quinta-feira, 20 de março de 2014

Depressão, Sim ou Não?


Quando você vê uma pessoa triste, quieta ou chorando por alguns dias qual a primeira coisa que lhe vem a cabeça? Sim, que a pessoa é "depressiva" ou que está com depressão. No artigo de hoje vamos ver que não é bem assim, vamos aprender um pouco sobre o que é e como se manifesta a depressão e desconstruir alguns preconceitos que estão instaurados em nossa cultura.


Como sempre gosto de fazer em meus artigos, o primeiro passo seria definir o que é depressão. A definição do dicionário é: "Estado patológico de sofrimento psíquico assinalado por um abaixamento do sentimento de valor pessoal, por pessimismo e por uma inapetência face à vida.". Parece conter bastante informação útil sobre o que percebemos de uma pessoa supostamente depressiva. Tristeza, raiva, alegria são sentimentos que fazem parte da constituição humana e só não os expressam pessoas com algum problema neurológico ou psicopatológico sério (psicopatas não expressam tristeza ou remorso, por exemplo). Depressão é um transtorno psicológico que afeta o físico e o emocional do sujeito, dificulta ou impede que ele exerça suas funções cotidianas, além de que gera um sentimento de vazio e angústia intensa, ocorrendo uma série de sintomas específicos e se prolongando por várias semanas. 

A tristeza tem um papel adaptativo, pois anuncia para os outros que aquele indivíduo está precisando de amparo, de ajuda. A tristeza pode aumentar significativamente e se desenvolver de formas bem distintas como consequência de vários fatores diferentes, internos ou externos. Daí a complexidade de definir  o quadro de Depressão, porque existem diversos tipos de Depressão e formas específicas dela se manifestar. Além disso, ela pode aparecer "anexada" a outros quadros clínicos de alteração psicológica, como Esquizofrenia, Transtorno por Abuso de Álcool, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Demência, só para citar alguns. E pode surgir sozinha, caracterizando o Transtorno Depressivo.


MELANCOLIA É DEPRESSÃO?

Melancolia é um estado de tristeza, um momento onde o indivíduo experimenta baixa energia para realizar suas atividades, sente-se fraco psiquicamente e manifesta alguns pensamentos negativos. Mas isso não é Depressão. Vários estados podem despertar a melancolia no ser humano, uma frustração, um problema, saudade de uma pessoa querida. O problema é quando essa melancolia se intensifica e começa a tomar outras formas. 

Algo bastante comum é quando perdemos um ente querido. O processo de tristeza pela perda de uma pessoa estimada por nós é chamado de Luto, e a elaboração desse luto é um processo natural desde que o homem pisou na Terra. Cada cultura tem sua maneira de lidar com esse processo, a nossa está muito associada ao apego e portanto, a dor vivenciada com muita intensidade. Em culturas africanas, por exemplo, o processo de luto é festivo, não há tristeza mas alegria porque para eles aquele indivíduo atingiu uma nova esfera de existência. Nosso modo brasileiro de encarar o luto é bem comum em qualquer parte: choro, comoção durante o velório e enterro e sentimento de melancolia intensa nos dias que se seguem. Todavia se o indivíduo não consegue elaborar esse luto, ou seja, se ele não consegue restaurar seu desejo de prosseguir com sua vida, com suas atividades cotidianas e se apega aquele sofrimento podemos estar diante de um caso de Depressão reativa por luto mal elaborado. Mas isso se a pessoa passa meses assim. Estar triste pela perda de alguém não torna essa pessoa doente de Depressão, ela pode sim estar melancólica e deprimida, mas a tendência é que sua psiquê se restabeleça aos poucos e que retorne ao seu cotidiano. Existe uma tendência atual de impedir que a pessoa vivencie esse luto, o que não é benéfico, uma vez que o ser humano deve passar pelas fases do sofrimento para que o equilíbrio emocional retorne, suprimir isso é fazer com que esse luto volte em algum momento do futuro de forma patológica prejudicando ainda mais a pessoa. É direito seu rir, se alegrar, se emocionar e sofrer. Ninguém quer sofrer, mas faz parte da vida.


E COMO SABER SE A PESSOA ESTÁ OU NÃO COM DEPRESSÃO?

Você pode suspeitar por conta do comportamento que vai dando várias pistas, embora somente o
especialista Psicólogo ou Psiquiatra possam melhor diagnosticar qualquer estado depressivo. Quando a pessoa exibe um quadro de tristeza muito prolongado, excesso de pensamentos negativos e autodepreciativos ("eu não presto", "não sei fazer nada", "sou muito feio", "nunca vou ser ninguém", apenas alguns exemplos), alterações no apetite e no sono e incapacidade de seguir com as atividades normais do cotidiano, é muito provável que esteja vivenciando algum tipo de estado depressivo. Outro sinal são comportamento autoagressivos, onde a pessoa se agride, ou exibe esse desejo e claro os pensamentos suicidas. Em todo caso, o paciente deve ser encaminhado para uma avaliação.


ALGUMAS CAUSAS DA DEPRESSÃO


Não vou entrar muito em termos de descrição nosológica, como sempre friso esse blog é para leigos e não uma tese de mestrado, então vou ser simplista e enumerar algumas das possíveis causas de estados de Depressão. Temos as causas internas e externas. Todo mundo imagina logo que aconteceu algo na vida de uma pessoa para que ela esteja naquele estado lastimável, mas nem sempre é assim. Muitas vezes uma queda na quantidade de neurotransmissores, substâncias químicas produzidas pelos neurônios que enviam informações a outras células, pode causar uma Depressão controlada apenas com medicação, por exemplo. 

Excessos de fracassos podem levar a pessoa a um desamparo prolongado que tem a possibilidade de culminar numa Depressão caso ele não desenvolva mecanismos adaptativos suficientes para lidar com as dificuldades no meio em que se encontra. Abuso de substâncias, principalmente drogas (lícitas ou ilícitas), podem gerar estados Depressivos, mais comumente álcool, cocaína e crack. Além desses fatores, outros transtornos psicológicos podem levar a estados depressivos e doenças físicas (pacientes com doenças terminais, ou crônicas como alguns tipos de reumatismo, fibromialgia, por exemplo.). 

Que fique claro aqui, Depressão não é frescura, não é invenção da pessoa, não é desculpa para não trabalhar, não é preguiça. Muita gente tem dificuldade de se colocar no lugar do outro, até compreensível visto que a Depressão é algo que gera um intenso sofrimento psíquico, mas não é uma simulação, é real e afeta a pessoa como um todo. É preciso respeitar e apoiar esse paciente na sua crise e acima de tudo, buscar uma ajuda para ele, uma vez que em muitos casos o paciente não tem forças para buscar ajuda.

Quaisquer dúvidas ou questões, fiquem à vontade para me mandar e-mails, comentários ou marcar uma consulta. Espero que essas informações tenham sido úteis.


Referências:

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=53

CID -10 - Classificação dos transtornos mentais e de comportamento da CID 10: Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas - Organização Mundial de Saúde, trad. Dorgival Caetano, Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

DSM IV- Critérios Diagnósticos do DSM-IV, 4a ed, Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.




domingo, 9 de março de 2014

Desmistificando a Dependência Química



Quando o assunto é dependência química existem vários mitos que rondam o tema e uma série de informações baseadas no simples achismo ou numa replicação contínua de fatos nada científicos. Não pretendo escrever um texto longo demais, nem chato demais sobre o assunto, apenas esclarecer alguns pontos mais comuns sobre como a dependência química ocorre e como ela afeta o ser humano, a partir dos meus estudos e a experiência clínica atendendo esse público.


Primeiramente vamos romper com o mito de quem usa drogas é viciado. O vício é, na verdade, o resultado do uso contínuo daquela substância que causa uma alteração nos processos neuroquímicos do cérebro, seja bagunçando os neurotransmissores, seja aumentando os níveis de serotonina (substância que atua na regulação de vários estamos emocionais). Dessa forma, podemos nos viciar em várias coisas, não só em entorpecentes (cocaína, crack, etc), mas em coisas que encontramos no dia a dia, como refrigerantes, café, chocolate, sexo, jogos. 

Então primeiro temos que definir o que é o vício. Segundo o dicionário Aurélio: vício é "Disposição habitual para certo mal; mau costume". Mas podemos incrementar essa definição, uma vez que o vício é uma repetição de um comportamento nocivo, da qual o sujeito tem pouca consciência por estar tão inserido na busca por sensações agradáveis e/ou que alterem sua consciência. Logo, o vício seria o ato de abusar de uma substância ou comportamento, repetindo-o quase sempre sem controle de forma a atingir sensações de prazer ou alteração da consciência. 

Voltando a questão primordial, então você pode estar se perguntando "Então quem usa maconha, cocaína ou crack não é viciado, drogado?" A resposta é: depende. Uma pessoa pode usar vários tipos de droga (ou um só tipo) e não se viciar, tudo vai depender de uma série de fatores internos e externos. Ah, e drogado é quem está sob efeito de alguma droga (inclusos aí qualquer medicamento que altere as funções cognitivas), enquanto que usuário é aquela pessoa que usa determinado tipo de substância.


Para entender melhor a dependência química temos a questão da tolerância, que é a capacidade que cada organismo tem de "resistir" a essas substâncias alheias, sem provocar a vontade incontrolável de usa-la novamente. Algumas drogas são mais viciantes que outras, isso vai depender da composição química de cada uma, mas a tolerância vai variar de organismo para organismo. Enquanto uma pessoa pode se viciar em crack com um ou dois usos, outro pode levar semanas para adquirir os primeiros sinais de adicção. No momento em que o sujeito começa a buscar a droga cada vez mais, comprometendo sua vida social, familiar, laboral há uma grande chance de que ele esteja realmente viciado. Mas muitos utilizam drogas (lícitas ou ilícitas) e conseguem manter o emprego, as responsabilidades da vida sem maiores problemas. 



Outro mito é o de que uma droga mais leve leva ao uso de outras mais pesadas. Isso é amplamente difundido pela mídia e pelos leigos que tentam entender o fenômeno da dependência química. O uso de determinada droga está associado a diversos fatores, mas vamos enumerar alguns para ficar claro. Primeiro temos a questão do acesso a droga. O sujeito não vai atrás de heroína quando ele pode conseguir maconha ou cocaína com mais facilidade, então o suposto viciado em entorpecentes vai em busca do que está mais próximo dele e do seu círculo social. Se os amigos só bebem, a tendência é usar apenas o álcool, mas se os amigos bebem e fumam maconha esta droga se torna mais acessível para ele do que ir até uma boca de fumo atrás de crack, por exemplo. 

Outro fator é o que leva ao sujeito usar a droga, sua motivação para tal ato. Pode ter um fim "recreativo", como nas reuniões de amigos e festas, ou pode ser para reduzir a ansiedade e o stress (álcool e maconha, por exemplo), esquecer situações desagradáveis e conflitos mal resolvidos também é bastante comum. 

Um fator importante é o relacionamento consigo mesmo, uma vez que o uso da droga pode estar associado a comportamentos exclusivamente destrutivos e é aí onde vemos a maioria dos usuários nos programas policiais e nos noticiários. Quando, para este indivíduo, não há uma perspectiva, não há uma estrutura familiar, não há o básico para sua formação humana, o que resta é uma angústia existencial tão intensa que leva o indivíduo ao comportamento autodestrutivo, não apenas usando drogas variadas, mas desafiando a Lei ao cometer delitos e enfrentamento constante de vários tipos de autoridade.  

Como mencionado no início desse texto, não pretendo esgotar o tema neste artigo, mas sim informar melhor o leito sobre essas questões tão presentes em nossa atualidade. Não devemos brincar com nosso corpo experimentando essas substâncias e achando que não vamos nos viciar, pois isto seria uma roleta russa com nossa própria vida. Pode até ser fácil não acostumar o corpo com o uso de entorpecentes no começo, mas depois que está instaurado o processo de adicção as drogas é muito complicado lidar com isso uma vez que envolve aspectos psicossociais.  

Como leitura complementar, aí vai um texto de um neurocientista, o Dr. Carl Hart, sobre a questão da dependência. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Alucinações e Loucura


Alguma vez na vida você já deve ter se perguntado, mesmo que por brincadeira, "Estou ficando louco?", frente a alguma situação em que você reagiu de forma totalmente diferente do que você agiria ou em face de alguma experiência quase "sobrenatural" que tenha passado pelos seus sentidos. No artigo de hoje vamos...


O que é alucinação?

Primeiro, não me refiro aquela música do Belchior. Segundo para o dicionário da língua portuguesa, alucinação é: 

s.f. Sensação mórbida produzida por algo inexistente.
Devaneio, delírio, ilusão.
Obscurecimento passageiro das faculdades mentais.

Essa é a definição do dicionário, mas delírio e ilusão são outros sintomas psiquiátricos, então vamos a definição de alucinação para a saúde mental. Alucinação, segundo a definição do Dr. Cleto Ponte é uma percepção sensorial falsa não associada a estímulos sensoriais externos, o qual é aceita pelo paciente como verídica. É a percepção real de algo inexistente sem um estímulo externo. Dizemos que a percepção é real, tendo em vista a convicção inabalável que a pessoa manifesta em relação ao objeto alucinado, portanto, será real para a pessoa que está alucinando. 

Mas aí a grande questão que a maioria das pessoas imagina é: se estou alucinando, estarei louco? Estou perdendo a razão, a sanidade? A resposta é: depende. Vamos entender porque.

TIPOS DE ALUCINAÇÃO

Existem alucinações para cada um dos sentidos. 
Alucinações visuais: são as mais comuns, onde o indivíduo vê pessoas, seres, objetos, paisagens, qualquer coisa relacionada com a visão por mais absurda. Já tive pacientes que viam demônios saindo das pessoas, por exemplo.

Alucinações auditivas: também são bastante comuns, a pessoa ouve sons, vozes ou barulhos que não estão no ambiente. Geralmente essas vozes dão comandos ou reforçam uma ideia negativa que a pessoa tem de si ("Você é um fracassado", "Você vai morrer", "Ninguém gosta de você", por exemplo). Tive um paciente que disse que a Virgem Maria lhe disse que o mundo iria acabar e só restaria a cidade onde ele mora.

Alucinações gustativas: incomuns, mas curiosas. O sujeito tem a absoluta certeza de gostos e sabores em sua boca que não estão lá. Gosto de sangue, fezes e outras coisas. Já atendi uma paciente que relatava um gosto de pimenta na boca.

Alucinações táteis: a pessoa tem plena convicção de que há algo no seu corpo ou algo errado com o seu corpo. Há relato de pacientes que sentem formigas ou outro tipo de inseto em seu corpo.

Alucinações olfativas: também são incomuns, o paciente sente odores que não estão no ambiente, geralmente esses odores o acompanham o tempo todo, causando um incômodo constante.


Então, se eu tive algum tipo de alucinação desses, estou ficando doido? Vão me internar num Hospital Psiquiátrico? Claro. Que não. Existem alguns estados que podem ocasionar alucinações em uma pessoa mentalmente saudável.


ALUCINOSE ORGÂNICA

Neste tipo, o sujeito é acometido por alguma moléstia orgânica que o faz alucinar, não tendo a ver com transtorno psiquiátrico. Um exemplo clássico disso é a alucinose por abuso de álcool, uma vez que pessoa com histórico de alcoolismo pode alucinar devido a intoxicação pelo álcool ou pela sua abstinência. A utilização de drogas (lícitas ou ilícitas) pode provocar alucinação. Usar algumas categorias de medicamento e ingerir bebidas alcoólicas pode provocar alucinação. Problemas nos rins, quando os rins estão falhando e o nível de impurezas no sangue aumenta pode também provocar estados alucinatórios, revertendo o quadro quando a patologia é sanada. Drogas como LSD, Crack causam alucinação, abuso de cocaína e outras drogas também. Problemas metabólicos (uremias e diabetes) podem causar alucinação. Traumas (pancadas) na cabeça ou tumores cerebrais podem causar alucinação. Como vimos, em todos os casos citados o problema é essencialmente orgânico ligado a um fator externo que pode ser revertido dependendo da gravidade do problema, fazendo com que a pessoa pare de alucinar.


É possível alucinar sem que seja qualquer uma das situações acima e que não seja um transtorno mental? A resposta é sim! Privação de sono, estados intensos de estresse podem provocar alucinações passageiras. Quando se está caindo no sono e quando se está acordando é possível alucinar, e vou logo avisando que é um processo involuntário. Imagine que você está sonhando com um bombardeio, bombas caindo e explodindo tudo. Você acorda assustado, e mesmo acordado você ouve o barulho das explosões dos aviões por alguns minutos e depois tudo silencia. O nome disso é alucinação hipnopômpica, porque ocorre ao acordar. Agora se você está deitado na sua cama e está quase adormecendo, você sabe que está só no seu quarto e sente a cama afundando como se alguém deitasse com você e depois você dorme. Isto é uma alucinação hipnagógica, porque ocorre ao adormecer. Nenhuma é indicativo de algum problema, todo mundo passa por várias dessas durante a vida. 


Mas então como saber se uma pessoa que está alucinando precisa de tratamento? Alucinação é só um sintoma, o que caracteriza qualquer transtorno são uma série de sintomas, desta forma, depende não só da alucinação, mas do tipo de pensamento e comportamento que o sujeito está manifestando. O ideal é procurar um Psicólogo para que ele possa avaliar. 


OBS: Esse é um site para leigos, então procuro ser o mais claro e simples, evitando jargões complexos e excesso de teoria clínica. Se tiverem alguma duvida, podem perguntar nos comentários ou mandem um e-mail. 


Para saber mais: http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=103

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Psicologia, Cinema e Pipoca #6: A Ilha do Medo

Que tal um filme de suspense? Mesmo sendo uma ficção, o roteiro é muito bem escrito, envolvendo de mistério uma Ilha utilizada como local para tratamento de doentes mentais. O hospital psiquiátrico é isolado de tudo e todos e lá se desenvolve uma trama psicológica densa que vai deixar o expectador curioso e confuso até o ultimo instante. Um filme de fato muito bom.




A ILHA DO MEDO

Título Original: Shutter Island
Ano: 2010
Atores principais: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley
Direção: Martin Scorsese
Gênero: Drama, Thriller

Sinopse: 1954. Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) investiga o desaparecimento de um paciente no Shutter Island Ashecliffe Hospital, em Boston. No local, ele descobre que os médicos realizam experiências radicais com os pacientes, envolvendo métodos ilegais e anti-éticos. Teddy tenta buscar mais informações, mas enfrenta a resistência dos médicos em lhe fornecer os arquivos que possam permitir que o caso seja aberto. Quando um furacão deixa a ilha sem comunicação, diversos prisioneiros conseguem escapar e tornam a situação ainda mais perigosa.


Veja o trailer do filme:

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Comendo Coisas Estranhas


E se você sentisse vontade de comer areia? Que tal cola? Ou ainda um desejo irresistível de comer plástico ou fezes humanas? Sentir desejo algum desses desejos e realizá-los é um transtorno bem incomum, chamado PICA ou alotriofagia, que é o consumo de substâncias inorgânicas (na esmagadora maioria dos casos) ou algumas substâncias orgânicas cruas. 

Você deve estar se perguntando como isso acontece ou o que leva alguém a exercer esse comportamento. Primeiramente, antes de diagnosticar alguém com PICA devemos atentar para a fase do desenvolvimento no qual aquele individuo se encontra. Não é incomum ver crianças pequenas pegando o que veem pela frente e colocando na boca (embora nem sempre haja deglutição). Fatores culturais também entram na identificação de diagnósticos, embora eu não saiba citar aqui que tipo de cultura específica pratica determinada fagia. 

Exemplos de algumas:

Acufagia - ingerir objetos pontiagudos
Amilofagia - comer amido (i.e. de milho ou mandioca)
Auto-canibalismo - comer partes do corpo (raridade)
Cautopireiofagia - ingerir palitos de fósforo apagados
Coniofagia - comer pó
Coprofagia - comer excremento
Emetofagia - comer vômito
Geomelofagia - comer (freqüentemente) batatas cruas
Geofagia - ingerir terra ou solo
Ctonofagia - ingerir terra ou argila (arcaísmo)
Hematofagia - comer sangue
Hialofagia -ingerir vidro
Lithofagia - comer pedras
Mucofagia - ingerir muco
Pagofagia - comer (patologicamente) gelo
Trichofagia - comer cabelo ou lã (fios ou tecido)
Urofagia - ingerir urina
Xilofagia - comer madeira


Geralmente o indivíduo percebe esse ato como estranho, socialmente reprovável, há culpa e sofrimento envolvido. Em alguns casos isso não ocorre, para o indivíduo é normal comer fezes ou cabelo, por exemplo, sem se incomodar com o que os outros vão pensar daquele ato. É certo que é importante investigar um possível retardo mental nos casos de PICA. Sendo descartado o retardo, vamos para outro critério diagnóstico que é o tempo em que a pessoa vem praticando o ato de comer algo inorgânico. Quanto mais tempo, mais certo é o diagnóstico e mais breve essa pessoa deve procurar um Psiquiatra e um Psicólogo para realizar o tratamento, uma vez que dependendo do que ela ingere pode causar diversas complicações. 

A ingestão de cabelos, tricotilofagia, resulta muitas vezes em cirurgia, uma vez que o estômago não digere a queratina presente nos fios de cabelo, ficando uma bola de cabelo no estômago do paciente que só pode ser retirada cirurgicamente (lembrando que tricotilogafia é um transtorno do espectro obcessivo compulsivo). A pessoa que pratica geofagia, ato de ingerir areia, barro, está sujeita a contaminação por vírus, bactérias e parasitas (verminoses, disenterias, cólera, por exemplo e até mesmo tétano). Comer fezes e beber urina fazem parte de alguns fetiches bizarrros, mas estão inclusos aí também, pois como foi relatado o comportamento pode estar trazendo um desconforto imenso para a pessoa que sente culpa em realizar aquele desejo bizarro. 

Então dependendo do que é ingerido a pessoa terá complicações diferentes. Resolvi escrever sobre esse tema, pois recentemente atendi uma gestante que há um mês estava se alimentando das paredes de casa. Ela relatou que almoçava normalmente a comida que havia cozinhado e após terminar ingeria partes da parede de sua casa sem adição de água.

Para finalizar, não expliquei a origem do termo desse transtorno, que leva as pessoas a fazerem piadinhas, principalmente nas aulas de Psicologia. PICA vem do latim pega, que é um pássaro do hemisfério do norte que come tudo que vê pela frente.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

VÍDEO GAMES E VIOLÊNCIA: A FALÁCIA DA MÍDIA


Não é de hoje que casos chocantes de homicídio, suicídio ou assassinato em massa  que chamam a atenção da mídia tem como pano de fundo os vídeo games como vilões, como incentivadores de um comportamento agressivo e caótico nos jovens, dessa forma reacendendo a discussão a respeito da legalidade dos jogos, da classificação etária dos mesmos e de sua influência no comportamento. Meu objetivo nesse artigo é explicar um pouco de como os games influenciam as pessoas e como a violência entra nessa equação.

Primeiramente devemos ter em mente que cada faixa etária tem suas particularidades: enquanto crianças estão formando aspectos centrais da personalidade, adolescentes estão buscando autoafirmar a sua identidade e jovens adultos estão lidando com a passagem da adolescência para a vida adulta. A transição de cada uma dessas fases traz perdas e angústia que são vivenciadas por esses sujeitos em maior e menor grau. Assim, a criança que agora é adolescente tem que dar respostas novas, atendendo a expectativa dos pais, assim como o adolescente que passa para a vida adulta é bombardeado com uma série de responsabilidades novas como faculdade, trabalho, etc. Mas o que isso tem a ver com violência e vídeo games?

Ocorre que nessas fases do desenvolvimento a forma como esse sujeito se relaciona com os pais, com a família e com o mundo vai criar várias possibilidades para ele; é uma série de variáveis que vão afetar seu comportamento, de acordo com sua percepção, de como entende e percebe o mundo. Significa dizer que filhos de pais amorosos tem uma tendência a serem amorosos, serem boas pessoas, mas não é regra, uma vez que o excesso desse amor pode criar permissividades. Assim como filhos de pais negligentes, violentos, ausentes, terão uma tendência a desenvolver esses comportamentos, mas isso não é uma certeza absoluta, vai depender de como esse indivíduo encara essas experiências. Comportamento humano não é determinado, é mutável, são probabilidades, maiores ou menores de que algo se manifeste.

Esse preâmbulo sobre o desenvolvimento humano serve para nos mostrar que, além dos estímulos que nos permeiam, as relações com nossos pais e com nós mesmos também terão um peso em como nos comportaremos no mundo. Serão neuróticos saudáveis.

Vídeo games, filmes, livros, novelas e músicas são formas de expressão, entretenimento e manifestações culturais e artísticas que sempre tem algum tipo de violência, desde a mais explícita a mais velada. Uma música que denigre a imagem da mulher é uma violência simbólica, um livro que fala sobre crimes e mortes é uma violência mais aberta, filmes retratam uma violência muitas vezes crua e jogos eletrônicos simulam diversas situações com ou sem exageros. Todos manifestam alguma violência.

A grande pergunta é: E porque as pessoas não saem todos os dias se matando? Porque pessoas que adoram filmes de terror com desmembramentos e sanguinolência não saem por aí repetindo o que veem (tenho vários amigos que apreciam esse tipo de filme e são tão violentos quanto um bicho preguiça)? Porque não temos milhares de crianças assassinas por aí, já que jogam jogos eletrônicos brutais?

E a resposta é: simplesmente porque entendem que isto é errado, está internalizado em suas psiquês que matar é errado e que sentir desejo por isso é doentio. Essas pessoas sabem diferenciar o que é real do que é fantasia. Filme, jogo de vídeo game, novela, é tudo fantasia. Quando o sujeito passa a ver isso como real ou como possibilidade aí há um problema.  Eu sempre utilizo o exemplo da faca de cozinha, aquela do tipo serrinha de pão. Ela serve pra cortar o pão, passar manteiga ou geléia ou requeijão. Serve pra cortar um bife, uma fruta. Mas pode ser usada para matar. Ela foi criada pela empresa de facas para matar pessoas? Óbvio que não, assim como outros objetos que tem suas funções definidas, mas um ser humano com problemas em sua estrutura da personalidade pode deturpar seu uso/significado e utilizar para matar ou infligir dor ao outro.

Vídeo games, por mais violentos que sejam, são entretenimento, são um passatempo, assim como filmes, novelas, etc. Qualquer ser humano com algum problema psicológico ou algum distúrbio de personalidade latente pode se utilizar dos vídeo games, filmes, músicas para alimentar seus delírios e cometer crimes. O problema é que a mídia sensacionalista sempre procura culpados, sempre quer chamar a atenção culpabilizando alguma forma de entretenimento que aquela pessoa tinha antes de cometer um crime brutal, esquecendo de que antes de jogar o joguinho violento ela pode ter tido relações conflituosas com sua família, algum problema psicológico não diagnosticado. A mídia não tem compromisso com a verdade e sim com chamar a atenção e vender.  A mídia não reflete, apenas joga na sua cara e se você não se limpar e mastigar as idéias vai continuar aceitando muita baboseira que é mostrada como algo real.


Então, senhores pais, tenham mais atenção apenas com o tipo de jogo que seu filho está jogando, ou filme que está assistindo, pois esses produtos vem com classificação etária. Além disso, vamos impor mais limites a essas crianças e adolescentes, pois deixar um jovem jogando games por cinco, seis horas seguidas é um exagero. O problema está nesse exagero e na falta de limites. Pais, não é o jogo violento que vai tornar seu filho um assassino ou uma pessoa cruel, mas sim a forma como você cuida dele, a forma como você se interessa pela vida e pelos problemas pela, a forma como você lida com os erros que ele comete, a forma como você se responsabiliza por ele. É tão mais fácil culpar itens externos, do que se responsabilizar pela maternidade/paternidade. Frisando que mesmo com tudo isso, transtornos psicológicos latentes (que estão lá, mas não se desenvolveram), também podem influenciar esse comportamento violento, sendo os games, filmes e música apenas pano de fundo para justificar um desejo já existente de cometer algo socialmente condenável.

(Violência é causada por vídeo games? Por favor, 
me informe qual jogo as pessoas estão jogando 
por 5000 anos)


ATUALIZAÇÃO!

Recentemente li um artigo interessante que mostra como o vídeo game pode auxiliar no tratamento no déficit de atenção de hiperatividade (TDAH, citado nesse artigo do blog), segue o link do artigo:


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Psicologia, Cinema e Pipoca #5: Bicho de Sete Cabeças

Minha recomendação de hoje é um filme brasileiro icônico que ganhou bastante visibilidade por abordar um tema polêmico na época de seu lançamento: a questão da loucura e dos hospitais mentais. O filme chocou muita gente, por mostrar uma visão muito próxima (senão idêntica) da realidade do que acontecia nos hospitais mentais (hospitais psiquiátricos ou asilos), justamente na época em que ocorriam várias mudanças na saúde mental de nossa país. O filme pode ser chocante sim, mas não só nos mostra a loucura, como a sanidade contida na loucura, além de ser uma espécie de retrato histórico de um passado recente do Brasil.

BICHO DE SETE CABEÇAS

Título Original: Bicho de Sete Cabeças
Ano: 2000
Atores principais: Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kiss
Direção: Laís Bodanzky
Gênero: Drama

Sinopse: Seu Wilson (Othon Bastos) e seu filho Neto (Rodrigo Santoro) possuem um relacionamento difícil, com um vazio entre eles aumentando cada vez mais. Seu Wilson despreza o mundo de Neto e este não suporta a presença do pai. A situação entre os dois atinge seu limite e Neto é enviado para um manicômio, onde terá que suportar as agruras de um sistema que lentamente devora suas presas.



Esse filme foi a produção que deu uma alavancada na carreira do ator Rodrigo Santoro, ele está simplesmente sensacional nesse papel. Abaixo segue o trailer do filme.

Trailer do filme Bicho de Sete Cabeças