sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Uma Breve História sobre a Loucura

A humanidade vive com a loucura desde o seu surgimento, tendo adotado as mais diferentes práticas com o objetivo de curar o louco ou simplesmente afasta-lo da sociedade. 

O louco era visto como alguém excêntrico, ou possuído pelo demônio, devido ao seu comportamento que sempre se distanciava do que era considerado o padrão para uma determinada época/sociedade. 

Na Grécia antiga, a loucura era tida como um saber divino, e os loucos eram vistos como mensageiros dos deuses, pessoas que tinham um dom especial capazes de ver um mundo que ninguém mais consegue. Nessa época a loucura encontrou um espaço na sociedade; não era necessário banir ou controlar o louco, uma vez que ele era instrumento divino; suas visões inspiravam as pessoas que buscavam conselhos, as vozes que ouviam eram atribuídas aos deuses que sussurravam aos seus ouvidos. Filósofos ouviam os loucos e traçavam vários diálogos com eles, buscando explicar os fenômenos da natureza e o próprio fenômeno humano.

Foi na Idade Média que a coisa ficou ruim para os mentalmente incapazes. Esse foi um período de forte dominação religiosa e perseguição daqueles que eram contra a igreja, um tempo onde crenças surgiam e o misticismo era visto como algo demoníaco, herético. Pessoas com epilepsia, quando tinham ataques e convulsionavam, eram ditas estarem possuídas pelo demônio, ou enfeitiçadas. A ignorância e o medo se tornaram armas implacáveis, levando esses pobres enfermos a alimentarem as fogueiras da Inquisição. Os loucos não eram mais sábios, mas hereges possuídos pelo diabo e sua única redenção era pela tortura e pelo fogo. 


Na Renascença o louco entra, pela primeira vez, na categoria de doente, mas ao invés de tratamento ele deve ser excluído da sociedade. Os loucos falam o que as pessoas não querem ouvir, falam de coisas fantásticas, quase um retorno ao divino, como era nos tempos dos gregos. Entretanto não há lugar na sociedade para esse tipo de indivíduo, cuja mente é estranha, diferente, cuja aparência e discurso são assustadores. É então que se tem a ideia de colocar os loucos em navios, que vagavam sem destino e ocasionalmente chegavam a algum lugar, onde novamente eram excluídos, tornando-se párias permanentes da sociedade.

Por volta do século VIII, a moralidade incentivou a sociedade a criar locais onde poderia "guardar" seus excluídos: prostitutas, pessoas com várias doenças venéreas, mendigos, aleijados. Os loucos foram acrescentados a esse círculo, pois eles também eram excluídos. Não eram locais para tratamento, apenas para afastar a escória das pessoas decentes. Foi nessa época que um médico, o Dr. Pinel, passou a ver a doença mental como algo que necessitava de atenção e rompeu correntes e paradigmas que até então prendiam os loucos, levando-os para os primeiros manicômios. Entretanto, a doença mental era tratada como um desvio de caráter moral, sendo os tratamentos baseados na "forma correta" como aqueles indivíduos deviam agir no meio social. No entanto, com o passar do tempo, o tratamento moral de Pinel vai se modificando: permanecem as idéias corretivas do comportamento e dos hábitos dos doentes, porém como recursos de imposição da ordem e da disciplina institucional. 

No século XIX, o louco é um doente e precisa de tratamento específico, que consistia em medidas físicas como duchas, banhos frios, chicotadas, máquinas giratórias e sangrias. É a época do surgimento da Psiquiatria, o saber médico aliado ao conhecimento científico buscando entender e tratar a loucura. O louco não tem voz ou credibilidade, ser taxado de louco é sinônimo de ser desacreditado por todos. Há um medo mais ainda da loucura, pois pior do que viver num mundo alheio ao das outras pessoas é ser completamente ignorado. Os médicos conversam com seus pacientes na tentativa de compreender os transtornos mentais, dissecam cérebros na tentativa de encontrar no órgão a causa do comportamento inadequado. A ciência tenta avançar mesmo que de forma rudimentar.  

A tradição do início do século XIX até metade do século XX permanece. Há avanços na ciência, mas o louco ainda é tratado como animal, submetido a tratamentos que estão mais próximos da tortura do que de uma terapia. Ainda reina um moralismo poderoso, uma vez que masturbação compulsiva, sexo fora dos padrões e desvios de caráter e homossexualismo são considerados loucura. Os manicômios estão em toda parte. Apesar do avanço da Psicologia, a Psiquiatria ainda vê a causa da doença mental como algo orgânico. 

É então que no final do século XX se inicia no Brasil, no final da década de 70, a mobilização dos profissionais da saúde mental e dos familiares de pacientes com transtornos mentais. Esse movimento se inscreve no contexto de redemocratização do país e na mobilização político-social que ocorre na época. Essa é a semente da Reforma Psiquiátrica, que viria a germinar anos mais tarde, reformulando não só a forma de tratar e acomodar o "louco", mas de reinseri-lo no convívio social.



Importantes acontecimentos acontecem no Brasil, como a intervenção e o fechamento da Clínica Anchieta, em Santos/SP, e a revisão legislativa proposta pelo então Deputado Paulo Delgado por meio do projeto de lei nº 3.657, ambos ocorridos em 1989, impulsionam a Reforma Psiquiátrica Brasileira. Em 1990, o Brasil torna-se signatário da Declaração de Caracas a qual propõe a reestruturação da assistência psiquiátrica, e, em 2001, é aprovada a Lei Federal 10.216 que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Dessa lei origina-se a Política de Saúde Mental a qual, basicamente, visa garantir o cuidado ao paciente com transtorno mental em serviços substitutivos aos hospitais psiquiátricos, superando assim a lógica das internações de longa permanência que tratam o paciente isolando-o do convívio com a família e com a sociedade como um todo.


E os profissionais de saúde mental lutam para desconstruir séculos da imagem que foi criada do louco, para um sujeito que padece de algum transtorno e precisa de apoio e acompanhamento especializado. Até hoje, mesmo com os avanços dos tratamentos, da evolução da Psicologia, dos fármacos, as pessoas ainda temem a doença mental, as maioria das famílias não querer se responsabilizar pelo cuidado dessa pessoa, muitas vezes desejando que o Estado o assuma. Mas o maior objetivo da Reforma Psiquiátrica é a reinserção do "louco" na sociedade, porque talvez o louco veja o mundo de uma forma mais sã que nos. E nos em nossa ignorância tememos aquilo que não conhecemos. O homem parece o mesmo desde os tempos antigos, sempre isolando algo que teme, sempre fugindo daquilo que desconhece. 

Para terminar, só quero deixar claro que qualquer transtorno mental tem tratamento, embora muitos ainda não tenham cura, mas um acompanhamento especializado com medicação e psicoterapia pode garantir qualidade de vida a esse indivíduo, aliviar seu sofrimento, fazê-lo sentir-se aceito entre os seus e lhe dar a liberdade que séculos de medo e ignorância ceifaram.


Referências:

FOUCAULT, M. História da loucura. Ed. Perspectiva - SP, 1978.

http://www.ccs.saude.gov.br/vpc/reforma.html

http://www.ccs.saude.gov.br/memoria%20da%20loucura/mostra/reforma.html

http://www.letraefel.com/2007/01/loucura-na-histria.html

http://www.ebah.com.br/content/ABAAAANGcAF/olhar-sobre-a-loucura-foucault

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Medos Excessivos: Pânico ou Fobia?

É comum muitos pacientes relatarem o medo como um sintoma primordial que vivenciam quando algo vai errado em sua psiquê, de modo que vem sempre acompanhado de outras manifestações físicas ou psíquicas. Vamos procurar delinear a diferença entre pânico e fobia.

Fobia é uma palavra que vem do grego e significa "medo".  Já pânico é uma sensação intensa de medo e ansiedade. Para ficar claro e de forma didática vamos falar primeiro da fobia.

FOBIA

Do ponto de vista clínico, a Psicologia e a Psiquiatria definem fobia como um espectro de sintomas específicos que se manifestam em situações diferentes. A Fobia seria um medo irracional e muito intenso de alguma coisa ou alguma situação específica. O DSM IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 4a Edição) divide as fobias simples em cinco tipos:

Animais (aranhas, cobras, sapos, etc.);
Aspectos do ambiente natural (trovoadas, terremotos, etc.);
Sangue injeções ou feridas;
Situações (alturas, andar de avião, andar de elevador, etc.);
Outros tipos (medo de vomitar, contrair uma doença, etc.).

Então quando o indivíduo está exposto a uma dessas situações ele experiencia uma sensação de ansiedade muito intensa, medo irracional e a ação mais comum é evitar a situação, num movimento de fuga. A Fobia social é um tipo bastante comum de Fobia onde o sujeito desenvolve um medo sempre que está ou que se imagina em alguma situação social, que podem ser festas e reuniões ou até mesmo trabalho e escola. Atendia uma garota de 15 anos diagnosticada com Fobia Social que deixou de ir a escola, quase não saía de casa e basicamente vivia no próprio quarto. A intervenção nesse caso era difícil porque a paciente tinha um medo intenso de sair na rua e encontrar com pessoas. 

Fobias de animais são bem comuns também, podem algumas vezes estar associadas a traumas de infância (medo de cachorro, por exemplo porque foi atacada por um cão quando criança), ou um medo sem explicação aparente, como Fobia de sapos. Mesmo o paciente sabendo que o sapo não é um animal perigoso, mas ver um sapo lhe causa uma angústia indescritível. Esse tipo de fobia atua de forma tão inconsciente que mesmo se o sapo em questão for de plástico, de barrro, a pessoa ainda se sente desconfortável.  

Muitas vezes as fobias podem estar relacionadas com situações traumáticas da infância, que foram esquecidas (recalcadas como diz Freud, pai da Psicanálise), e voltam na forma do sintoma fóbico porque não foram elaboradas de forma adequada pela psiquê do sujeito. Em outros casos são uma série de associações ligadas a experiência individual da pessoa que acaba desenvolvendo a Fobia sem uma causa aparente. O caso é que a fobia vem sempre acompanhada do medo intenso, sensações físicas de taquicardia, falta de ar, tonturas, etc.


PÂNICO

O pânico é um sintoma de alguma psicopatologia. É descrito como uma sensação intensa de ansiedade e medo, acompanhado de uma série de sintomas físicos (taquicardia, falta de ar, náusea ou dor de estômago, dor abdominal ou diarreia, tontura, tremores nos membros), e uma vontade forte de ir para um local que considere seguro, além de pensamentos negativos que se repetem como se previssem algo catastrófico.  Nosso cérebro possui um sistema de defesa ancestral que nos permitia sobreviver ao encontro com predadores; desta forma, sempre que se sentir ameaçado o cérebro da pessoa envia uma série de comandos para o corpo para prepará-lo para fugir ou lutar, através de uma descarga de adrenalina e outras substâncias. No pânico esse mecanismo é ativado constantemente, sem que haja um perigo real.

Diversos transtornos tem o pânico como sintoma, como por exemplo o Transtorno de Ansiedade, Transtorno do Pânico, Fobias e Depressão. Dessa forma, é preciso uma avaliação com um especialista para determinar o diagnóstico e o curso do tratamento. 

No geral, tanto os quadros de Fobia quanto os que têm o pânico como sintoma, são utilizados medicamentos ansiolíticos (reduzem a ansiedade e o mal estar) e antidepressivos, mas é preciso que o paciente também faça psicoterapia com um psicólogo para aprender a lidar com suas Fobia/pânico, de modo a compreender melhor a si mesmo nessas situações.






Referências:

http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2011/06/especialistas-explicam-sintomas-e-tratamento-da-sindrome-do-panico.html

http://www.appi.org/Pages/DSM.aspx

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=75

Kaplan, Wilfred. Manual de Psiquiatria Clínica. 2aEd.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Psicoterapia e Medicalização do Sujeito

Muito se discute sobre a necessidade do uso de medicação psicoativa e da eficácia da psicoterapia. Nesse breve artigo tentarei falar de ambas, sua importância e a necessidade de cada uma. 

Vivemos num futuro onde a maioria das doenças são curáveis através de vacinas, de máquinas especiais ou de remédios. Medicamentos são drogas que agem no corpo, alterando a bioquímica das células de modo a alcançar um efeito específico. Numa definição mais específica, medicamento é:

"Toda a substância ou associação de substâncias apresentada como possuindo propriedades curativas ou preventivas de doenças em seres humanos ou dos seus sintomas ou que possa ser utilizada ou administrada no ser humano com vista a estabelecer um diagnóstico médico ou, exercendo uma ação farmacológica, imunológica ou metabólica, a restaurar, corrigir ou modificar funções fisiológicas"

Em medicina é um recurso bastante utilizado para tratar inúmeras moléstias, mas quando chegamos no campo da saúde mental esbarramos em vários pré-conceitos, estigmas e inverdades e práticas desnecessárias que muitas vezes dificultam a adesão do tratamento e trazem descredibilidade ao tratamento Psicológico e Psiquiátrico. Acontece que as drogas psicoativas (ou substância psicotrópica, é uma substância química que age principalmente no sistema nervoso central, onde altera a função cerebral e temporariamente muda a percepção, o humor, o comportamento e a consciência) evoluíram muito ao longo dos anos, embora muitas vezes sejam utilizadas de forma indevida. 

Acontece que quando é feito o diagnóstico Psicológico/Psiquiárico, muitas vezes se faz necessário o uso de medicamentos específicos para ajudar no tratamento; drogas que vão aliviar o mal estar, reduzir a ansiedade, o medo, aliviar a sensação de tristeza e pânico, reduzir a insônia, eliminar as alucinações e os pensamentos delirantes e o comportamento maníaco. Os medicamentos psicoativos servem para uma infinidade de quadros sintomatológicos e tem sua eficácia comprovada através de estudos médicos, neurológicos e neuropsicológicos. 

Entretanto, por conta da falta de preparo, humanização ou boa vontade do profissional o paciente nem sempre é informado do seu diagnóstico e na grande maioria das vezes também não é orientado acerca da medicação que está fazendo uso. Toma os "remédios pra cabeça"(ou para os nervos) sem saber para que servem, seus efeitos, etc. Dependendo do paciente isso pode até ser irrelevante, mas mesmo um paciente que não responde pelos atos da vida civil, como um paciente com algum grau de retardo mental, esquizofrenia ou psicose, a família deveria ser informada sobre tudo, afinal faz parte do tratamento.

Pela minha experiência cotidiana existe uma prática entre muitos profissionais da psiquiatria que é a de apenas medicar o paciente, muitas vezes sem ouvi-lo realmente, sem conhecer sua queixa real, sua necessidade, pondo toda responsabilidade da cura no medicamento. Uma vez que o sujeito é colocado em segundo plano, a melhora ou a "cura" dessa pessoa acaba tomando um rumo incerto, uma vez que essa medicação psicoativa atua nos sintomas dos transtornos psicológicos e não na causa, assim sendo apenas aliviam e mascaram o problema.


QUAL O PAPEL DA PSICOTERAPIA?

Aliado ao diagnóstico e a medicação existe a psicoterapia. Sua definição é:




"Um tipo de terapia, cuja finalidade é tratar os problemas psicológicos, tais como depressão, ansiedade, dificuldades de relacionamento, entre outros problemas de saúde mental. É um processo dialético efetuado entre um profissional, o psicoterapeuta - que pode ser psicólogo ou psiquiatra - , e o cliente ou paciente".


Os objetivos da psicoterapia são:

-Restabelecer o funcionamento psíquico do paciente para que volte ao estado de equilíbrio;
-Permitir que o paciente compreenda o que acontece com ele a nível psicológico, emocional e comportamental para que possa encontrar recursos psíquicos para lidar com suas dificuldades, problemas, etc;
-Desenvolver meios de agir no mundo, estratégias, redefinindo suas atitudes, pensamento e modo de encarar a vida;
-Solucionar problemas pontuais, que o afligem (como a perda de um ente querido, por exemplo), bem como, tratar de questões de cunho mais existencial.

Você deve estar se perguntando se para tratar tudo isso é necessário medicação e a resposta é: não. Muitos problemas que chegam aos consultórios de Psicologia/Psiquiatria poderiam ser trabalhados apenas com psicoterapia, sem necessidade de medicação, embora muitos psiquiatras acreditem que o seu maior poder esteja na prescrição dessas drogas e muitos pacientes julguem que somente essas drogas vão tirá-los de seu problema. Esse é um erro tão comum, mas tão gritante que deveria ser esclarecido ao pacientes pelos bons profissionais que trabalham na área. Um bom diagnóstico vai delimitar a real necessidade ou não da medicação.

Deixo claro aqui que algumas condições clínicas são crônicas e o uso da medicação é imprescindível, até mesmo pelo resto da vida como nas esquizofrenias, psicoses, transtorno obsessivo compulsivo, transtornos de personalidade (borderline, por exemplo). Nesses casos é fundamental o uso contínuo da medicação que melhor se adequar ao paciente, mas também se faz necessário a psicoterapia para ajudar o paciente a lidar com seus sintomas, com sua angústia e aprender melhor sobre seu transtorno de modo que possa ter uma qualidade de vida.


A farmacologia e a psicoterapia não devem ser inimigas, mas aliadas. Minha crítica gira em torno a penas do uso desnecessário de medicamentos em situações que o paciente pode lidar com a ajuda da psicoterapia, sendo que muitas vezes é encorajado por médicos (clínicos ou psiquiatras) a usar determinada medicação como forma de alívio imediato dos sintomas. O problema é que o sintoma aliviado não some, muitas vezes ele muda de lugar e cresce como um monstro que começa a devorar o sujeito por dentro. Sem um trabalho terapêutico de pouco adianta a medicação, ela irá só amenizar os sintomas físicos, mas não dará autonomia para o paciente para compreender suas dificuldades reais e lidar com ela. Outra questão é que a medicalização desnecessária possa criar pessoas dependentes de certas classe de remédios, os famosos tarja preta. Já atendi pessoas dependentes de diazepam, por exemplo, que usavam a droga há 30 anos sem necessidade alguma.

Desta forma, sempre questione seu médico sobre a real necessidade do medicamento, sobre seus efeitos no seu corpo e sobre os benefícios de usá-lo. Para finalizar, lembro de uma vez em que eu estava com muita insônia e fui a um clínico geral, já esperando que ele fosse me medicar com algum sedativo, como é de praxe. Depois de duas horas de consulta (isso mesmo, duas horas, enquanto que muitos médicos passam dez minutos para examinar um paciente), o simpático doutor cuja filha era psicóloga me deu orientações em como lidar com meu estresse e não me passou NENHUM remédio. Pela primeira vez na vida saí de um consultório médico sem receita. Quem dera existissem mais profissionais médicos assim, com um olhar mais humano e menos biológico/farmacológico.




Referências:

Vida Celeiro - Revista de Saúde, Beleza e Bem-estar. N.º16 - Inverno 2012. Pág.26

http://www.dre.pt/pdf1s/2006/08/16700/62976383.pdf

http://www.infoescola.com/psicologia/psicofarmacologia/

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

SITUAÇÕES EXTREMAS: ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

O que ocorre conosco quando somos submetidos a situações inesperadas, a algo que nos leva ao limite emocional, que eleva ao máximo os níveis de alerta do cérebro e desafia toda experiência negativa pela qual já passamos antes? Nesse artigo, vou falar para vocês o que é e como ocorre o Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

É sabido que as emoções influem no funcionamento do corpo, não apenas na saúde, mas também na doença, podem ser emoções agradáveis ou desagradáveis e desempenham um papel não apenas fisiológico como também motivacional. São as emoções que nos impulsionam para a realização de nossas atividades diárias, das nossas metas, dos nossos sonhos, embora também se tornem obstáculos quando se fala de medo, insegurança e ansiedade. A emoção é sentida pela pessoa ao mesmo tempo em que o corpo responde fisiologicamente, ativando áreas específicas do cérebro e liberando diferentes substâncias na nossa corrente sanguínea. 

Segundo Ballone: 

"Dentro das emoções negativas, uma das reações emocionais que mais se tem estudado é, sem dúvida, a ansiedade. Este é um estado emocional reconhecidamente associado a múltiplos transtornos. Uma segunda emoção negativa que está sendo muito estudada é a raiva, por sua estreita relação com os transtornos cardiovasculares. Finalmente, a tristeza e sua representação psicopatológica, a Depressão, até pelo fato desta se acompanhar, em geral, de altos níveis de ansiedade."

Assim, cada emoção desencadeia reações diferentes em nosso corpo, fisiológicas e comportamentais, de acordo com a situação vivenciada pelo sujeito. A questão desse artigo é: e quando é um evento traumático, que consequências ele terá sobre a pessoa?


O QUE É O TRAUMA?

A palavra "trauma", do ponto de vista semântico, vem do grego trauma (plural: traumatos, traumas), cujo significado é “ferida”. A terminologia trauma em medicina admite vários significados, todos eles ligados a acontecimentos não previstos e indesejáveis que, de forma mais ou menos violenta, atingem indivíduos neles envolvidos, produzindo-lhes alguma forma de lesão ou dano. 

Conforme o dicionário da infopedia, trauma, tem seu conceito psicológico:
"Acontecimento emocionalmente doloroso que torna o sujeito particularmente sensível em situações similares"

O trauma psicológico é algo particular para cada indivíduo. A vida nos trás inúmeros prejuízos durante o curso de nossa existência, cada situação é vivida de uma forma diferente por nós com base em como aprendemos a lidar com nossos problemas e situações estressoras. Desta forma o que pode ser algo extremamente para uma pessoa para outra pode ser uma situação ruim facilmente superável. 


AS GUERRAS E OS ESTUDOS EM PSICOLOGIA

O período das guerras, principalmente a Primeira e a Segunda Grande Guerra Mundial foram importantes para o desenvolvimento de vários estudos na área da psicologia, psiquiatria e medicina. Os psicólogos começaram a analisar como poderia alocar melhor aqueles homens o que fez nascer o que no futuro seria chamado de Orientação Vocacional. Contudo o que nos interessa nesse período é saber dos estudos conduzidos com os combatentes que retornavam do campo de batalha. Fosse com o sem traumas físicos (amputações, incapacitações físicas) estava claro que havia algo de errado com a mente daqueles homens. Muitos acordavam a noite gritando, se escondiam embaixo de suas camas, saíam gritando no meio do almoço como se estivessem sendo perseguidos. A guerra havia destroçado suas mentes. 


O trauma mental ocasionado por viver em constante situação de estresse, medo, angústia deixou marcas permanentes no psicológico desses soldados, muitos nunca mais tiveram uma vida normal. Psiquiatras e Psicólogos que estudavam essas reações perceberam um padrão: angustia, medo, ansiedade, em alguns casos até mesmo alucinações estavam presentes. Alguns apresentavam tremores incessantes, tiques, mutismos e outros sintomas difusos. Um conhecido caso extremo disso é o chamado Shell Shock (algo como choque na casca), resultado do nível altíssimo que o soldado era submetido e que seu emocional não suportava desencadeando uma espécie de somatização, ou seja, o emocional transbordando para o corpo físico. Segue um vídeo sobre o shell shock:



Muito embora a ideia do Transtorno do Estresse Pós-Traumático tenha sido um conceito desenvolvido a partir de 1980, nas classificações internacionais (CID.10 e DSM.IV), que permitiu unificar uma série de categorias de transtornos emocionais reativos a acontecimentos traumáticos anteriormente dispersos na classificação psiquiátrica.


O TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

Esse quadro é característico principalmente devido a um fator externo que desencadeia o trauma, um fator estressante que leva o sujeito além do seu limite de suportar algo aversivo o que o leva a um quadro complexo e cuja a evolução pode ser rápida e danosa se não diagnosticada e tratada. 

Segundo Ballone e Moura:
"a influência da severidade das agressões no risco de desenvolver o Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Dab (1987) assinala que a gravidade das seqüelas físicas é proporcional à importância do dano físico e que 80% dos feridos graves desenvolvem um Transtorno do Estresse Pós-Traumático. A comorbilidade do Transtorno do Estresse Pós-Traumático com Transtorno Depressivo também é maior nessas pessoas, sobretudo quando se compara a incidência de 21,8% de depressão nos sujeitos severamente feridos, que corresponde a 2,6 vezes mais que nas pessoas feridos levemente ou não feridos (Bouthillon, 1992)."


Significa dizer que quando maior e mais severa a agressão ou dano físico sofrido pelo sujeito, estatisticamente falando, mais a probabilidade de desenvolver o transtorno e não apenas isso, ocorrer também outros transtornos em concomitante como transtorno depressivo e mesmo transtorno de ansiedade generalizada. 


O leitor deve estar se perguntando se só combatentes de guerras sofrem com esse tipo de transtorno e a resposta é não. Vítimas de acidente, tortura, agressões, perseguições, sequestros, incêndios, atentados podem desenvolver o transtorno de estresse pós-traumático.




Algumas manifestações do transtorno são:

1. Atitude psíquica de reviver o trauma, através de sonhos e de pensamentos durante a vigília; 
2. Comportamento de evitação persistente de qualquer coisa que lembre o trauma e embotamento da resposta a esses indicadores; 
3. Estado afetivo hiperexitado persistentemente. 
4. Sentimento de tristeza, ansiedade, culpa, medo, raiva podem estar presentes.
5. Alucinações, delírios ou paranóia podem estar presentes.

Além disso algumas profissões sofrem mais com esse transtorno, profissões onde o nível de estresse e alerta do sujeito são constantes. Acertou quem pensou "policial", mas também, bombeiros, seguranças, pessoas que lidam com valores altos ou que estão sujeitas a violência.


UM CASO DE TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

Eu atendi um caso deste tipo em que um jovem adolescente com menos de 15 anos brincava com o melhor amigo manuseando a espingarda "cartucheira" do avô, uma arma rudimentar e instável. Eles miraram para um lugar seguro e apertaram o gatilho. Como não houve disparo acreditaram que a arma estaria descarregada e continuaram brincando com ela. Quando o jovem mirou na cabeça do outro, ele nem precisou tocar no gatilho, a arma disparou acidentalmente atingindo a cabeça do melhor amigo que caiu banhado em sangue e morto. O jovem foi encaminhado para tratamento comigo. Passou a ser introspectivo, isolou-se socialmente, apresentava melancolia frequente, seu rendimento escolar caiu e passou dois meses sem ir a escola. 

Aquele jovem se culpava constantemente pela morte do amigo, que era quase como um irmão de criação, e revivia a cena do disparo em sua mente o tempo todo. Desenvolveu sentimentos de menos valia, ou seja, passou a não se valorizar enquanto se culpava cada vez mais. Entretanto, devido ao início precoce do tratamento foi possível reverter esse quadro após 1 ano de psicoterapia, impedindo que o adolescente entrasse em depressão ou algum quadro ansioso. Minha experiência com esse jovem foi enriquecedora pois fui capaz de ajudá-lo a reestabelecer contato consigo mesmo e com a comunidade ao qual ele se isolara. Retornou a escola, suas notas melhoraram, recuperou a autonomia de si, ganhou confiança e aprendeu com a experiência negativa que viveu, nunca mais querendo contato com armas de fogo e sabendo respeitá-las. Hoje ele vive bem e não desenvolveu nenhum tipo de transtorno, tendo saído do quadro de transtorno de estresse pós-traumático e recebido alta.


Uma coisa é certa, ele nunca esquecerá o que aconteceu, mas foi capaz de superar esse evento traumático de uma forma positiva a partir do tratamento. Detalhe é que não foi necessário o uso de qualquer medicação. No caso dele apenas a psicoterapia foi capaz de lhe devolver o equilíbrio emocional necessário para continuar sua vida.

Para finalizar, as maiores vítimas desse tipo de transtorno hoje são as pessoas que vivenciam a violência urbana, acidentes de todo tipo e tortura. Procure um psicólogo para superar esses traumas antes que eles evoluam para outras psicopatologias.



Referências:

trauma In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-08-29]. Disponível em
URL:http://www.infopedia.pt/lingua-ortuguesa/trauma;jsessionid=sTQYK6pUiHJxzyCyoAFVEA__>.

http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=01

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516
44462003000500014&lng=pt&nrm=iso

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=25

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=69



sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ensinando e Educando Crianças

Muitas pessoas me perguntam qual a melhor forma de criar seus filhos e muitos pais questionam como lidar com certos comportamentos das crianças que são inadequados, irritantes ou ambos. O objetivo desse texto é dar algumas sugestões e analisar o comportamento infantil que venho presenciando na atualidade.

O que os pais tem que ter em mente é que não existe um manual "Como Criar seu Filho". Podem até existir livros de autoajuda que falem sobre isso (eu não conheço, mas sei que estão por aí), todavia não podemos tratar o comportamento humano como receita de bolo, muito menos o comportamento de um ser em desenvolvimento. Muitos desses livros não são escritos por profissionais que lidam com o comportamento humano (Psicólogos e Psiquiatras). Desta forma, não irei "dar dicas", mas sim sugestões que pais e educadores podem adotar ou não para buscar compreender o comportamento da criança de acordo com cada contexto.

Antes de mais nada, é indispensável fazer uma breve análise histórica e social para entendermos um pouco o contexto atual. As pessoas mais velhas sempre usam o discurso de que "antigamente bastava meu pai olhar e eu obedecia", ou que "tínhamos medo do nosso pai/mãe então não nos comportávamos mal". Utilizam inclusive o argumento do castigo físico como justificativa para um bom comportamento, "antigamente podia bater, hoje não pode mais, por isso as crianças não respeitam mais os pais" ou "o problema desse menino é falta de peia". São frases de pais de crianças que atendi no consultório e que com absoluta certeza você já ouviu isso em algum lugar (ou mesmo pensou em alguma delas). Analisemos a situação sócio-histórica.

Há vinte, trinta ou mais anos atrás as famílias eram mais numerosas, ou seja, os casais tinham mais filhos, o pai geralmente era o provedor da casa enquanto a mãe tratava de cuidar do lar e dos filhos. Mesmo trabalhando o dia todo o pai estava presente durante a noite e havia algum tipo de contato familiar. Com o passar dos anos, das mudanças político-econômicas e sociais, a mulher foi saindo desse espaço de submissão; agora só o salário do homem não era suficiente para sustentar a família e os casais viam que o excesso de filhos se convertiam em excesso de despesas. O resultado é que muitas famílias passaram a ter menos filhos e que as mães passaram a ter que encarar jornadas de trabalho para complementar a renda. Os filhos passaram a ser cuidados por terceiros (babás, avós ou creches). É esse cenário que pretendo analisar.


A ausência dos pais no ambiente familiar é um fator determinante para o comportamento de qualquer criança. É nos pais que a criança se espelha, que aprende como deve se portar em determinadas situações, que é ensinada a distinguir o que é certo (ou mais adequado para seu contexto) do que não é. Mas e quando os pais trabalham jornadas exaustivas e chegam em casa tarde da noite quando os filhos já estão dormindo, ou tem contato com os filhos durante a semana apenas quando vão buscá-los na escola/reforço/natação etc? As crianças tentam se adaptar a essa ausência e o responsável por aquela educação primária que falamos no começo desse parágrafo fica a cargo de terceiros que nunca vão ocupar a função materna/paterna adequadamente. A criança tenta se adaptar. Ela sabe quem são seus pais, mas nunca os tem por perto, não tem ninguém para frear seus instintos primários, os cuidadores nem sempre exercem autoridade com a criança ou são pacientes. O que acontece? Isso mesmo, reclamações sobre como a criança se comporta mal.

A criança como qualquer ser reage ao que ela experiencia em seu meio. Experienciar a ausência dos pais geralmente não é bom, gera ansiedade e desconforto na criança o tudo o que chamamos de comportamentos negativos são na verdades tentativas da criança a se adaptar aquilo que ela vivencia e sente. Está na moda dizer que as crianças são hiperativas, recebi muitas queixas dessas no consultório e 99% se tratava apenas da ausência dos pais ou na inabilidade deles lidarem com as ações dos filhos. Vamos parar com essa mania de diagnosticar as crianças e chamá-las de hiperativas. Leiam esse artigo meu sobre o tema. 

O leitor então deve estar se perguntando: "Então porque meu filho(a) não para quieto? Porque ele bate e morde os colegas? Porque ele não me obedece? Porque não quer comer? Porque dorme tarde?" A resposta é simples: ausência de pais mais presentes que imponham regras e limites.  Como ser em desenvolvimento pleno, muitas vezes a criança vai agir em cima do seu desejo ou vontade, mas ela não tem a maturidade necessária para saber ainda o que é melhor para ela, por isso a importância dos pais 
nesse processo, pois eles vão direcionar e frear esses desejos.

Assim como a vida em sociedade vivida pelos pais é regida por regras, a vida da criança também deve ser. Se a criança aprende e consegue internalizar essas regras desde pequena isso ajudará não só no seu desenvolvimento pessoal, mas social também. A criança deve ter hora para acordar, dormir, comer, banhar, brincar, estudar. Não precisa ser algo rígido como um quartel, mas deve ser algo que os pais busquem para melhor lidar com seu filho. No momento que os pais aprendem a direcionar a energia da criança ela deixa de ser destrutiva ("o menino danado") para ser construtiva/integradora. Se a criança quebra as regras ela deve ser punida, mas não necessariamente com castigos físicos, ela deve ser ensinada sobre seu erro e orientada a buscar não cometê-lo. A repetição do erro pode custar perdas como forma de castigo (não vai para a casa dos colegas, não vai jogar vídeogame, usar o computador) ou seja, retirar algo importante para a criança para que ela entenda que suas ações negativas terão consequências desagradáveis.

Em algum momento pode ser que isso não seja o suficiente e que um castigo físico seja necessário, como uma chinelada ou uma palmada. Mas não confundam isso com espancamento, por isso a famigerada "Lei da Palmada" foi aprovada, por conta de pais (provavelmente ausentes) que não davam conta do comportamento dos filhos e começaram a agredir os filhos e espancá-los achando que isso resolveria o problema. Pelo contrário, o excesso de castigos físicos, de agressões e espancamento perde o sentido para a criança em algum momento não surte nenhum efeito positivo em seu comportamento, pelo contrário, pode levar a criança a se tornar desde um indivíduo ansioso, deprimido até mesmo violento.


Algumas sugestões que posso passar para pais e educadores são:

- Ouçam a criança. Um grande erro é nunca ouvir o que a criança tem a dizer ou achar que a criança estáa mentindo. Já atendi diversos casos de abuso sexual onde as crianças relataram que os pais não acreditaram no que elas diziam. Embora o exemplo do abuso fuja ao nosso contexto, foi citado para mostrar a importância de se ouvir o que a criança tem a dizer.

- Seja imparcial. Se você tem dois filhos nunca priorize um, nunca facilite as coisas para um deles ou seja mais brando. O que vale para um deve valer para o outro. Se você deu uma ordem ou um castigo para a criança faça ela cumprir a não ser que alguma coisa no contexto mostre que você pode ser flexível naquela vez, mas em geral a criança precisa saber que a mãe nem o pai vai tomar partido por ela. Significa que se o pai colocou o castigo só ele pode retirar e vice versa para a mãe. 

-Pais, evitem conflitos de autoridade na frente da criança. Se forem discutir, discutam longe dela ou de preferência na ausência da criança. É muito ruim quando a criança presencia as brigas dos pais sobre "quem manda nele". Ambos são responsáveis por esse filho e devem compartilhar a responsabilidade. Os limites do comportamento do filho devem ser acordado por ambos.


-A criança tem que brincar, mas é preciso encontrar o equilíbrio entre o brincar e outras atividades. Deixar a criança muito tempo "solta", sem nada para fazer pode ser ruim, ao mesmo tempo que entupir o dia da criança com aula de tudo quanto é coisa também não é adequado. É importante direcionar a criança para atividades lúdicas e produtivas, todavia pelo menos algumas delas devem despertar interesse na criança, ou podem se tornar uma "tortura" e desencadear os comportamentos inadequados 
descritos nesse texto.


-Ter regras e obedecê-las. Toda casa tem regras e deve haver uma cobrança para que sejam seguidas. Se a criança é ensinada desde pequena ela vai internalizar aquele aprendizado e o levará para a vida adulta. Isso vale desde a organização do quarto até os conceitos morais e religiosos.


-Saber punir. A grande dificuldade dos pais de hoje é saber punir. Muitas vezes é mais fácil bater do que conversar, gritar do que explicar. Cuidar de filhos não é fácil, mas quanto menos paciência e educação você der ao seu filho menos paciente e educado ele será. Lembre-se pai/mãe de seu filho é reflexo da forma como você o trata e cuida. Eu sempre aconselho que quando a criança faz algo que não devia você deve alertá-la, chamar sua atenção de forma tranquila. Olhe nos olhos da criança e faça com que ela preste atenção no que você está falando. Seja firme, mas sereno. Se ela volta a cometer a mesma falta ameace o castigo. Se ela repete aplique o castigo (exemplos de castigos foram dados texto acima) e a faça cumprir o castigo e entender porque está sendo castigada. Em último caso se for necessário a palmada/chinelada.

-Brinque com seu filho. Tenha um tempo com ele, converse com ele. Mesmo com o trabalho e a correria do dia a dia tire um tempo para estar plenamente com seu filho. Isso faz toda  diferença. Pergunte a ele da escola, dos amigos, das brincadeiras.


-Nos dias de hoje com o advento da tecnologia as crianças estão tendo acesso mais cedo a dispositivos eletrônicos. Particularmente não acho isso saudável. Não deixe que seu filho fique imerso demais na tecnologia e se isole. Estimule a socialização. Leve ele para interagir com outras crianças fora do ambiente escolar. Socialização infantil é essencial para o desenvolvimento. 


-Saiba elogiar as boas ações do seu filho, assim como você sabe repreender as más. Muitos pais esquecem de elogiar. O elogio fortalece a probabilidade da criança repetir as boas ações, afinal para os pequenos a aprovação dos pais é bastante importante. 


-Evite permutas. "Vou te dar isso se você fizer isso". A criança pode internalizar que tudo que ela vai fazer requer uma recompensa. Ela deve fazer porque é obrigação, porque é o certo ou porque é importante, não porque vai ganhar um bem material.


-Não ponha na escola a responsabilidade pela educação dos seus filhos. Essa responsabilidade é dos pais, a criança vai levar para escola o que aprende em casa e levar para casa o que aprende na escola mas o ambiente primário dela é o lar e é onde ela deve aprender sobre o que é ou não permitido.


Isso não é receita de bolo! São sugestões como disse para que os pais e educadores possam adaptar a sua realidade, porque cada lar, cada família, cada criança tem suas particularidades. Tenham em mente que para cuidar de uma criança e educá-la bem é balancear amor e disciplina: qualquer um desses dois em excesso pode ser prejudicial.

OBS: Já atendi algumas crianças na clínica, hoje em dia não atendo mais esse público, uma vez que os pais são fundamentais nesse processo e a maioria não se implica na terapia, gerando poucos sucessos. Sempre existe o discurso "Mas doutor, eu não tenho tempo". São as escolhas que fazemos. 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Suicídio, Religião e Reflexões


Aproveitando a deixa do último artigo, hoje pretendo tratar de um tema bastante delicado e cheio de tabus por parte da sociedade: o suicídio. Nesse artigo vou tecer algumas idéias acerca do tema, a partir das minhas leituras, do meu conhecimento profissional e da minha experiência como psicoterapeuta.


O suicídio sempre existiu na humanidade, se manifestando de formas diferentes em cada cultura e sociedade, de acordo com as demandas de cada período. Temos como significativa expressão do suicida o povo japonês. Na época feudal os samurais japoneses praticavam o sepukku, termo que significa literalmente "cortar o estômago", um modo de suicídio por autoestripamento. 

Originalmente o sepukku era realizado apenas pelos samurais que seguiam um rígido código de honra e podia acontecer de três formas: para o samurai não cair nas mãos do inimigo, para evitar desonra caso ele tivesse cometido algo vergonhoso ou como pena de morte por algum crime. Então, se o samurai tivesse algum comportamento inadequado para a época, ele deveria cometer o sepukku, caso contrário, seria desonrado, um pária na sociedade feudal japonesa. Esse tipo de suicídio ritual consistia em enfiar sua espada no abdômen, realizando um corte da esquerda para a direita abrindo completamente a barriga, na frente de vários espectadores.

Já na Segunda Guerra Mundial os japoneses utilizaram os seus kamikazes, pilotos que cometiam suicídio ao usarem os seus aviões para afundar navios e atingir alvos durante o conflito. Kamikaze significa "vento divino" e vale salientar que era um termo utilizado pelos aliados. Motivados para lutar contra uma ameaça maior, colocavam em xeque a própria vida em prol de um objetivo maior, a vitória na guerra e a glória da sociedade japonesa, deixando assim de lado todos os anseios pessoais. 


Temos também uma cultura de suicídio na Grécia antiga, onde várias mitologias se desenvolvem em cima do tema, a verdadeira tragédia grega. Deixo o link desse artigo que fala um pouco sobre isso:


Mas e a nossa cultura, a cultura ocidental? Principalmente aqui no Brasil o suicídio é visto como uma prática condenável, tanto pela sociedade quanto pela religião. Segundo o Vaticano, o Quinto Mandamento "Não Matarás", tem os seguintes desdobramentos:

"Cada qual é responsável perante Deus pela vida que Ele lhe deu, Deus é o senhor soberano da vida; devemos recebê-la com reconhecimento e preservá-la para sua honra e salvação das nossas almas. Nós somos administradores e não proprietários da vida que Deus nos confiou; não podemos dispor dela."

"O suicídio contraria a inclinação natural do ser humano para conservar e perpetuar a sua vida. É gravemente contrário ao justo amor de si mesmo. Ofende igualmente o amor do próximo, porque quebra injustamente os laços de solidariedade com as sociedades familiar, nacional e humana, em relação às quais temos obrigações a cumprir. O suicídio é contrário ao amor do Deus vivo."

"Se for cometido com a intenção de servir de exemplo, sobretudo para os jovens, o suicídio assume ainda a gravidade do escândalo. A cooperação voluntária no suicídio é contrária à lei moral." [1]

Desta forma fica claro o posicionamento da Igreja Católica Apostólica Romana sobre a questão, uma vez que Deus lhe deu o dom da vida não lhe é permitido tirá-la, nem a de seu próximo, nem a sua. O Espiritismo tem uma lógica similar, afirmando que o suicida sofre uma terrível pena por consumar esse ato tão perverso, é enviado a uma "dimensão" chamada Umbral onde permanece imerso em sofrimento e dor, revivendo a dor da morte e tendo sua alma atormentada por outros suicidas. 

Já no Islamismo, o suicídio tampouco é permitido. Para eles, o martírio perante Deus que venha a ceifar a própria vida não é considerado suicídio, dessa forma lutando num conflito até a morte pela "causa divina" não seria considerado suicídio. Entretanto os atos de martírio onde os islâmicos detonam bombas para matar várias pessoas, consumindo sua própria vida no processo, é sim considerado suicídio pelo Islamismo. O que ocorre é que os líderes desses grupos como o Hamas, o Hezbollah, a Jihad Islâmica e a Al-Qaeda, exercem uma forte influência cultural e espiritual sobre seus membros, distorcendo os preceitos do Islamismo e encorajando esse tipo de ato, o sacrifício da própria vida para encontrar o paraíso das virgens.


Fica evidente como as religiões rejeitam a ideia do homem ceifar a própria vida, acredito que isso vem como uma forma de autopreservação, de conservação do bem mais precioso que temos, mesmo que de uma forma inconsciente. 


E O SUICÍDIO NA NOSSA SOCIEDADE? 

Depois desse preâmbulo sobre como as religiões veem o tema, podemos finalmente tecer alguns comentários sobre o suicídio na atualidade, sobre as crises existenciais, sobre os transtornos psicológicos e as motivações dos suicidas. 

Diversos transtornos psiquiátricos podem levar ao suicídio, mais comumente as pessoas associam a Depressão como principal causa de suicídio, mas não é bem assim. Sabemos pela prática clínica que quadros depressivos podem sim gerar ideações suicidas, mas nem sempre isso é indicativo que vá ocorrer o suicídio. Outros quadros psiquiátricos são passivos de uma incidência até maior de suicídio, como surtos psicóticos, por exemplo, mas infelizmente não podemos afirmar categoricamente tal fato pela falta de dados estatísticos precisos. 

A dificuldade em se estudar esse fenômeno é todo o tabu e preconceito que o cercam, pois como já foi mostrado pelo pensamento religioso acima o suicidar-se é reprovável em nossa sociedade e é visto como algo que deve ser escamoteado, talvez pelo medo que a morte causa, talvez pelo choque da forma como o suicida se matou. Há um pensamento de que a divulgação do suicídio irá estimular outros, um raciocínio que eu, como profissional da Psicologia acho falho. É como dizer que ver pessoas fumando fará você fumar, mesmo sabendo que aquilo é nocivo. Dessa forma, os casos de suicídio que chegam ao Sistema de Verificação de Óbito de Fortaleza (SVO, o necrotério), nem sempre são tratados como tal no obituário, constando outro fator para causa mortis. Isso é bem mostrado pelo Dr. Cleto em sua pesquisa sobre o suicídio na cidade de Fortaleza, um estudo dos suicídio nesses últimos 50 anos. Se a pessoa se mata jogando gasolina e ateando fogo em si mesma, deveria constar "Suicídio por imolação por fogo", ao invés de "Morte por distúrbio hidroeletrolítico", no caso de um tiro na cabeça, ao invés de "suicídio por arma de fogo" coloca-se "morte devido a projétil de arma de fogo" e assim por diante.


Mas excluindo os transtornos psiquiátricos, o que leva uma pessoa a se matar muitas vezes é um ato impulsivo, onde o sujeito está passando por alguma situação da qual não consegue sair e o estresse gerado pode fazer com que essa pessoa haja precipitadamente. Vemos muitos casos na TV onde o sujeito sobe em torres ou fica na beirada de prédios, mas no fim não se mata ou não esboça o real desejo de morrer. As pessoas falam "Esse aí só queria chamar a atenção". O que ele queria era uma solução para algum problema sério, uma dificuldade que causou um desespero tão intenso que o fez a tomar aquela atitude impensada. 


Temos visto também alguns casos de jovens que tem se suicidado por conta do fim de relacionamento afetivo. Esse tipo de suicídio merece algumas reflexões. Primeiro, vamos assumir que o suicídio foi motivado pelo fim do relacionamento, não existindo anteriormente qualquer transtorno psiquiátrico associado (Depressão, esquizofrenia, transtorno de personalidade, demência, transtornos de humor, etc). O rompimento de um relacionamento tem essa força para levar o jovem a se suicidar? Isso vai depender do histórico dessa pessoa, da estrutura familiar onde cresceu, do suporte que teve dos pais durante seu desenvolvimento e da forma como interpreta as relações interpessoais. 

Se há, por exemplo, histórico de rejeição, abandono, negligência, é bem provável que a dor da separação daquela pessoa cuja a afeição era tão importante para si seja algo insuportável e a falta de mecanismos psicológicos e familiares para lidar com isso leve a pessoa a um ato impulsivo de se matar. A dificuldade em lidar com as perdas, a ausência da família e o sentimento de desamparo extremo são capazes de gerar um sentimento de vazio que pode culminar em algum transtorno depressivo transitório, mas também podem ser o estopim para um comportamento impulsivo que leve ao suicídio. As pessoas cada vez se apegam mais as outras esquecendo de si mesmas, se doando excessivamente e negligenciando seus próprios anseios, e quanto isto lhe é tirado (fim da relação) só resta o vazio.

O suicídio muitas vezes é motivado por esse vazio existencial, por essa angústia enlouquecedora que nossa sociedade provoca com suas relações frágeis e efêmeras, por essa desvalorização cada vez maior do ser humano. Nossa sociedade está adoecida e nós adoecemos junto com ela, o suicídio é apenas mais um dos sintomas disso.

Esse assunto é muito complexo e podemos falar sobre bastante coisa, prometo escrever mais sobre isso no futuro, principalmente sobre os tipos de suicídio e de estratégias para evitá-los. Quaisquer dúvidas, postem nos comentários ou mandem e-mail.



REFERÊNCIAS:

Pontes, Cleto Brasileiro. Suicídio em Fortaleza: Estudo de 50 anos. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2008. 






domingo, 23 de março de 2014

Psicologia, Cinema e Pipoca #7: A Janela Secreta

Um dos filmes que mais curti na última década, não apenas por ser uma produção despretensiosa e audaz, mas também por um bom elenco e uma boa história de suspense é A Janela Secreta. Lembro da sensação da primeira vez que vi o filme, da emoção e da surpresa, pois sem dúvida é um daqueles filmes que tem o chamado plot twist, onde uma reviravolta perto do fim faz toda a diferença. Além do mais, ele tem uma psicologia profunda em sua constituição, por isso vale muito a pena assistir.


A JANELA SECRETA


Título Original: Secret Window
Ano: 2004
Atores principais: Johnny Depp, John Turturro, Maria Bello
Direção: David Koepp
Gênero: drama, suspense


Sinopse: Mort Rainey (Johnny Depp) é um escritor em crise, que acaba de se separar de sua esposa (Maria Bello) após tê-la flagrado com outro homem. Mort decide se isolar em uma cabana à beira do lago Tashmore, em busca de tranquilidade. Porém lá aparece John Shooter (John Turturro), que começa a atormentá-lo ao acusá-lo seguidamente de plágio.





Trailer:


https://www.youtube.com/watch?v=zr3Lt1GGuXo