do sono, ideias suicidas, medo/desejo de machucar o filho, alteração do apetite e diminuição da libido. Saber diferenciar sintomas depressivos e “sequelas normais” de dar à luz, como as alterações no peso,
sono e energia é um desafio que torna mais complicado ainda o diagnóstico clínico.
sono e energia é um desafio que torna mais complicado ainda o diagnóstico clínico.
Segundo Ruschi, Sun, Mattar, Filho, Zandonade, Lima:
"... menos de 25% das puérperas acometidas têm acesso ao tratamento, e somente 50% dos casos de
depressão pós-parto são diagnosticados na clínica diária."
Significa dizer que ainda existe um contingente de mulheres que não se tratam, por diversos motivos, desde falhas na rede de encaminhamento até carência de locais com atendimento especializado, assim como existe uma dificuldade em diagnosticar o problema por parte dos profissionais de saúde.
Alguns fatores psicossociais são associados a DPP, tais como baixa escolaridade, baixo nível econômico, baixo suporte social, histórico de transtorno psiquiátrico, baixa auto estima, stress, abuso de drogas, ansiedade pré-natal, gravidez não planejada, tentativa de interromper a gravidez, sentimentos negativos em relação à criança. Não significa que toda mulher que tenha DPP apresente todos esses fatores, mas que eles podem favorecer o surgimento da DPP. Mesmo assim, é possível uma puérpera com apenas um ou dois fatores de risco desenvolver DPP.
Estudos epidemiológicos demonstram que a prevalência da DPP na população geral é de 10% a 20%, e em mães adolescentes adolescentes dos 14 aos 18 anos de idade essa taxa sobe para 26% (Troutman & Cutrona, 1990).
"A relação entre o período do pós-parto e as perturbações psiquiátricas foi reconhecida há cerca de 2000 anos atrás. Curiosamente, a primeira descrição de um caso de perturbação mental no pós-parto foi feita no século XVI por um médico Português, João Rodrigues de Castelo Branco, que na altura exercia em Roma ('de uma mulher que ao dar à luz se tornava melancólica e louca’) (Brockington, 1996, p.166)"
"A relação entre o período do pós-parto e as perturbações psiquiátricas foi reconhecida há cerca de 2000 anos atrás. Curiosamente, a primeira descrição de um caso de perturbação mental no pós-parto foi feita no século XVI por um médico Português, João Rodrigues de Castelo Branco, que na altura exercia em Roma ('de uma mulher que ao dar à luz se tornava melancólica e louca’) (Brockington, 1996, p.166)"
Existe ainda a psicose puerperal, que é quando a paciente apresenta sintomas de alucinações, delírios e perda de insight, rápidas oscilações do humor que podem incluir alternância entre humor deprimido e elevado ou irritabilidade, insonia ou pensamentos obsessivos. Estima-se que mais de 5% das mulheres possam cometer suicídio e que 2-4% representam um risco direto considerável para os seus
bebés (Knopps, 1993). Estudos têm mostrado que a maioria das mulheres com Psicose Puerperal
preenche os critérios para perturbação bipolar (Kendell et al., 1987; Kumar et al., 1995).
O parto é um dos fatores preponderantes no desencadeamento dos episódios bipolares, em mulheres vulneráveis (Brockington, 1996). Muitos estudos revelam que aproximadamente 65% destas irão sofrer episódios psicóticos subsequentes não puerperais (Benvenuti et al., 1992). Cerca de dois terços irão ter recaídas em gravidezes futuras. Contudo, comparativamente às mulheres que têm episódios de psicose não puerperal, as que sofrem de PP têm uma menor probabilidade de serem readmitidas em hospitais psiquiátricos e quando readmitidas a duração do internamento é menor (Platz & Kendell, 1988), sugerindo um melhor prognóstico. A PP costuma remitir após algumas semanas de tratamento.
bebés (Knopps, 1993). Estudos têm mostrado que a maioria das mulheres com Psicose Puerperal
preenche os critérios para perturbação bipolar (Kendell et al., 1987; Kumar et al., 1995).
O parto é um dos fatores preponderantes no desencadeamento dos episódios bipolares, em mulheres vulneráveis (Brockington, 1996). Muitos estudos revelam que aproximadamente 65% destas irão sofrer episódios psicóticos subsequentes não puerperais (Benvenuti et al., 1992). Cerca de dois terços irão ter recaídas em gravidezes futuras. Contudo, comparativamente às mulheres que têm episódios de psicose não puerperal, as que sofrem de PP têm uma menor probabilidade de serem readmitidas em hospitais psiquiátricos e quando readmitidas a duração do internamento é menor (Platz & Kendell, 1988), sugerindo um melhor prognóstico. A PP costuma remitir após algumas semanas de tratamento.
Uma mulher com depressão pós parto ou psicose puerperal está sujeita a diversos riscos, dos quais podemos destacar suicídio, auto agressão, agressão ao bebê, dificuldade em cuidar da criança e de si mesma, incapacidade para voltar as atividades cotidianas. Desta forma é de suma importância que essa paciente esteja sempre acompanhada por alguém da família que possa dar suporte, jamais deixando-a sozinha.
O risco de suicídio é um dos maiores problemas deste quadro, portanto as orientações acerca de pacientes potencialmente suicidas se aplicam aqui, mesmo que não haja nenhum indício ou manifestação de comportamento suicida. Evitar que a pessoa tenha acesso fácil a cordas, instrumentos perfuro-cortantes, medicamentos, venenos e substâncias químicas, janelas abertas. Existem muitos casos relatados de suicídio de puérperas que não deram sinais da ideação e cometeram o ato por impulso, desta forma é preciso estar sempre atento e ter cuidado redobrado com estas pacientes.
TRATAMENTO E PROGNÓSTICO
O tratamento é feito através de medicação prescrita pelo psiquiatra e psicoterapia realizada por um psicólogo. O psicólogo irá tirar as dúvidas dos familiares, fornecer as orientações necessárias à família e ajudar a paciente a suportar esse período tão difícil. Já a medicação tem papel de amenizar os sintomas, auxiliar no controle da ansiedade, da angústia, da falta de sono e apetite, da apatia e/ou da agitação. Quando bem diagnosticado e tratado da forma correta o prognóstico é muito bom, no caso da DPP, em geral alguns meses após o início do tratamento a paciente começa a ter uma remissão dos sintomas. Com relação a Psicose Puerperal isso varia muito, depende muito de cada caso. É fundamental que a paciente seja sempre assistida pelos profissionais.
Temos que ter em mente que a mulher não escolhe estar assim, de forma alguma, é uma ignorância tremenda pessoas que culpam a paciente pelo seu estado. Existem fatores biológicos e psicossociais ligados a esse quadro, então é preciso que haja um entendimento de que é uma doença e que precisa ser tratada. Falo isso porque muitas pessoas não buscam o tratamento, acham que é besteira ou que imaginam "isso vai passar". Se essas pessoas falassem com um profissional e fossem devidamente diagnosticadas precocemente poderia se evitar muitas fatalidades.
O risco de suicídio é um dos maiores problemas deste quadro, portanto as orientações acerca de pacientes potencialmente suicidas se aplicam aqui, mesmo que não haja nenhum indício ou manifestação de comportamento suicida. Evitar que a pessoa tenha acesso fácil a cordas, instrumentos perfuro-cortantes, medicamentos, venenos e substâncias químicas, janelas abertas. Existem muitos casos relatados de suicídio de puérperas que não deram sinais da ideação e cometeram o ato por impulso, desta forma é preciso estar sempre atento e ter cuidado redobrado com estas pacientes.TRATAMENTO E PROGNÓSTICO
O tratamento é feito através de medicação prescrita pelo psiquiatra e psicoterapia realizada por um psicólogo. O psicólogo irá tirar as dúvidas dos familiares, fornecer as orientações necessárias à família e ajudar a paciente a suportar esse período tão difícil. Já a medicação tem papel de amenizar os sintomas, auxiliar no controle da ansiedade, da angústia, da falta de sono e apetite, da apatia e/ou da agitação. Quando bem diagnosticado e tratado da forma correta o prognóstico é muito bom, no caso da DPP, em geral alguns meses após o início do tratamento a paciente começa a ter uma remissão dos sintomas. Com relação a Psicose Puerperal isso varia muito, depende muito de cada caso. É fundamental que a paciente seja sempre assistida pelos profissionais.
Temos que ter em mente que a mulher não escolhe estar assim, de forma alguma, é uma ignorância tremenda pessoas que culpam a paciente pelo seu estado. Existem fatores biológicos e psicossociais ligados a esse quadro, então é preciso que haja um entendimento de que é uma doença e que precisa ser tratada. Falo isso porque muitas pessoas não buscam o tratamento, acham que é besteira ou que imaginam "isso vai passar". Se essas pessoas falassem com um profissional e fossem devidamente diagnosticadas precocemente poderia se evitar muitas fatalidades.
Referências:
MORAESA, Inácia Gomes da Silva. PINHEIRO, Ricardo Tavares. SILVA, Ricardo Azevedo da. HORTA, Bernardo Lessa. SOUSA, Paulo Luis Rosa. FARIA, Augusto Duarte. Prevalência da depressão pós-parto e fatores associados. Rev Saúde Pública, 2006;40(1):65-70. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rsp/v40n1/27117.pdf/> Acesso em: 02/08/2016.
RUSCHI, Gustavo Enrico Cabral. SUN, Sue Yazaki. MATTAR, Rosiane. FILHO, Antônio C. ZANDONADE, Eliana. LIMA, Valmir José de. Aspectos epidemiológicos da depressão pós parto
em amostra brasileira. Rev Psiq 03. 2004. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/rprs/v29n3/v29n3a06> . Acesso em: 02/08/2016.
MAIA, Berta Maria Marinho Rodrigues. Perfeccionismo e depressão pós-parto. Tese de Doutoramento. Faculdade de Medicina de Coimbra, Portugal, 2011. Disponível em: <https://eg.sib.uc.pt/bitstream/10316/18179/1/Tese%20doutoramento_Berta%20Rodrigues%20Maia_pdf.pdf>. Acesso em: 02/08/2016.
BALONE, G. Depressão Pós-parto. Disponível em: <http://www.cemp.com.br/textos.php?id=40>. Acesso em: 02/08/2016.
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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
Estigmas em Saúde Mental
Estigma: Figurado. O que pode ser considerado ou definido como indigno; desonroso.
Os membros de nossa sociedade estão sempre prontos a realizar um julgamento, seja de uma pessoa, situação ou condição, na grande maioria das vezes sem se preocupar em conhecer aquilo que está julgando, não buscando compreender o contexto da situação. Desta forma é que os loucos são taxados de incapazes, são vistos como párias. Esse artigo é quase uma continuação do anterior que trata sobre a loucura, se você não viu clique aqui.
Muitos pacientes que eu atendo referem o medo de ficar loucos, de perder o controle e de serem taxados de incapazes pelos que o cercam, pela sociedade em si, mas principalmente é o medo de como serão vistos por amigos e familiares. A maioria dessas pessoas sequer possui um problema psicológico grave que as faça perder a noção da realidade. Se você me perguntasse o que é a loucura e eu lhe responderia da forma mais simples: é uma pessoa que perde a noção do que é real. Esses pacientes que se questionam estão tristes e fragilizados devido aos problemas que passam e vivem com medo do estigma da loucura, porque o simples pensamento de não ser mais aceito em seus círculos sociais é terrível.
Mas e os portadores de transtornos sérios? Que estigmas eles enfrentam?
Pacientes esquizofrênicos, na minha opinião, são uns do que mais sofrem com a estigmatização das doenças mentais. Isso porque a esquizofrenia é uma doença antiga, complexa, que mesmo com os avanços da neurociência, da neuropsicologia, continua com mais lacunas do que certezas. Sabemos muita coisa sobre ela hoje, avançamos muito, conhecemos vários fármacos que ajudam no seu controle. Apesar disso ainda não existe um remédio que cure o preconceito. Porque as pessoas temem os esquizofrênicos? Por conta de suas alucinações? De seus delírios? De suas idéias absurdas e seu comportamento bizarro? Ou será que é medo de se tornar um deles, como se ao olhar para o doente e sentisse "Poderia ser eu ali".
Esquizofrênicos são pessoas como eu e você, apenas tem uma experiência diferente de ver o mundo. Alguns de vocês pode estar se perguntando se estou mesmo falando de uma doença. É uma doença porque causa sofrimento para a pessoa e para a família. Como disse anteriormente, não é fácil compreender a esquizofrenia e o próprio esquizofrênico necessita de alguém que o oriente, que o acompanhe nessa jornada sem fim (a esquizofrenia não tem cura), e esse profissional é o Psicólogo/ Psiquiatra.
Esse mesmo sentimento do paciente esquizofrênico é sentido por outros pacientes com depressão,
transtorno de ansiedade, transtorno de pânico. Eles simplesmente não entendem o que está acontecendo com eles e são dominados pelo temor da loucura. Seus parentes, maridos, esposas, filhos também entram nesse jogo pelo desconhecimento do que é um transtorno mental e se tornam ansiosos e temerosos pelo que pode acontecer. Entretanto ansiedade e depressão tem um prognóstico melhor, ou seja, a evolução para uma "cura", (coloquei as apas porque a noção de cura em saúde mental se refere a qualidade de vida e a lidar com os sintomas, sendo que algumas patologias simples podem ter recaídas de acordo com o tratamento e como a pessoa lida com seu problema), é bem mais simples do que a esquizofrenia.
transtorno de ansiedade, transtorno de pânico. Eles simplesmente não entendem o que está acontecendo com eles e são dominados pelo temor da loucura. Seus parentes, maridos, esposas, filhos também entram nesse jogo pelo desconhecimento do que é um transtorno mental e se tornam ansiosos e temerosos pelo que pode acontecer. Entretanto ansiedade e depressão tem um prognóstico melhor, ou seja, a evolução para uma "cura", (coloquei as apas porque a noção de cura em saúde mental se refere a qualidade de vida e a lidar com os sintomas, sendo que algumas patologias simples podem ter recaídas de acordo com o tratamento e como a pessoa lida com seu problema), é bem mais simples do que a esquizofrenia.
Toda doença, com tratamento e acompanhamento profissional adequado pode ser tratada e os transtornos mentais não fogem a regra. Se as pessoas procurassem se informar mais acerca do que é o problema psicológico antes de conceber um preconceito ou julgamento acerca daquilo, talvez o sofrimento dessas pessoas fosse amenizado e nossa sociedade se tornasse menos intolerante.
Referências:
http://www.dicio.com.br/estigma/
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quinta-feira, 20 de março de 2014
Depressão, Sim ou Não?
Quando você vê uma pessoa triste, quieta ou chorando por alguns dias qual a primeira coisa que lhe vem a cabeça? Sim, que a pessoa é "depressiva" ou que está com depressão. No artigo de hoje vamos ver que não é bem assim, vamos aprender um pouco sobre o que é e como se manifesta a depressão e desconstruir alguns preconceitos que estão instaurados em nossa cultura.
Como sempre gosto de fazer em meus artigos, o primeiro passo seria definir o que é depressão. A definição do dicionário é: "Estado patológico de sofrimento psíquico assinalado por um abaixamento do sentimento de valor pessoal, por pessimismo e por uma inapetência face à vida.". Parece conter bastante informação útil sobre o que percebemos de uma pessoa supostamente depressiva. Tristeza, raiva, alegria são sentimentos que fazem parte da constituição humana e só não os expressam pessoas com algum problema neurológico ou psicopatológico sério (psicopatas não expressam tristeza ou remorso, por exemplo). Depressão é um transtorno psicológico que afeta o físico e o emocional do sujeito, dificulta ou impede que ele exerça suas funções cotidianas, além de que gera um sentimento de vazio e angústia intensa, ocorrendo uma série de sintomas específicos e se prolongando por várias semanas.
A tristeza tem um papel adaptativo, pois anuncia para os outros que aquele indivíduo está precisando de amparo, de ajuda. A tristeza pode aumentar significativamente e se desenvolver de formas bem distintas como consequência de vários fatores diferentes, internos ou externos. Daí a complexidade de definir o quadro de Depressão, porque existem diversos tipos de Depressão e formas específicas dela se manifestar. Além disso, ela pode aparecer "anexada" a outros quadros clínicos de alteração psicológica, como Esquizofrenia, Transtorno por Abuso de Álcool, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Demência, só para citar alguns. E pode surgir sozinha, caracterizando o Transtorno Depressivo.
MELANCOLIA É DEPRESSÃO?
Melancolia é um estado de tristeza, um momento onde o indivíduo experimenta baixa energia para realizar suas atividades, sente-se fraco psiquicamente e manifesta alguns pensamentos negativos. Mas isso não é Depressão. Vários estados podem despertar a melancolia no ser humano, uma frustração, um problema, saudade de uma pessoa querida. O problema é quando essa melancolia se intensifica e começa a tomar outras formas.
Algo bastante comum é quando perdemos um ente querido. O processo de tristeza pela perda de uma pessoa estimada por nós é chamado de Luto, e a elaboração desse luto é um processo natural desde que o homem pisou na Terra. Cada cultura tem sua maneira de lidar com esse processo, a nossa está muito associada ao apego e portanto, a dor vivenciada com muita intensidade. Em culturas africanas, por exemplo, o processo de luto é festivo, não há tristeza mas alegria porque para eles aquele indivíduo atingiu uma nova esfera de existência. Nosso modo brasileiro de encarar o luto é bem comum em qualquer parte: choro, comoção durante o velório e enterro e sentimento de melancolia intensa nos dias que se seguem. Todavia se o indivíduo não consegue elaborar esse luto, ou seja, se ele não consegue restaurar seu desejo de prosseguir com sua vida, com suas atividades cotidianas e se apega aquele sofrimento podemos estar diante de um caso de Depressão reativa por luto mal elaborado. Mas isso se a pessoa passa meses assim. Estar triste pela perda de alguém não torna essa pessoa doente de Depressão, ela pode sim estar melancólica e deprimida, mas a tendência é que sua psiquê se restabeleça aos poucos e que retorne ao seu cotidiano. Existe uma tendência atual de impedir que a pessoa vivencie esse luto, o que não é benéfico, uma vez que o ser humano deve passar pelas fases do sofrimento para que o equilíbrio emocional retorne, suprimir isso é fazer com que esse luto volte em algum momento do futuro de forma patológica prejudicando ainda mais a pessoa. É direito seu rir, se alegrar, se emocionar e sofrer. Ninguém quer sofrer, mas faz parte da vida.
E COMO SABER SE A PESSOA ESTÁ OU NÃO COM DEPRESSÃO?
Você pode suspeitar por conta do comportamento que vai dando várias pistas, embora somente o
especialista Psicólogo ou Psiquiatra possam melhor diagnosticar qualquer estado depressivo. Quando a pessoa exibe um quadro de tristeza muito prolongado, excesso de pensamentos negativos e autodepreciativos ("eu não presto", "não sei fazer nada", "sou muito feio", "nunca vou ser ninguém", apenas alguns exemplos), alterações no apetite e no sono e incapacidade de seguir com as atividades normais do cotidiano, é muito provável que esteja vivenciando algum tipo de estado depressivo. Outro sinal são comportamento autoagressivos, onde a pessoa se agride, ou exibe esse desejo e claro os pensamentos suicidas. Em todo caso, o paciente deve ser encaminhado para uma avaliação.
ALGUMAS CAUSAS DA DEPRESSÃO
Não vou entrar muito em termos de descrição nosológica, como sempre friso esse blog é para leigos e não uma tese de mestrado, então vou ser simplista e enumerar algumas das possíveis causas de estados de Depressão. Temos as causas internas e externas. Todo mundo imagina logo que aconteceu algo na vida de uma pessoa para que ela esteja naquele estado lastimável, mas nem sempre é assim. Muitas vezes uma queda na quantidade de neurotransmissores, substâncias químicas produzidas pelos neurônios que enviam informações a outras células, pode causar uma Depressão controlada apenas com medicação, por exemplo.
Excessos de fracassos podem levar a pessoa a um desamparo prolongado que tem a possibilidade de culminar numa Depressão caso ele não desenvolva mecanismos adaptativos suficientes para lidar com as dificuldades no meio em que se encontra. Abuso de substâncias, principalmente drogas (lícitas ou ilícitas), podem gerar estados Depressivos, mais comumente álcool, cocaína e crack. Além desses fatores, outros transtornos psicológicos podem levar a estados depressivos e doenças físicas (pacientes com doenças terminais, ou crônicas como alguns tipos de reumatismo, fibromialgia, por exemplo.).
Que fique claro aqui, Depressão não é frescura, não é invenção da pessoa, não é desculpa para não trabalhar, não é preguiça. Muita gente tem dificuldade de se colocar no lugar do outro, até compreensível visto que a Depressão é algo que gera um intenso sofrimento psíquico, mas não é uma simulação, é real e afeta a pessoa como um todo. É preciso respeitar e apoiar esse paciente na sua crise e acima de tudo, buscar uma ajuda para ele, uma vez que em muitos casos o paciente não tem forças para buscar ajuda.
Quaisquer dúvidas ou questões, fiquem à vontade para me mandar e-mails, comentários ou marcar uma consulta. Espero que essas informações tenham sido úteis.
Referências:
http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=53
CID -10 - Classificação dos transtornos mentais e de comportamento da CID 10: Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas - Organização Mundial de Saúde, trad. Dorgival Caetano, Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
DSM IV- Critérios Diagnósticos do DSM-IV, 4a ed, Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
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